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segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

As conseqüências do abuso sexual nos adultos abusados durante sua infância / Amanda Teixeira


Segundo o Aurélio, p. 85 e 738. “Abuso sexual é violação, mau uso, o uso errado, excessivo, ou injusto do sexo”. 

Abuso sexual é toda situação em que uma criança é utilizada para gratificação sexual das pessoas, ou para oferecer prazer e satisfação sexual em um adulto. O abuso pode ser uma relação heterossexual ou homossexual cujo agressor está em estagio de desenvolvimento psicossexual mais adiantado que a criança, usufruindo do poder, entre abusador e abusado, assim o abusador usa a violência física e ameaças para impor as práticas eróticas.  
O abuso sexual inclui o incesto, a violação, o estupro, atentado violento ao pudor, o assédio, o contato corporal, invasão de privacidade, negligência, a estimulação verbal e visual impróprias, pornografia, as caricias ou toques inadequados. Abusar é precisamente ultrapassar os limites, ou seja, um ato de transgressão.
 No primeiro trimestre de 2010, foram registrados no SEV 25 casos de violência contra crianças e adolescentes, sendo que de abril a junho esse número aumentou para 29. E nos três últimos meses de julho, agosto e setembro o números de casos subiram para 46.
Os bairros mais afetados de boa vista são os bairros da periferia, onde as famílias precisam trabalhar, e na maioria das vezes as crianças ficam sozinhas, para realizarem afazeres de casa, e ficam a mercê do abusador, sem o cuidado de alguém que a protege e dê atenção necessária para evitar a agressão.

 Nem sempre o abusado sofre com contato físico, pois, o abuso divide-se em:
             SEM CONTATO FÍSICO: quando se fala em abusos cometidos sem contato físico pode parecer que eles causam menos danos que aqueles que envolvem contatos, mas isso é um grande engano, pois, tudo que envolve violência sexual sempre causar algum tipo de dano emocional.
       Abuso sem contato físico pode ser caracterizado como abuso sexual verbal,são conversas destinadas a despertar o interesse da criança ou chocá-lo. Telefonemas obscenos, na maioria das vezes feito por adultos especialmente do sexo masculino, podendo gerar ansiedade na criança e na família. Exibicionismo é o ato de mostrar os órgãos genitais ou se masturbar diante da criança. Voyeurismo, observar fisicamente atos ou órgãos sexuais de outras pessoas, quando elas não desejam serem vistas e em conseqüência desse ato obter satisfação.  
          COM CONTATO FÍSICO: sendo caracterizado; em atos físicos genitais, relações genitais com penetração vaginal, carícias, masturbação, sexo oral e penetração anal. Sadismo, abuso sexual incluindo flagelação, torturas e surras. Pornografia, prostituição de crianças e exploração visando fins econômicos.
  O abuso sexual acontece em todos os níveis socioeconômicos, religiosos e étnicos, em qualquer classe social, envolvendo pessoas com bons níveis de instrução ou não. As vítimas de abuso sexual são de ambos os sexos, mas as meninas são os maiores alvos.

Conseqüências do abuso sexual
Devido o fato de a criança muito nova não estar preparada psicologicamente para o estimulo sexual as conseqüências da violência sexual são inúmeras, como por exemplo, comportamento rebelde, enfermidades psicossomáticas, que são vários problemas de saúde sem aparente causa clínica, como dor de cabeça, vômitos, fobias, erupções na pele, dificuldades digestivas que tem na realidade, fundo psicológico e emocional.
 As conseqüências perduram por muito tempo depois do abuso, muitas vezes o adulto que foi abusado leva as seqüelas para o resto da vida, afetando até mesmo na hora de definir o próprio sexo, e outras vezes as conseqüências da agressão é levada para o casamento, a gestação pode ser problemática, aparecendo complicações orgânicas. O abusado corre o risco também de não desenvolver qualidade nas relações sexuais, demonstrando desprazer, aversão sexual, e muitas vezes a incapacidade de atingir o orgasmo ou demorar muito tempo para atingi-lo.
Uma das conseqüências do abuso sexual também são as doenças sexualmente transmissíveis, DSTs, incluindo AIDS e hepatite B. Coceiras na área genital, infecção urinária, odor vaginal, corrimento, secreções, penianas e cólicas intestinais, dor constante na vagina, no ânus, dificuldade em engolir devido à inflamação causada por gonorréia na garganta (amídalas), reflexo de engasgo hiperativo causado por sexo oral, inchaço, lesão e sangramento nas áreas da vagina ou ânus, a ponto de causar dificuldade de caminhar e sentar, hemorragias.
           Consequentemente estes atos levam a gravidez precoce, colocando em risco a vida da criança.

Mudanças Psicológicas
Sentimento de isolamento, medo indefinido, permanente sentimento de culpa, depressão, sentimento de estar "marcado" para o resto da vida. Tentativa de suicídio, preocupação em agradar os outros, medo de sair na rua, agitação, autoflagelação, vergonha excessiva, inclusive em mudar de roupa na frente das pessoas, baixo rendimento escolar, ansiedade generalizada, desconfiança no adulto, comportamento tenso, sempre em estado de alerta, fadiga e personalidade múltipla.
A vítima de abuso sexual passa a considerar o corpo pouco atraente, obtendo assim sentimento de baixa auto-estima, quando evidencia sentimentos de menos valia por pensar ser diferente dos outros, passa a ter sexualidade vista como punitiva, com culpabilidade, sem prazer, podendo interferir de forma traumática no jogo da sedução, erotização, falta de amor próprio, perda da integridade física, culpa, oferecendo possível dificuldade de relacionamentos sexuais na idade adulta.

Mudanças no comportamento 
E certas situações nota dificuldade de expressar o sentimento de raiva, queda no rendimento escolar, atitudes autodestrutivas, agressividade contra a família, uso excessivo de álcool e de drogas, regressão da linguagem e do comportamento, aumento do grau de provocação erótica, perturbações durante o sono, pesadelos constantes e até mesmo desinteresse em brincar com outras crianças.
A criança abusada torna-se também lenta, inquieta, sempre muito irritada e pouco tolerante quando adultos a elogiam, ganha ou perde peso, visando afetar a atratividade do agressor, sendo visível mudanças súbitas e inexplicáveis no comportamento, mentiras, roubos, fuga de casa, oscilações no humor entre retraída e extrovertida, regressão a comportamentos infantis, chupar dedo, choro excessivo sem causa aparente, depressão crônica, comportamentos suicida, mal-estar pela sensação de modificação do corpo.
A criança mostra experiência em determinados assuntos inadequados para a faixa etária que se encontra, desenvolvendo brincadeiras sexuais persistentes com amigos, animais e brinquedos, demonstra confusão de idade, medo de escuro e de lugares fechados.
O abuso sexual altera as percepções da criança, as emoções, a imagem que ela vê de si mesma, a visão da própria capacidade afetiva e do mundo familiar. Estes fatores produzem estresse, angústia, perda de energia, fugas e transtorno de identidade sexual.

           Cuidados corporais e higiênicos
A vítima que sofreu o abuso sexual desenvolve resistência em participar de atividades físicas, aparência descuidada, sem ânimo para produzir-se para uma ocasião importante, incapaz de perceber qualidade em si mesma, toma banho varias vezes ao dia, devido ao fato de sentir-se suja pela agressão sofrida, e nota-se algumas vezes mudança nos hábitos alimentares, falta de apetite (anorexia), ou excesso de alimentação (obesidade). Sentir a boca, quando usada no ato sexual, sempre suja, e sucessivamente todo o corpo.

Pontos de ajuda no combate ao abuso sexual
Os familiares dos abusados podem recorrer nas seguintes instituições: Conselho Tutelar, Juizado da Infância e da Adolescência, Ministério Público, CEDICA – Conselho Estadual dos Direitos das Crianças e Adolescentes, DECA – Delegacia da criança e do Adolescente, COMDICA – Conselho Municipal dos Direitos das Crianças e Adolescentes, Abrigos, Postos de Saúde, Prefeituras, Igrejas, Fórum Municipal dos Direitos da Criança e Adolescente, ONG de Defesa de Criança e Adolescentes, Poder Judiciário, Delegacias de Policia, Escolas, Movimentos Sociais, Sindicatos, Conselhos de Direitos da Mulher, Câmara de Vereadores, Entidades de Mulheres e Feministas.
Todos esses órgãos e instituições são importantes para ajudar a combater a violência, o abuso, e a exploração sexual.

Abuso Sexual Infantil / Texto elaborado por Marta Cabrita


O que é?
O Abuso Sexual Infantil é definido como a exposição de uma criança a estímulos sexuais impróprios para a sua idade, o seu nível de desenvolvimento psicossocial e o seu papel na família. Ou seja, o abuso sexual infantil é qualquer conduta sexual com uma criança, originado por um adulto ou criança mais velha, em que ocorre penetração vaginal/anal, toque da criança nos genitais do adulto e vice-versa, contacto genital-anal ou quando os genitais do adulto roçam nos da criança.
                  
Podem ocorrer outros tipos de abusos sexuais infantis, mas que são considerados menos graves dos que os anteriormente referidos, como mostrar os genitais do adulto à criança, incitar a criança a ver revistas ou filmes pornográficos ou utilizar a criança para o fabrico de material pornográfico.
O Abuso Sexual Infantil pode ocorrer na família, através do pai, do padrasto, do irmão, ou outro parente qualquer. Pode ocorrer fora de casa, na casa de algum amigo, por um professor, ou mesmo por um desconhecido.

A criança abusada
A criança que é vítima de abuso sexual prolongado, normalmente desenvolve uma perda de auto-estima, tem a sensação de que não vale nada e adquire uma ideia anormal da sexualidade. A criança pode tornar-se muito retraída, perder a confiança nas pessoas e até considerar o suicídio, principalmente quando a pessoa que abusa a ameaça de violência se se negar aos seus desejos.
Quando os abusos sexuais ocorrem na família, a criança pode ter, e normalmente tem, muito medo da violência do parente abusador, da vergonha dos outros membros da família, das possibilidades de vingança, e também medo que a família se desintegre, ou que não acredite nela. 
As crianças abusadas sexualmente, quando em adultos, têm muitas dificuldades em criar relações harmónicas com outras pessoas, podem tornar-se em adultos que também abusam de outras crianças, podem prostituir-se ou podem ter outros problemas sérios.
O comportamento das crianças abusadas sexualmente pode ser muito variado, e pode incluir:
- Interesse excessivo ou o evitar de natureza sexual;
- Problemas com o sono e pesadelos;
- Depressão ou isolamento em relação a amigos e família;
- Achar que têm o corpo sujo ou contaminado;
- Terem medo de que haja algo de mal com os seus genitais;
- Negarem-se a ir à escola;
- Rebeldia e delinquência;
- Agressividade excessiva;
- Comportamento suicida;
- Terror e medo de algumas pessoas ou alguns lugares;
- Respostas ilógicas quando perguntamos sobre alguma ferida nos seus genitais;
- Terror irracional diante do exame físico;
- Mudanças súbitas de conduta.

O agressor
Usualmente quem abusa sexualmente de crianças são pessoas que a criança conhece e que podem controlá-la. Na maioria dos casos, a criança conhece o abusador. Esta pessoa, normalmente é alguém de quem a criança gosta e em quem confia. Por isso, quase sempre, consegue convencer a criança a participar neste tipo de actos através da persuasão, recompensas ou ameaças.
Quando o abuso sexual não ocorre dentro de casa, este pode rondar algum sítio frequentado regularmente pela criança, como a escola, o local onde poderá praticar alguma actividade, entre outros.
Normalmente, os adultos conhecidos, como por exemplo, o pai, o padrasto, irmão mais velho, são os agressores sexuais mais frequentes, apesar de existirem casos em que os agressores sejam do sexo feminino
Os casos de abuso sexual infantil começam lentamente, apenas com a prática de “carinhos” que raramente deixam lesões físicas, passando mais tarde a outro tipo de atitudes. É neste momento de mudança entre “carinhos” e outras atitudes, que a criança questiona, como é que alguém em quem ela confia e de quem gosta, pode ter atitudes tão desagradáveis.

A família da criança abusada
A primeira reacção da família diante da notícia de abuso sexual pode ser de incredulidade. Muitas vezes acreditam que as crianças inventaram histórias. De um modo geral, mesmo que o suposto abusador seja conhecido, é importante que não se ponha em causa a denúncia da criança.
Em geral, aqueles que abusam sexualmente de crianças podem fazer com que as suas vítimas fiquem extremamente assustadas e com medo, sujeitando-as a uma série de pensamentos torturantes, tais como a culpa, o medo de ser recriminada, de ser punida, etc. Por isso, se a criança diz ter sido abusada sexualmente, os pais devem fazê-la sentir que o que se passou não foi sua culpa, devem procurar ajuda médica e levar a criança a um psicólogo.
               
Sequelas
Os danos físicos permanentes como consequência do abuso sexual são muito raros. A recuperação emocional, depende, em parte, da reacção da família. As reacções ao abuso sexual variam com a idade e com a personalidade de cada criança, bem como da natureza da agressão sofrida.
O período de readaptação depois do abuso é difícil não só para a criança, mas também para a família. Muitas crianças continuam com medo por várias semanas, podendo ter dificuldades em comer e dormir.
Ao nível dos traços do desenvolvimento da personalidade, o abuso sexual infantil pode estar relacionado com futuros sentimentos de traição, desconfiança, hostilidade e dificuldades nos relacionamentos, sensação de vergonha, culpa e auto-desvalorização. Relacionado também com o abuso sexual infantil temos a Personalidade de Boderline e o Transtorno de conduta.
Ao nível de quadros psiquiátricos mais graves, o abuso sexual infantil relaciona-se com o Transtorno de Stress Pós-Traumático, com a depressão, disfunções sexuais, quadros dissociativos ou conversivos (histéricos), dificuldade de aprendizagem, transtornos do sono, transtornos da alimentação, ansiedade e fobias.

Recuperação da vítima
Quando a criança confia a um adulto que foi vítima de abuso sexual, seja o abusador um familiar ou não, esse adulto deve imediatamente assegurar a protecção da criança, e apesar de não saber o que fazer por se sentir incomodado, deve:
- Incentivar a criança a falar livremente do que se passou;
- Demonstrar que compreende a angústia dela e levar a sério o que está a dizer;
- Assegurar à criança que fez bem em contar o que se passava, mesmo que o abusador seja um familiar;
- Mostrar à criança que ela não tem culpa do abuso sexual. A maioria das crianças vítimas de abuso sexual pensa que elas foram a causa do ocorrido ou podem pensar que é um castigo por algo errado que tenham feito.
                  
Quando se sabe de algum caso de abuso sexual, deve-se pensar em algumas condutas, como:
- Informar as autoridades de qualquer suspeita;
- Consultar um pediatra ou médico de família para atestar a veracidade da agressão;
- Levar a criança a fazer uma avaliação psiquiátrica para determinar os efeitos emocionais da agressão sexual, bem como avaliar a necessidade de ajuda profissional para superar o trauma do abuso;
- Ainda que a maior parte das acusações de abuso sejam verdadeiras, pode haver falsas acusações em casos de disputa sobre a custódia infantil;
- Quando a criança tem que testemunhar sobre a identidade do seu agressor, deve-se preferir métodos indirectos e especiais;
- Quando a criança faz uma confidência a alguém sobre abuso sexual é importante dar-lhe apoio para assim ajudar no restabelecimento da sua autoconfiança, na confiança nos outros adultos e na melhoria da sua auto-estima.
                  
Bibliografia:
http://www.virtualpsy.org/infantil/abuso.htmlPolícia e Justiça III Série Família, Violência e Crime – abuso sexual de crianças: características e dinâmicas (Ana Isabel Sani)
Manual para o atendimento de crianças vítimas de violência sexual (Associação Portuguesa de Apoio à Vítima – APAV)
Texto elaborado por Marta Cabrita

Sexualidade X Violência / Jussara de Barros


Em tempos de globalização, acesso fácil a tudo o que se passa no mundo, cada vez mais temos visto casos de crianças e adolescentes explorados e abusados sexualmente.
Nunca se viu tanto noticiário na TV sobre o assunto, onde os agressores são pessoas do contato direto das crianças ou adolescentes, sendo os próprios pais, padrastos, tios, avós, vizinhos, ou outras pessoas próximas.
Na escola, esses alunos vão se mostrando retraídos, tristes ou com uma personalidade mais agressiva, facilmente percebida pelos professores, que podem questionar para o aluno se o mesmo está passando por algum tipo de problema.
Trabalhar a sexualidade na escola não é mais aquele problema de antes, onde a sociedade não aceitava o assunto ou temia que uma professora mais moderninha pudesse virar a cabeça das crianças e jovens.
Pelo contrário, hoje em dia os diálogos sobre a sexualidade devem acontecer a fim de mostrar aos estudantes que existe proteção para os mesmos, que possuem amparo da lei, de entidades públicas e da própria escola, que não estão sozinhos nesse triste caminho.
Algumas séries são favoráveis às discussões, devido à maturidade dos alunos, outras já trazem os conteúdos referentes ao corpo humano, mas segundo o psicólogo e especialista, Içami Tiba, não existe idade certa para se falar de sexualidade, mas sim o momento adequado, onde o adulto deve esclarecer apenas o que a criança ou jovem perguntou.
Trabalhar sobre o corpo humano, falar de seus órgãos e de suas funções é uma grande oportunidade para se abordar o tema.
Valorizar as pesquisas, incentivar as discussões, observar as diferentes condutas dos alunos durante a exposição do assunto é um ótimo recurso para se tirar algumas conclusões. Algumas crianças ou jovens se esquivam das conversas, não opinam, demonstrando medo, tensão, choro, o que pode demonstrar algum tipo de problema ou mesmo uma situação de risco. Outras pegam nas partes íntimas, manifestando algum incômodo.
Casos opostos, com a supervalorização da genitália e da sensualidade aflorada também podem ser características de que a sexualidade está em evidência.
Ao desconfiar de que algum aluno esteja sofrendo abusos, o melhor é acolher a criança de forma gentil. Depois, conversar num local mais reservado a fim de colher algumas informações sobre o que a incomoda quando o assunto é discutido. Nesse momento, se a criança ou o jovem sentir espaço de confiança e segurança, poderá revelar aquilo que está sofrendo ou presenciando.
Mesmo assim, pode não contar o seu “segredo” por medo da desintegração familiar, medo de desapontar sua mãe ou de que a mesma duvide de sua palavra, já que sua autoestima encontra-se muito baixa.
Em casos de desconfiança, é necessário que o professor compartilhe a dúvida com a coordenação e direção da escola, mas nunca descarte a hipótese, pois episódios de abuso sexual não podem ser tratados com descaso. Pelo contrário, se descobertos devem ser denunciados às delegacias especiais.
Um grande problema que as mulheres têm enfrentado é que esses abusos e agressões, na maioria dos casos, partem de seus próprios parceiros. Recebendo ameaças, calam-se diante do problema, temendo sofrer represálias ou mesmo risco de perda de sua vida ou da criança abusada.
Reuniões na escola podem orientar sobre os direitos e deveres das mães diante de tais fatos, bem como das penalidades cabíveis por lei, em casos de cumplicidade da mesma com o agressor.
Aos poucos, a escola cumpre o seu papel social, mostrando que é uma instituição responsável pela formação integral do sujeito, do exercício da cidadania, repensando nos melhores caminhos para defender a integridade moral dos alunos e de suas famílias.
Por Jussara de Barros
Graduada em Pedagogia
Equipe Brasil Escola




sábado, 16 de fevereiro de 2013

É lamentável, que os índices envolvendo pedofilia em nosso país estejam aumentando de forma acentuada. Considerado, um dos crimes mais repugnantes; que consiste no abuso de crianças. O mesmo, geralmente acontece dentro da própria família, e o que pior, é triste presenciar a calamidade que está se impondo dentro da sociedade, através desse crime bárbaro. 

Além de se tratar de um crime horrendo e imoral, na maioria das vezes é praticado por alguém, da própria família, ou por um vizinho, ou aquela pessoa em quem a família deposita a maior confiança.

Em pleno século XXI, vem ocorrendo de forma exacerbada o crime de pedofilia através do uso da cibernética, tendo como propagador de informações a internet, que está presente na maioria dos lares. Este instrumento de propagação teria como finalidade principal, divulgar difundir, propagar informações com maior celeridade como realmente acontece, só que, infelizmente a mesma vem sendo usado com outra finalidade.

A pedofilia praticada na internet, que consiste em produzir, publicar, vender, adquirir e armazenar pornografia infantil pela rede mundial de computadores, por meio das páginas da Web, e-mail, newsgroups, salas de bate-papo (chat), ou qualquer outra forma.

Compreende, ainda, o uso da internet com a finalidade de aliciar crianças ou adolescentes para realizarem atividades sexuais ou para se exporem de forma pornografia.

O pior de tudo, é que as cenas mostradas, não são montagens, é resultado daquilo que realmente aconteceu e acontece com crianças e adolescentes, isso é revoltante sob todos os aspectos.

Denuncie !!!!



Prescrição para crime de abuso e exploração sexual de menores tem prazo estendido

Prescrição para crime de abuso e exploração sexual de menores tem prazo estendido 

— registrado em: ação penal, direitos, crime sexual, lei, Legislativo, ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente), infância e juventude

Desde o dia 18 de maio, Dia de Luta contra o Abuso e Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes, entrou em vigor a Lei nº 12.650, que modificou as regras relativas ao prazo prescricional dos crimes contra a dignidade sexual de crianças e adolescentes.

Antes, a prescrição, ou seja, o tempo para o agressor ser julgado ou punido pelo Estado, era contada a partir do crime praticado. Hoje, ela começa a ser contada quando a vítima completar 18 anos. Essa lei altera o Código Penal para dar mais tempo para que a criança ou adolescente que tenha sofrido abuso sexual possa ingressar com uma ação penal contra o agressor.

Na prática, como isso funciona?

Por exemplo, uma criança sofre um abuso sexual aos 12 anos de idade, um estupro. Este crime é de maior gravidade e prescreve em 20 anos, ou seja, de acordo com a lei antiga, a criança teria 20 anos após o ato para denunciar o agressor: 12 + 20 = 32. Então, ela teria até os 32 anos para denunciá -lo

Pela nova lei, ela pode denunciar até os 38, ou seja, 18 anos (quando começa a prescrição) + 20 anos. Como, muitas vezes, os crimes são praticados por pessoas próximas à criança, ela não consegue denunciar o agressor, por medo ou vergonha, mesmo porque ela, na maioria das vezes, também não entende bem o que aconteceu. Agora, ela pode chegar a maioridade e, com mais maturidade e independência, fazer a denúncia.



A lei levou o nome de “Lei Joanna Maranhão”, nome da nadadora pernambucana que, em 2008, revelou ter sido abusada na infância por um treinador. Sua coragem de revelar seu segredo, segundo ela, pode até ajudar outras pessoas a fazerem o mesmo.



No Brasil, nós temos o Disque Direitos Humanos, o Disque 100, onde pode ser denunciada a agressão, pois esse serviço trata, entre outros, de grupos sociais vulneráveis, como as crianças e os adolescentes.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

O Caminho / Bya Albuquerque

Uma mulher estava caminhando. Não carregava bagagem material, somente ressentimentos, raiva, frustração, humilhação e vergonha. Numa das curvas ela sentou-se para descansar, pois a carga emocional pesava muito. Começou a pensar em como se livrar da negatividade...e tentou pensar em soluções...
Lembou-se de quantas vezes esteve errada, mas mesmo assim a vida sempre deu-lhe uma segunda chance. Então por que não perdoar? Refletiu muito sobre o tamanho e intensidade do perdão e se todos que a magoaram mereciam essa dádiva. Após algum tempo, percebeu que muitos deveriam ter uma segunda chance e aqueles a quem ainda não poderia perdoar totalmente, não mereciam o seu ressentimento...Após levantar-se, se sentiu um pouco mais leve e continuou a andar.
Num certo lugar resolveu sentar-se novamente, pois a carga ainda pesava. Agora pensava sobre a raiva e suas consequências emocionais e físicas. Levou minutos para concluir que não valia a pena e livrou-se dessa carga rapidinho. Afinal: raiva só gera mais raiva e pensamentos negativos. Ao levantar-se, percebeu que havia parado de chover e que caminhar estava sendo mais fácil...mais leve.
Andando e sempre refletindo, concluiu que as frustrações fazem parte da vida e que poderia trocar suas expectativas por outros sonhos e ter a esperança de um recomeço. Percebeu que cada vez mais sentia-se leve e que a paisagem ao seu redor estava se modificando e clareando.
Lembou-se de toda a humilhação pela qual passou e a vergonha que sentiu por causa da mesma...e percebeu que não foi ela a humilhar e, portanto, não deveria sentir vergonha. Nesse momento toda a leveza e o alívio invadiram o seu ser. Olhando em volta, viu que estava num campo florido...percebeu que havia esperanças e de que somente ela mesma poderia fazer as suas conquistas, carregando o perdão...a paz...a harmonia...e o amor.

















quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Novo depoimento no Blog / Depoimentos

Recebi esse depoimento como um comentário para esse blog, uma postagem de 2011. Ana, por algum motivo, não conseguiu postar o comentário, então mandou o mesmo para meu e-mail. Quando li, senti toda a força e o sofrimento dela. E já que ela ia postar em forma de um comentário, dei o endereço do blog / depoimentos e pedi permissão para postar aqui a sua triste história. Ana, que você possa encontrar forças e esperança para sair dessa escuridão. Abraço carinhoso, Bya.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Psicoterapia / Crystal Espaço Terapêutico


Quando pensamos em procurar uma psicoterapia muitas vezes sentimos vergonha desse primeiro contato; lutamos e adiamos o quanto dá essa procura profissional. Por que será que precisamos ser sempre tão auto-suficientes? Com o passar do tempo e das inúmeras reportagens sobre a Psicologia e em especial a psicoterapia, desmitifica-se a ideia ultrapassada de que consultório de psicologia é coisa de "maluco", que é "para gente louca". Por que não pensamos que será um local para cuidar de si mesmo? Aliás o que cada um de nós faz pela própria saúde? O que fazemos de nós mesmos é a eterna questão. E nem vamos aqui entrar na questão complexa do que vem a ser saúde. Mas retomando a questão da psicoterapia sabemos que muitas pessoas se acham fracassadas por procurar ajuda; sentem vergonha de contar suas vidas a uma pessoa desconhecida; pensam ser culpadas por algo de errado que aconteceu ou pela necessidade de ajuda; muitos se sentem frágeis em não saber lidar com questões sentimentais. Seja qual o motivo for, e psicoterapia nem precisa ter motivos tão intensos, pois acredito que o fato de querermos nos conhecer e aprender mais sobre nós mesmos já seria um ótimo motivo, o que importa é fazermos algo por nós mesmos. Todos nós precisamos de sentido de vida, de sonhos, expectativas e a sensação de que escolhemos os melhores caminhos, ou ao menos os caminhos possíveis.




segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

A MAIOR TRAGÉDIA DE NOSSAS VIDAS / Fabrício Carpinejar


ESSE TAMBÉM É O MEU SENTIMENTO...BYA.


Morri em Santa Maria hoje. Quem não morreu? Morri na Rua dos Andradas, 1925. Numa ladeira encrespada de fumaça. 

A fumaça nunca foi tão negra no Rio Grande do Sul. Nunca uma nuvem foi tão nefasta.

Nem as tempestades mais mórbidas e elétricas desejam sua companhia. Seguirá sozinha, avulsa, página arrancada de um mapa.

A fumaça corrompeu o céu para sempre. O azul é cinza, anoitecemos em 27 de janeiro de 2013.

As chamas se acalmaram às 5h30, mas a morte nunca mais será controlada.

Morri porque tenho uma filha adolescente que demora a voltar para casa.

Morri porque já entrei em uma boate pensando como sairia dali em caso de incêndio.

Morri porque prefiro ficar perto do palco para ouvir melhor a banda.

Morri porque já confundi a porta de banheiro com a de emergência.

Morri porque jamais o fogo pede desculpas quando passa.

Morri porque já fui de algum jeito todos que morreram.

Morri sufocado de excesso de morte; como acordar de novo?

O prédio não aterrissou da manhã, como um avião desgovernado na pista.

A saída era uma só e o medo vinha de todos os lados.

Os adolescentes não vão acordar na hora do almoço. Não vão se lembrar de nada. Ou entender como se distanciaram de repente do futuro.

Mais de duzentos e quarenta jovens sem o último beijo da mãe, do pai, dos irmãos.

Os telefones ainda tocam no peito das vítimas estendidas no Ginásio Municipal.

As famílias ainda procuram suas crianças. As crianças universitárias estão eternamente no silencioso.

Ninguém tem coragem de atender e avisar o que aconteceu.

As palavras perderam o sentido.



Foto: A MAIOR TRAGÉDIA DE NOSSAS VIDAS

Fabrício Carpinejar

Morri em Santa Maria hoje. Quem não morreu? Morri na Rua dos Andradas, 1925. Numa ladeira encrespada de fumaça. 

A fumaça nunca foi tão negra no Rio Grande do Sul. Nunca uma nuvem foi tão nefasta. 

Nem as tempestades mais mórbidas e elétricas desejam sua companhia. Seguirá sozinha, avulsa, página arrancada de um mapa. 

A fumaça corrompeu o céu para sempre. O azul é cinza, anoitecemos em 27 de janeiro de 2013. 

As chamas se acalmaram às 5h30, mas a morte nunca mais será controlada. 

Morri porque tenho uma filha adolescente que demora a voltar para casa. 

Morri porque já entrei em uma boate pensando como sairia dali em caso de incêndio. 

Morri porque prefiro ficar perto do palco para ouvir melhor a banda. 

Morri porque já confundi a porta de banheiro com a de emergência.

Morri porque jamais o fogo pede desculpas quando passa. 

Morri porque já fui de algum jeito todos que morreram.  

Morri sufocado de excesso de morte; como acordar de novo? 

O prédio não aterrissou da manhã, como um avião desgovernado na pista.  

A saída era uma só e o medo vinha de todos os lados.

Os adolescentes não vão acordar na hora do almoço. Não vão se lembrar de nada. Ou entender como se distanciaram de repente do futuro.

Mais de duzentos e quarenta jovens sem o último beijo da mãe, do pai, dos irmãos.

Os telefones ainda tocam no peito das vítimas estendidas no Ginásio Municipal. 

As famílias ainda procuram suas crianças. As crianças universitárias estão eternamente no silencioso. 

Ninguém tem coragem de atender e avisar o que aconteceu.

As palavras perderam o sentido.

A menina quebrada / ELIANE BRUM - Revista ÉPOCA


Era uma festa. Comemorávamos a vinda de um bebê que ainda morava na barriga da mãe. Eu havia acabado de segurá-la para que ela passasse a pequena mão na água da fonte do jardim. Ela tentava colocar o dedo gorducho no buraco para que a água se espalhasse, como tinha visto uma criança mais velha fazer. Parecia encantada com a possibilidade de controlar a água. Tem 1 ano e oito meses, cabelos cacheados que lhe dão uma aparência de anjo barroco e uns olhos arregalados. Com olheiras, Catarina é um bebê com olheiras, embora durma bem e muito. De repente, ela enrijeceu o corpo e deu um grito: “A menina.... A menina.... Quebrou”.  
Era um grito de horror. O primeiro que eu ouvia dela. Animação, manha, dor física, tudo isso eu já tinha ouvido de sua boca bonita. Aquele era um grito diferente. Não parecia um tom que se pudesse esperar de alguém que ainda precisava se esforçar para falar frases completas. Catarina estava aterrorizada. “A menina... A menina...” Ela continuava repetindo. Olhei para os lados e demorei um pouco a enxergar o que ela tinha visto em meio à tanta gente. Uma garota, de uns 10, 12 anos, talvez, com uma perna engessada. “Quebrou...” Catarina repetia. “A menina... quebrou.” 
Ela não olhava para mim, como costuma fazer quando espera que eu esclareça alguma novidade do mundo. Era mais uma denúncia. Pelo resto da festa, ela gritou a mesma frase, no mesmo tom aterrorizado, sempre que a menina quebrada passava por perto. Nos aproximamos da garota, para que Catarina pudesse ver que ela parecia bem, e que os amigos se divertiam escrevendo e desenhando coisas no gesso, mas nada parecia diminuir o seu horror. Os adultos próximos tentaram explicar a ela que era algo passageiro. Mas ela não acreditava. Naquele sábado de janeiro Catarina descobriu que as pessoas quebravam.  
Eu a peguei, olhei bem para ela, olho no olho, e tentei usar minha suposta credibilidade de madrinha: “A menina caiu, a perna quebrou, agora a perna está colando, e depois ela vai voltar a ser como antes”. Catarina me olhou com os olhos escancarados, e eu tive a certeza de que ela não acreditava. Ficamos nos encarando, em silêncio, e ela deve ter visto um pouco de vergonha no assoalho dos meus olhos. Era a primeira vez que eu mentia pra ela. E dali em diante, ela talvez intuísse, as mentiras não cessariam. Naquela noite, depois da festa, fui dormir envergonhada.  
O que eu poderia dizer a você, Catarina? A verdade? A verdade você já sabia, você tinha acabado de descobrir. As pessoas quebram. Até as meninas quebram. E, se as meninas quebram, você também pode quebrar. E vai, Catarina. Vai quebrar. Talvez não a perna, mas outras partes de você. Membros invisíveis podem fraturar em tantos pedaços quanto uma perna ou um braço. E doer muito mais. E doem mais quando são outros que quebram você, às vezes pelas suas costas, em outras fazendo um afago, em geral contando mentiras ou inventando verdades. Gente cheia de medo, Catarina, que tem tanto pavor de quebrar, que quebram outros para manter a ilusão de que são indestrutíveis e podem controlar o curso da vida. E dão nomes mais palatáveis para a inveja e para o ódio que os queima. Mas à noite, Catarina, à noite, eles sabem. 
E, Catarina, você tem toda a razão de duvidar. Depois de quebrar, nunca mais voltamos a ser como antes. Haverá sempre uma marca que será tão você quanto o tanto de você que ainda não quebrou. Viver, Catarina, é rearranjar nossos cacos e dar sentido aos nossos pedaços, os novos e os velhos, já que não existe a possibilidade de colar o que foi quebrado e continuar como era antes. E isso é mais difícil do que aprender a andar e a falar. Isso é mais difícil do que qualquer uma das grandes aventuras contadas em livros e filmes. Isso é mais difícil do que qualquer outra coisa que você fará.  
Existe gente, Catarina, que não consegue dar sentido, ou acha que os farelos de sentido que consegue escavar das pedras são insuficientes para justificar uma vida humana, e quebra. Quebra por inteiro. Estes você precisa respeitar, porque sofrem de delicadeza. E existe gente, Catarina, que só é capaz de dar um sentido bem pequenino, um sentido de papel, que pode ser derrubado mesmo com uma brisa. E essa brisa, Catarina, não pode ser soprada pela sua boca. Ser forte, Catarina, não é quebrar os outros, mas saber-se quebrado. É ser capaz de cuidar de seus barcos de papel – e também dos barcos dos outros – não como uma criança que os imagina poderosos, de aço. Mas sabendo que são de papel e que podem afundar de repente. 
Não, acho que eu não poderia ter dito isso a você, Catarina. Não naquela noite, não agora. Ao lhe assegurar, cheia de autoridade de adulto, que tudo estava bem com a menina quebrada, com qualquer e com todas as meninas quebradas, o que eu dei a você foi um vislumbre da minha abissal fragilidade. Esta, Catarina, é uma verdade entre as tantas mentiras que lhe contei, ao tentar fazer com que acreditasse que eu seria capaz de proteger você. Vai chegar um momento, se é que já não houve, em que você vai olhar para todos nós, seus pais, seus “dindos”, seus avós e tios, e vai perceber que nós todos vivemos em cacos. E eu espero que você possa nos amar mais por isso.

Essa conversa, Catarina, está apenas adiada. Talvez, daqui a alguns anos, você precise me perguntar como se faz para viver quebrada. Ou por que vale a pena viver, mesmo se sabendo quebrada. E eu vou lhe contar uma história. Ela aconteceu alguns dias depois daquela festa em que você descobriu que até as meninas quebram. Nós estávamos na fila do caixa do supermercado perto de casa, com uma cesta cheia de compras, e havia um homem atrás de nós. Era um homem vestido com roupas velhas e sujas, parte delas quase farrapos. E ele cheirava mal. Poderia ser alguém que dorme na rua, ou alguém que se perdeu na rua por uns tempos. Ficamos com medo de que o segurança do supermercado tentasse tirá-lo dali, ou que a caixa o tratasse com rispidez, ou que as outras pessoas na fila começassem a demonstrar seu desconforto, como sabemos que acontece e que jamais poderia acontecer. Enquanto pensávamos nisso, ele nos abordou. E pediu, com toda a educação, mas com os olhos dolorosamente baixos: “Por favor, será que eu poderia passar na frente, porque tenho pouca coisa?”.  Não, acho que eu não poderia ter dito isso a você, Catarina. Não naquela noite, não agora. Ao lhe assegurar, cheia de autoridade de adulto, que tudo estava bem com a menina quebrada, com qualquer e com todas as meninas quebradas, o que eu dei a você foi um vislumbre da minha abissal fragilidade. Esta, Catarina, é uma verdade entre as tantas mentiras que lhe contei, ao tentar fazer com que acreditasse que eu seria capaz de proteger você. Vai chegar um momento, se é que já não houve, em que você vai olhar para todos nós, seus pais, seus “dindos”, seus avós e tios, e vai perceber que nós todos vivemos em cacos. E eu espero que você possa nos amar mais por isso.  
Quando lhe demos passagem, vimos que o homem não tinha pouca coisa. Ele só tinha uma. Sabe o que era, Catarina?  
Um sabonete. Era o que havia entre as mãos de unhas compridas e sujas, junto com algumas moedas e notas amassadas, como em geral são as notas que valem pouco. Aquele homem, que parecia ter perdido quase tudo, aquele homem talvez ainda mais quebrado que a maioria, porque tinha perdido também a possibilidade de esconder suas fraturas, o que ele fez? Quando conseguiu juntar uns trocados, o que ele escolheu comprar? Um sabonete. 
Catarina, talvez um dia, daqui a alguns anos, você volte a me olhar nos olhos e a dizer: “A menina... quebrou”. Ou: “Eu... quebrei”. E talvez você me pergunte como continuar ou por que continuar, mesmo quebrada. E eu vou poder lhe dizer, Catarina, pelo menos uma verdade: “Por causa do sabonete”. 

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013


São Paulo são muitas
São várias, são diversas
São como eu, como você.
São cidades que se cruzam
Que se aceitam e se repelem.
São as pernas brancas da menina,
A fala gringa do vizinho,
O homem que cala,
O outro que fala,
A música ecoando pela rua.
São Paulo são cores indecisas
São Marias, Pedros, Severinos,
São Paulos.
São todos,
Somos nós.

Tânia Tiburzio

Foto: Jennifer Glass





quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Mistério / Gleide Bárbara - poesia - Memórias d'alma, 2011.


O que é o amor senão um paradoxo,
Uma antítese do ser humano,
Uma ilusão dentre todas as ilusões?
O que amor?

Um tormento em meio à paz interior,
Orvalho de fogo dentre todas as tempestades,
Pedra oculta da alma noturna...
O que é senão a lei da divina atração,

O amor, esse amor!
Quem deliberou essa sentença tão doce,
Quem transbordou o cálice dos olhos
E derramou no corpo a brisa dos sonhos?

O que é o amor,
Senão Deus dentre todos os deuses,
Apolo, Dionísio, Afrodite?
Será Eros, o amor, ou hera perdida no abismo?

Tormento, ferida, loucura, ilusão...
Será a paz na razão dos tolos,
Fruto sem lei, juiz de si mesmo?
Quem¿ pandora ou apenas a caixa?

Quem? Quem pode responder?
Quem já viu, viveu, sentiu, fugiu,
Deus, homens, anjos, demônios,
O amor dos homens...

Em que paraíso habita o amor
Cujo fruto Adão e Eva provaram?
Será o amor pecado dentre toda redenção,
Erupção sanguínea cheia de vida,

Ah! O amor é desejo insano,
Nudez da alma dançando na chuva,
Corpo desnudo de si mesmo,
Pintura clássica na vanguarda do espirito,

O que é senão amigo da solidão,
Senão natureza da imaginação,
Senão ave, fênix da transformação,
Medo e desejo - o que é o amor?

Quem pode dizer,
Se lágrimas, risos, gritos, gemidos,
Tempo, firmamento de estrelas nuas,
Dor e redenção, nirvana profundo...

O amor deve ser a fé, crença e descrença,
Vida e morte, terra e planta,
Luz e escuridão.
Deve ser mãos que trabalham de sol a sol,
Pés que peregrinam na força da intuição,

O amor pode ser o tempo,
Que secretamente nos oferece as venturas e desventuras,
E constrói dentro de nós castelos de areia e cimento,
Tudo e nada, céu e inferno!

Um deus, mais do que humano,
Sonhador soberano daqueles que deseja acordar,
Sequestrador dos dormentes,
E libertador dos sonhadores.

Ah! O amor divindade ancestral,
Totem dentro de cada homem,
Rebanho e pastor da noite nos montes,
Mistério sagrado e consagrado pelo ventre,
Mestre, monge, profeta.

O amor, corpo e emanação,
Declamador que caminha pelas florestas,
Claras e obscuras de cada um,
Cachoeira que precipita o abismo sem medo da queda,
Simplesmente deve ser um regato,
Que nasce pequeno nos olhos,
Aos poucos chega ao coração,
Silencioso bate à porta da alma -
Assim deve ser o amor, um hóspede finito,
Na casa espiritual de todo homem.

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Enviado pela amiga Lèydi Cassil

Palavras retiradas de um depoimento../NOME EM ANONIMATO
MATÉRIA MUITO EXTENSA....retirei somente alguns pontos em questão que me chamou a atenção....

• É impossível explicar as razões que levam a essa infelicidade e não há como justificar o crime, mas se mais pessoas falassem sobre a pedofilia com todas as letras, talvez muitos momentos tristes pudessem ser evitados. A pedofilia é um dos piores crimes, pois destrói a inocência, a fé, e a esperança de uma criança.
Toda criança molestada por mais que se faça sempre terá alguma sequela do abuso, principalmente na parte emocional, não existe tratamento, pior que os maiores agressores estão sempre dentro de casa, nunca confie em deixar seu filho ou filha a sós com, pai, tio, primo etc. Você não sabe o que se passa na
cabeça dele, das maldades que é capaz, sei disso, pois qdo criança tbem fui molestada pelo meu avô , enquanto minha mãe ia a igreja,!! Há feridas que necessitam ser expostas para, um dia, cicatrizarem. Certamente, é um trauma. Conversar sobre o problema é uma forma de "jogar fora" a dor gerada por esse tipo de traição. Sim, é uma traição! Traição de alguém que vc tanto confiava e resultou "nisso"! E, qto à culpa... ahhhh, a culpa!
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Me desculpe a sinceridade, mas é por isso que não suporto nem ver o Papa na TV, pensar que ele em vez de entregar os padres, e toda a cúpula da Igreja a justiça, ele em vez disso os escondem no Vaticano, chega da nojo de um ser humano desse. Não sou ignorante, é óbvio que pedofilia não acontece só na Igreja Católica, mas quem sabe se A "Vossa Santidade" desse o exemplo, outras tantas entidades seguiriam, no qual eu desacredito..porque ultimamente...vejo muitos casos de pastores evangélicos fazendo o mesmo.
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Em 7 de março de 2012, a Band noticiou sobre um menino de 5 anos que sofria agressões e estupro de uma dupla (casados) homossexual em São Paulo. A faxineira da casa percebeu que o menino estava com febre e como a dupla gay não estava, a mulher o levou para casa. Durante o banho do garoto, ele contou que estava com muita dor. O menino contou para a faxineira que sofria maus tratos e abuso sexual.
A mulher levou o menino para o hospital, onde o garoto deu entrada com desidratação, desnutrição, .... A perversão chamada de pedofilia nada tem a ver com homossexualidade. A maioria dos pedófilos são homens casados e heterossexuais. Ou padres heterossexuais. Engraçado ver os comentários dos pseudomoralistas dizendo que o mundo está perdido, que as mulheres deveriam usar roupas sóbrias, que os homossexuais deveriam morrer ou ir pra igreja, etc. Todos esses fanáticos de crenças fabricadas são os primeiros a se masturbarem vendo homens sarados na rua, vendo um filme pornô ou fotos de gente pelada ...ahhhh...me façam um favor....
VALE A PENA ASSISTIR!!! TRISTE, MAS É A REALIDADE DE UM ABUSADO...NÃO TODOS, MAS EXPLICA O PORQUÊ DE UM ABUSADO VIRAR SOCIOPATA / PSICOPATA. AVISO: COMPLETAMENTE  CHOCANTE!!!

A carta suicida de uma vítima de pedofilia


Bill Zeller era o nome deste rapaz simpático aí do lado. Só que ele se matou no último dia 2 de janeiro, infelizmente. Na verdade tentou o suicídio nesse dia, por enforcamento, e chegou a ser resgatado, mas não resistiu e faleceu na noite do dia 5/1, quarta-feira. Ele tinha 27 anos de idade, era programador e havia começado a fazer doutorado na área, na prestigiosa Universidade de Princeton (New Jersey), onde morava. Seria mais um dos lamentáveis suicídios que acontecem no mundo inteiro todo dia, se não fossem alguns detalhes sórdidos e - até então - secretos. É que Zeller publicou a sua carta de suicídio (que traduzi e publico abaixo) no Facebook, e também por email aos amigos, e revelou ao mundo uma triste história que ninguém próximo conhecia: a de ter sido vítima de pedofilia. Pelo teor da carta, parece que os abusos começaram quando ele tinha 4 anos de idade, e lhe deixaram marcas profundas demais, realmente insuportáveis (dado o desfecho fatal). Soma-se a isso o fato de ter sido criado por uma família muito religiosa, que frequentam a Middletown Bible Church no Connecticut, onde seu pai é pastor-assistente há mais de 30 anos. Os pais o haviam expulsado de casa, segundo diz na carta, porque ele não queria frequentar esta igreja 7 horas por semana. Na carta em questão (a versão original pode ser lida clicando-se aqui), Zeller relata um pouco da dificuldade de relacionamento (especialmente pelo toque) e da confusão de sua persona sexual, como resultados incontornáveis da pedofilia de que foi vítima. Não revela o nome do agressor, talvez por não conseguir sequer dizer o seu nome, por mais paradoxal que pareça esta atitude diante de uma medida tão extrema como a que ele tomou. Também conta que procurou profissionais para tratar dos seus problemas, mas nunca teve a coragem de contar sobre os abusos que sofrera, porque - basicamente - era incapaz de confiar o seu segredo mais íntimo e devastador a quem quer que fosse. Termina a carta dizendo que odeia seus pais e critica a maneira como a religião influenciou no seu relacionamento familiar. Enfim, é uma leitura difícil e dolorosa de um drama humano que não encontrou maneiras de se expressar e - inclusive - se ver pelos olhos dos outros, com algumas palavras chulas e blasfêmias que podem eventualmente ofender as pessoas mais sensíveis, mas é um testemunho que merece ser divulgado justamente para que as vítimas de pedofilia não tenham medo algum de procurar ajuda, contar o seu problema e inclusive nomear quem lhes perpetrou essa maldade. Também é um alerta para pessoas que têm amigos, relacionamentos e familiares que eventualmente possam ter um comportamento fora dos padrões "normais" da sociedade, para que tenham a compaixão e a sabedoria de identificar a oportunidade e poder ajudá-los a enfrentar as terríveis consequências do crime de que foram vítimas.


"Eu tenho o desejo de declarar a minha sanidade mental e justificar minhas ações, mas presumo que eu nunca vou ser capaz de convencer ninguém de que esta foi a decisão certa. Talvez seja verdade que quem faz isso é insano, por definição, mas posso pelo menos tentar explicar o meu raciocínio. Eu não considerei escrever nada disso por causa do quanto isto é pessoal, mas eu gosto de amarrar as pontas soltas e não quero que as pessoas fiquem se perguntando por quê eu fiz isso. Já que eu nunca falei com ninguém sobre o que aconteceu comigo, as pessoas provavelmente poderiam tirar conclusões erradas.

"Minhas primeiras memórias de infância são as de uma criança repetidamente violentada. Isto afetou todos os aspectos da minha vida. A escuridão, que é a única maneira que posso descrevê-la, seguiu-me como uma névoa, mas às vezes ficava densa demais e me esmagava completamente, geralmente desencadeada por uma situação aleatória qualquer. No jardim de infância eu não conseguia usar o banheiro e ficava petrificado sempre que eu precisava, o que iniciou em mim uma tendência de comportamento social bizarro e inexplicável. Os danos que foram feitos ao meu corpo ainda me impedem de usar o banheiro normalmente, mas agora é menos um impedimento físico do que propriamente um lembrete diário de que foi feito para mim.

"Essa escuridão me seguiu como eu cresci. Lembro-me de passar horas brincando com legos, sendo o meu mundo composto por mim e uma caixa de gelados blocos de plástico. Só esperando para que tudo terminasse. É a mesma coisa que eu faço agora, mas em vez de legos prefiro navegar na web, ler ou ver um jogo de beisebol. A maior parte da minha vida tem sido um sentimento de estar morto por dentro, esperando que o meu corpo chegue a este mesmo estado.

"Às vezes durante meu crescimento, eu sentia uma raiva inconsolável, mas eu nunca liguei isso ao que tinha acontecido até que atingi a puberdade. Eu era capaz de manter a escuridão de lado cada vez que isso acontecia, fazendo coisas que exigiam concentração intensa, mas as trevas sempre voltavam. Atraí-me por programação justamente por esta razão. Nunca fui particularmente apaixonado por computadores ou fã de matemática, e a paz temporária que isso me proporcionava era como uma droga. Mas a escuridão sempre voltava e fui construindo uma espécie de resistência, porque a programação foi se tornando cada vez menos um refúgio.

"As trevas me acompanham desde o momento em que eu acordo. Sinto-me como se uma sujeira estivesse me cobrindo. Sinto-me como se estivesse preço num corpo enlameado que nenhum ciclo de lavagem pudesse limpar. Sempre que eu penso sobre o que aconteceu eu começo a me coçar compulsivamente, e não consigo me concentrar em outra coisa. Isto se manifesta também na hora de comer, ficar acordado por dias seguidos, ou dormir direto durante dezesseis horas, bebedeiras, uma semana inteira de programação ou malhar constantemente na academia. Estou exausto de me sentir assim a cada hora de cada dia.

"Três ou quatro noites por semana eu tenho pesadelos com o que aconteceu. |Isto me faz evitar o sono e por isso estou constantemente cansado, porque tentar dormir com o que se prenuncia como horas de pesadelos não é nada repousante. Eu acordo suado e furioso. Lembro-me todas as manhãs do que foi feito contra mim e do controle que isso tem sobre a minha vida.

"Eu nunca fui capaz de parar de pensar sobre o que aconteceu comigo e isso dificulta minhas interações sociais. Ficava irritado e perdido em pensamentos para em seguida ser interrompido por alguém dizendo" Oi "ou puxando conversa, incapaz de entender por que eu parecia frio e distante. Eu andava por aí, vendo o mundo exterior a partir de um portal distante atrás dos meus olhos, incapaz de me conduzir segundo as normais delicadezas humanas. Ficava imaginando como seria ter relações normais para com as outras pessoas sem ter lembranças amargas sempre na minha mente, e eu queria saber se outras pessoas tiveram experiências similares, mas eram mais habilidosas em mascará-las.

"O álcool também foi algo que me deixava escapar das trevas, mas elas sempre me encontravam depois, sempre irritadas por que eu havia tentado escapar e me faziam pagar por isso. Muitas das coisas irresponsáveis que eu fiz foram o resultado das trevas . Obviamente, eu sou responsável por cada decisão e ação, incluindo esta, mas há razões para que as coisas aconteçam da maneira que elas acontecem.

"O álcool e outras drogas me deram uma maneira de ignorar a realidade da minha situação. Era fácil passar a noite bebendo e tentando esquecer que eu não tinha nenhum futuro para ficar esperando. Eu nunca gostei do que o álcool fazia comigo, mas era melhor do que encarar de frente a minha existência com honestidade. Eu não tenho provado álcool ou qualquer outra droga já faz mais de sete meses (e nem drogas ou álcool estão envolvidos neste meu ato) e isso me forçou a avaliar a minha vida de forma honesta e clara. Não há nenhum futuro aqui. As trevas estarão sempre comigo.

"Eu costumava pensar que se eu resolvesse algum problema ou alcançasse algum objetivo, talvez elas sairiam. Era reconfortante identificar os problemas concretos e solucionáveis como a origem dos meus problemas ao invés de algo que eu nunca seria capaz de mudar. Pensei que, se entrasse numa boa faculdade, ou uma boa escola de pós-graduação, ou perdesse peso, ou fosse para a academia quase todos os dias durante um ano, ou criasse programas que milhões de pessoas usariam, ou passasse um verão na Califórnia ou Nova York, ou publicados trabalhos que me dessem orgulhoso, então talvez eu sentiria um pouco de paz e não fosse constantemente perseguido e assombrado. Mas nada que eu fiz mudou um grão na forma como eu me sentia deprimido diariamente e não havia nada que eu fizesse que fosse recompensador. Eu nem sei porque eu pensei que algo fosse capaz de mudar.

"Eu não percebi o quão profundo isto tinha uma influência decisiva sobre mim e minha vida até o meu primeiro relacionamento. Estupidamente eu supus que, não importando o quanto a escuridão me afetava pessoalmente, os meus relacionamentos amorosos, de alguma maneira, seriam separados e protegidos. Enquanto eu crescia, eu via a possibilidade de relacionamentos futuros como uma possível fuga dessa coisa que me assombrava todos os dias, mas comecei a perceber o quanto isso estava emaranhado em todos os aspectos da minha vida e como isso nunca iria me libertar. Ao invés de ser uma fuga, os relacionamentos e contatos românticos com outras pessoas apenas intensificavam o meu problema de forma que eu não podia suportar. Eu nunca vou ser capaz de ter uma relação em que ele não é o foco, afetando cada aspecto das minhas interações românticas.

"Os relacionamentos sempre começavam bem e eu seria capaz de ignorá-lo por algumas semanas. Mas conforme nós íamos nos tornando íntimos emocionalmente, as trevas voltavam e a cada noite lá estariam eu, ela e as trevas num negro e horrível ménage-à-trois. Elas me cercavam e penetravam e quanto mais nós nos aproximávamos, mais intensas elas se tornavam. Fez-me odiar ser tocado, porque enquanto estávamos separados eu poderia vê-la como uma visão de fora, boa, gentil e imaculada. Uma vez que nos tocávamos, a escuridão também a envelopava e a levava, de maneira que o mal que estava dentro de mim também terminava envolvendo-a. Eu sempre me sentia como se estivesse infectando alguém com quem eu estava.


"Os relacionamentos não davam certo. Ninguém que eu namorava era a pessoa certa, e penso que se eu tivesse encontrado a pessoa certa eu a teria esmagado. Parte de mim sabia que o fato de encontrar a pessoa certa não ajudaria, então eu me interessei por garotas que obviamente não tinham interesse em mim. Por um momento eu pensei que eu era gay. Eu me convenci de que não eram as trevas, mas talvez a minha orientação sexual, porque isso me daria o controle sobre o porquê das coisas que eu não considerava “corretas”. O fato de que as trevas afetam questões sexuais de maneira mais intensa fez com que essa ideia tivesse algum sentido e eu me convenci disso por alguns anos, começando na faculdade depois do meu primeiro relacionamento ter terminado. Eu disse às pessoas que eu era gay (em Trinity, não em Princeton), ainda que eu não me sentisse atraído por homens e me mantivesse interessado por garotas. Então, se ser gay não era a resposta para os meus problemas, então qual era? As pessoas pensavam que eu estava evitando a minha orientação, mas o que eu estava realmente evitando era a verdade, a qual é que, mesmo eu sendo hetero, nunca estarei satisfeito com quem quer que seja. Agora eu sei que as trevas nunca irão embora.

"Na última primavera eu encontrei alguém que era diferente de qualquer outra pessoa que eu havia conhecido. Alguém que me mostrou o quanto duas pessoas podem conviver bem e quanto eu poderia se preocupar em cuidar de outro ser humano. Alguém com quem eu sei que poderia estar e amar para o resto da minha vida, se eu não fosse tão fudido. Surpreendentemente, ela gostava de mim. Ela gostava da casca de homem que as trevas haviam deixado para trás. Mas isso não importava, porque eu não conseguia ficar sozinha com ela. Nunca era só nós dois, tudo foi sempre a três: ela, eu e as trevas Quanto mais íntimos ficávamos, mais intensamente eu sentia a escuridão, como se fosse um espelho maligno das minhas emoções. Toda a intimidade que nós tínhamos e eu amava era complementado por uma agonia que eu não conseguia suportar e daí eu percebi que eu nunca seria capaz de dar a ela, ou a quem quer que fosse, tudo de mim ou somente o meu eu. Ela nunca poderia me ter sem a escuridão e o mal dentro de mim. Eu nunca poderia ter apenas ela, sem a escuridão como uma parte de todas as nossas interações. Eu nunca vou ser capaz de estar em paz e contente em um relacionamento saudável. Percebi a futilidade da parte romântica da minha a vida. Se eu nunca a tivesse conhecido, eu teria percebido isso tão logo encontrasse alguém com quem eu combinasse igualmente bem. É provável que as coisas não teriam funcionado com ela e que teríamos rompido (com o nosso relacionamento chegando a um fim, como a maioria dos relacionamentos chegam), mesmo se eu não tivesse esse problema, já que namoramos por pouco tempo. Mas vou ter que encarar exatamente os mesmos problemas com as trevas com qualquer outra pessoa com que me relacione. Apesar de minhas esperanças, amor e compatibilidade não são suficientes. Nada é suficiente. Não há nenhuma maneira de eu poder resolver isso ou até mesmo derrotar as trevas o suficiente para ter um relacionamento ou qualquer tipo de intimidade que seja viável.

"Então, eu observava como as coisas desmoronavam entre nós. Eu tinha colocado um limite de tempo explícito no nosso relacionamento, pois eu sabia que não poderia durar muito por causa das trevas e não queria segurá-la, e isso causou uma grande variedade de problemas. Ela foi colocada em uma situação anormal que ela nunca deveria ter tomado parte. Deve ter sido muito difícil para ela não saber o que realmente estava acontecendo comigo, mas isso não é algo que eu nunca fui capaz de conversar com mais ninguém. Perdê-la foi muito difícil para mim também. Não é por causa dela (eu superei o nosso relacionamento de forma relativamente rápida), mas por causa da constatação de que eu nunca teria um outro relacionamento e porque aquele significou a última ligação pessoal, exclusiva e verdadeira que eu podia ter tido. Isso não era evidente para outras pessoas, porque eu nunca poderia falar sobre as verdadeiras razões da minha tristeza. Fiquei muito triste no verão e no outono, mas não foi por causa dela, mas porque eu nunca vou escapar das trevas com quem quer que seja. Ela era tão amável e gentil comigo e me deu tudo que eu poderia ter pedido considerando as circunstâncias. Eu nunca vou esquecer o quanto ela me trouxe felicidade nesses poucos momentos em que eu poderia ignorar a escuridão. Eu havia planejado originalmente me matar no inverno passado, mas nunca parei para fazer isso (partes dessa carta foram escrita cerca de um ano atrás, outras partes dias antes de fazer isso.) Foi errado da minha parte me envolver em sua vida se esta fosse uma possibilidade e que eu deveria tê-la deixado sozinha, mesmo que a gente só tenha namorado por alguns meses e as coisas terminaram há muito tempo atrás. Ela é apenas mais um nome em uma longa lista de pessoas que eu magoei.


"Eu poderia gastar páginas falando sobre os outros relacionamentos que tive que foram arruinados por causa dos meus problemas e minha confusão em relação às trevas. Eu feri a tanta gente legal por causa de quem eu sou e minha incapacidade de experimentar o que precisa ser experimentado. Tudo o que posso dizer é que eu tentei ser honesto com as pessoas sobre o que eu pensava que era verdade.

"Eu passei minha vida magoando as pessoas. Hoje será a última vez.

"Eu disse a pessoas diferentes um monte de coisas, mas eu nunca contei a ninguém o que aconteceu comigo, nunca, por razões óbvias. Levei um tempo para perceber que não importa o quão próximo você está com alguém ou o quanto eles dizem te amar, as pessoas simplesmente não conseguem guardar segredos. Aprendi isso há alguns anos atrás, quando eu achava que era gay e contei às pessoas. Quanto mais prejudicial for o segredo, mais suculenta será a fofoca e o mais provável é que você seja traído. As pessoas não se preocupam com a sua palavra ou o com o que elas prometeram, eles apenas fazem o pior que elas querem e tentam justificá-lo mais tarde. A gente se sente extremamente solitária quando percebe que você nunca poderá compartilhar algo com alguém e que isto fique apenas entre vocês dois . Eu não culpo a ninguém em particular, eu acho que é apenas o jeito como as pessoas são. Mesmo que eu sinta assim é algo que eu poderia ter compartilhado, já que não tenho interesse em fazer parte de uma amizade ou relacionamento onde a outra pessoa me vê como a pessoa contaminada e danificada que eu sou. Assim, mesmo se eu fosse capaz de confiar em alguém, eu provavelmente não teria dito a eles sobre o que aconteceu comigo. Nesse ponto, eu simplesmente não me importo com quem sabe.

"Eu me sinto um mal dentro de mim. Um mal que me faz querer acabar com a vida. Preciso parar com isso. Eu preciso me certificar de que não matar alguém, o que não é algo que pode ser facilmente desfeita. Eu não sei se isso está relacionado com o que aconteceu comigo ou algo diferente. reconheço a ironia de me matar para me impedir de matar alguém, mas essa decisão deve indicar o que eu sou capaz.

"Então eu percebi que eu nunca vou escapar da escuridão ou a miséria associada a ele e eu temos a responsabilidade de parar de me agredir fisicamente os outros.

"Eu sou apenas uma casca quebrada e miserável de um ser humano. O fato de ter sido molestado sexualmente me definiu como pessoa e me moldou como ser humano e isso fez de mim o monstro que eu sou e não há nada que eu possa fazer para escapar disso. I Não conheço nenhuma outra existência possível. Eu não sei o que a vida poderia ser além disso. Eu ativamente desprezar a pessoa que sou. Eu me sinto profundamente quebrado, quase não-humano. Sinto-me como um animal que acordou um dia em um corpo humano, tentando dar sentido a um mundo estranho, vivendo entre as criaturas que não compreende e às quais não consegue se conectar.

"Eu aceito que as trevas nunca vão me permitir entrar num relacionamento. Eu nunca vou dormir com alguém em meus braços, sentindo o conforto de suas mãos ao meu redor. Eu nunca vou saber o que é uma intimidade incontaminada. Nunca terei um vínculo de exclusividade com alguém, alguém que possa ser o destinatário de todo o amor que eu tenho para dar. Eu nunca vou ter filhos, e eu adoraria ser pai. Eu acho que eu seria um bom pai. E mesmo se eu tivesse lutado contra a escuridão e me casado e tido filhos, mesmo sendo incapaz de sentir a intimidade, eu nunca poderia ter feito isso se o suicídio fosse uma possibilidade. Eu realmente tentei minimizar a dor, embora eu saiba que esta decisão vá ferir muitos de vocês. Se isso te machuca, eu espero que você pelo menos pode se esquecer de mim rapidamente.

"Não há nenhum benefício em identificar quem me molestou sexualmente, então eu só vou deixar por isso mesmo. Duvido que a palavra de um cara morto, sem provas de algo que aconteceu há mais de 20 anos atrás teria muita influência.

"Você pode se perguntar por que não falar com um profissional sobre o assunto. Eu fui a vários médicos desde que eu era um adolescente pra falar sobre outras questões e tenho certeza de que qualquer outro médico não teria ajudado. Nunca ninguém me deu um conselho prático, nunca. A maioria deles passava a maior parte da sessão lendo suas anotações para lembrar quem eu era. E eu não tenho nenhum interesse em falar sobre ter sido violentado quando era criança, tanto porque eu sei que não iria ajudar e porque não tenho confiança de que iria permanecer em segredo. Conheço os limites jurídicos e práticos do sigilo entre médico e paciente, pois fui criado numa casa onde nós sempre ouvimos histórias sobre as mais variadas enfermidades mentais de pessoas famosas, histórias que foram transmitidas através de gerações. Tudo que fica é um médico que acha que a minha história é interessante o suficiente para compartilhar ou um médico que acha que é seu direito ou a responsabilidade de contactar as autoridades para me fazer identificar o molestador (justificando a sua decisão dizendo que alguém poderia estar em perigo). Só é preciso um único médico que viole a minha confiança, assim como os "amigos" a quem eu disse que eu era gay fizeram, e tudo seria tornado público e eu seria forçado a viver em um mundo onde as pessoas soubessem como eu tenho uma vida fudida. E sim, eu sei que isso indica que eu tenho sérios problemas de confiar nos outros, mas eles são baseados em um grande número de experiências com pessoas que têm demonstrado um profundo desrespeito para com a sua palavra e a vida privada dos outros .

"As pessoas dizem que o suicídio é egoísta. Eu acho que é egoísta pedir às pessoas que continuem vivendo uma vida dolorosa e miserável, já que assim você possivelmente não vai se sentir triste por uma semana ou duas. Suicídio pode ser uma solução permanente para um problema temporário, mas é também uma solução permanente para um problema de 23 anos que se torna mais intenso e avassalador a cada dia que passa.

"Algumas pessoas são tratadas horrivelmente nesta vida. Eu sei que muitas pessoas sofrem coisas piores do que eu, e talvez eu não sou mesmo uma pessoa forte, mas eu realmente tentei lidar com isso. Tentei lidar com isso todos os dias dos meus últimos 23 anos mas não posso mais aguentar essa porra.

"Muitas vezes me pergunto como é que a vida deve ser para outras pessoas. Pessoas que conseguem sentir o amor dos outros e devolvê-lo puro, pessoas que podem experimentar o sexo como uma experiência íntima e alegre, pessoas que podem experimentar as cores e os acontecimentos deste mundo sem uma miséria constante. Pergunto-me quem eu seria se as coisas tivessem sido diferentes, ou se eu fosse uma pessoa mais forte. Seria muito bom.

"Estou preparado para a morte. Estou preparado para a dor e eu estou pronto para já não existem. Graças ao rigor de leis de armas de Nova Jersey, isto será provavelmente muito mais doloroso do que precisaria ser, mas o que se pode fazer? Meu único receio neste momento é algo dar errado e eu sobreviver.
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"Eu também gostaria de me dirigir à minha família, se é que você pode chamá-los assim. Eu desprezo tudo o que eles defendem e que eu realmente os odeio, de forma não-emocional, não passional e - eu acredito – de uma maneira saudável. O mundo será um lugar melhor quando eles morrerem - um mundo com menos ódio e intolerância.
Se você não estiver familiarizado com a situação, meus pais são cristãos fundamentalistas que me expulsaram de sua casa e cortaram as minhas finanças quando eu tinha 19 anos porque me recusei a frequentar a igreja sete horas por semana.

"Eles vivem em uma realidade em preto e branco que eles construíram para si mesmos. A separação do mundo em bons e maus e a sobrevivência através do ódio a tudo o que eles temem ou não compreendem, e chamam isso de amor. Eles não entendem que pessoas boas e decentes existem e estão ao nosso redor, "salvos" ou não, e que pessoas más e cruéis representam uma grande porcentagem de sua igreja. Eles se aproveitam das pessoas que procuram uma esperança, ensinando-lhes a praticar o mesmo ódio que praticam.

"Um exemplo aleatório:
"Estou pessoalmente convencido de que se um muçulmano realmente crê e obedece o Alcorão, ele vai ser um terrorista." - George Zeller, 24 de agosto de 2010.

"Se você optar por seguir uma religião onde, por exemplo, católicos devotos que estão tentando ser boas pessoas estão indo para o inferno, mas molestadores de crianças vão para o céu (contanto que eles estejam "salvos" em algum ponto), a escolha é sua, mas é foda. Talvez um deus que se paute por essas regras exista. Se assim for, ele que se foda.


"A igreja sempre foi mais importante que os membros da sua família e eles alegremente sacrificavam o que fosse necessário para satisfazer suas crenças inventadas sobre quem eles deveriam ser.

"Eu cresci numa casa onde o amor foi representado por um deus em quem eu nunca poderia acreditar. Uma casa onde o amor pela música com todo tipo de ritmo foi literalmente batido pra fora de mim. Uma casa cheia de ódio e intolerância, dirigida por duas pessoas que eram especialistas em parecer amáveis e calorosas quando os outros estavam por perto. Pais que dizem a uma criança de oito anos que sua avó está indo para o inferno só porque ela é católica. Os pais que alegam não serem racistas, mas em seguida falam sobre os horrores da miscigenação. Eu poderia listar centenas de outros exemplos, mas é cansativo.

"Desde que foi expulso de casa, já interagi com eles de forma relativamente normal. Eu converso com eles ao telefone como se nada tivesse acontecido. Eu não sei ao certo o porquê. Talvez porque eu goste de fingir que tenho uma família. Talvez eu goste de ter pessoas com quem eu possa falar sobre o que está acontecendo na minha vida. Seja qual for o motivo, ele não é real e soa como uma farsa. Eu nunca deveria ter permitido que este reatamento acontecesse.

"Eu escrevi o que acabei de escrever um tempo atrás, e eu me sinto assim a maior parte do tempo. Em outras ocasiões, porém, sinto-me menos odioso. Sei que meus pais honestamente acreditam na porcaria que eles acreditam e eu sei que a minha mãe, pelo menos, me amava muito e tentava fazer o seu melhor. Uma razão para guardar isso por tanto tempo é porque sei quanta dor que vai causar. Ela ficou triste desde que ela descobriu que eu não era "salvo", desde que ela acredita que eu vou para o Inferno, o que não é uma tristeza pela qual me sinto responsável. Isso nunca iria mudar e provavelmente ela acredite que o estado do meu corpo físico é muito menos importante do que o estado da minha alma. Ainda assim, eu intelectualmente não posso justificar esta decisão, sabendo o quanto isso vai machucá-la. Talvez a minha capacidade de tirar minha própria vida, sabendo quanta dor isso vai causar, mostre que eu sou um monstro que não merece viver. Tudo o que sei é que eu não posso lidar com essa dor por mais tempo e eu realmente sinto muito por não poder esperar até que a minha família e todos que eu conhecia morram, assim isto poderia ser feito sem ferir ninguém. Por anos eu desejava que fosse atropelado por um ônibus ou morresse ao salvar um bebê de um afogamento, o que poderia fazer a minha morte ser mais aceitável, mas nunca tive essa sorte.
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"Para aqueles de vocês que me mostraram amor, obrigado por aturar toda a minha merda, e mau humor e arbitrariedade. Eu nunca fui a pessoa que eu queria ser. Talvez sem as trevas, eu teria sido uma pessoa melhor, talvez não. Eu tentei ser uma pessoa boa, mas eu percebo que eu nunca cheguei muito longe fazendo isso.

"Eu sinto muito pela dor que isso causa. Eu realmente queria que eu tivesse outra opção. Espero que esta carta explique por que eu precisava fazer isso. Se você não consegue entender esta decisão, espero que você pode pelo menos possa me perdoar. "

Bill Zeller
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"Por favor, salve esta carta e a poste de novo se for deletada. Eu não quero que as pessoas fiquem se perguntando por que eu fiz isso. Eu divulguei esta carta o mais amplamente do que eu pude, porque eu estou preocupado que a minha família venha a tentar restringir o acesso a ela. Eu não me importo se esta carta seja tornada pública. Na verdade, eu preferiria que fosse tornada pública a pessoas são incapazes de lê-la e que elas tirassem suas próprias conclusões.

"Sinta-se livre para publicar esta carta, mas somente se ela for reproduzida em sua totalidade."