quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Relato de uma anônima

EU FAÇO QUESTÃO DE COLOCAR ESSE RELATO AQUI, RECEBIDO NESSE MESMO BLOG COMO UM COMENTÁRIO DE UMA MATÉRIA. MUITO TRISTE E EMOCIONANTE...BYA.


Olá, depois de passar por muitos médicos por um problema de visão distorcida sem diagnóstico ouvi de um neurologista muito competente você teve algum trauma? Bateu a cabeça?
Isso me deixou muito revoltada, tive que sair da faculdade de medicina para tratar minhas crises de enxaqueca, perca de memória e visão turva. Fui abusada durante muitos anos por homem e mulher. Minha mãe teve depressão pós parto e não cuidava de nossa família, na casa de meus padrinhos sempre acontecia meu padrinho de uns 40 anos passar a mão na minha vagina e seios.
Depois uma vizinha de uns 17 anos aproximadamente pedia para me levar para brincar e para minha mãe era um alívio eu tinha poriginal volta de 2 a 3 anos, então ela me beijava na boca e fazia sexo oral comigo, más eu lembro como se fosse hoje, isso passaram uns 3 anos até que um dia ela me levou no meio do mato e enfiou os dedos na minha vacina, eu desesperada de dor implorei que ela parasse, ela disse pra eu abrir bem as pernas que não doeria, então eu chutei a cara dela e não sei como consegui correr e escapar, foi o trajeto mais longo da minha vida, até chegar em casa esbaforida, gritei a minha mãe. "Estou machucada" então ela me deu banho e eu sentia muita dor, ela perguntou você deixou alguém mexer aí? E um não conseguia responder. Então ela passou uma pomada e disse você não pode deixar ninguém mexer aí. Eu fiquei dias com a região dolorida para urinar.
Depois a agressora não conseguia mais me pegar eu ficava em pânico e corria, até que ela disse roube cigarros do seu pai e me traga se não vou conotar a todos que você é uma putinha e se esfrega com as outras crianças. Então virei sua escrava e roubava as coisas pra ela, isso ela já era maior. Depois comecei a me masturbar com meus brinquedos, e tratar as bonecas como ela me tratava. Um outro vizinho me molestava também ao mesmo tempo que ela só que nunca me penetrou só se masturbava comigo. Um dia meu irmão viu e contou pra minha mãe, ao invés dela denunciar a polícia ou contar ao meu pai ela me espancou até eu desmaiar. Além de eu ser abusada e sofrer toda a infância apanhava por estar sendo abusada. Hoje sou terapeuta e não tenho medo da vida, estou escrevendo um livro e contando todos esses detalhes, essas coisas não podem passar em branco. Eu vou falar tudo, cansei de preservar a fachada de familia que tive e o silencio da minha mãe são difíceis de perdoar.

quarta-feira, 20 de abril de 2016

William Blake - “Augúrios da Inocência”

BELÍSSIMO!!!

Veja o mundo num grão de areia, 
veja o céu em um campo florido, 
guarde o infinito na palma da mão,
e a eternidade em uma hora de vida!

Um tordo rubro engaiolado
Deixa o Céu inteiro irado…
Um cão com dono e esfaimado
Prediz a ruína do estado…
Ao grito da lebre caçada
Da mente, uma fibra é arrancada
Ferida na asa a cotovia,
Um querubim, seu canto silencia…
A cada uivo de lobo e de leão
Uma alma humana encontra a redenção.
O gamo selvagem acalma,
A errar por aí, a nossa alma.
Se gera discórdia o judiado cordeiro,
Perdoa a faca do açougueiro…
A verdade com mau intuito
Supera a mentira de muito.
É justo que assim deva ser:
É do homem a dor e o prazer;
Depois que isso aprendemos a fundo,
Seguros podemos sair pelo mundo…
O inquiridor, que astuto se posta,
Jamais saberá a resposta…
O grito do grilo ou uma charada
À dúvida dão resposta adequada…
Quem duvida daquilo que vê
Jamais crerá, sem como e porquê.
Se duvidassem, sol e lua
Apagariam a luz sua.
Soltar tua ira pode ser um bem,
Mas bem nenhum quando a ira te retém…
Toda manhã e todo entardecer
Alguém para a miséria está a nascer.
Em toda tarde e toda manhã linda
Uns nascem para o doce gozo ainda.
Uns nascem para o doce gozo ainda.
Outros nascem numa noite infinda.
Passamos na mentira a acreditar
Quando não vemos através do olhar,
Que uma noite nos traz e outra deduz
Quando a alma dorme mergulhada em luz.
Deus aparece e Deus é luz amada
Para almas que na noite têm morada,
Mas com a forma humana se anuncia
Para as que vivem nas regiões do dia.

To see a World in a grain of sand
And a Heaven in a wild flower,
Hold Infinity in the palm of your hand
And Eternity in an hour.
A robin redbreast in a cage
Puts all Heaven in a rage…
A dog starv´d at his master´s gate
Predicts the ruin of the state…
Each outcry of the hunted hare
A fibre from the brain does tear.
A skylark wounded in the wing,
A cherubim does cease to sing…
Every wolf’s and lion’s howl
Raises from Hell a human soul.
The wild deer, wandering here and there,
Keeps the human soul from care.
The lamb misus’d breeds public strife,
And yet forgives the butcher’s knife…
A truth that’s told with bad intent
Beats all the lies you can invent.
It is right it should be so;
Man was made for joy and woe;
And when this we rightly know,
Thro’ the world we safely go…
The questioner, who sits so sly,
Shall never know how to reply…
He who doubts from what he sees
Will ne’er believe, do what you please.
If the sun and moon should doubt,
They’d immediately go out.
To be in a passion you good may do,
But no good if a passion is in you…
Every night and every morn
Some to misery are born.
Every morn and every night
Some are born to sweet delight.
Some are born to sweet delight,
Some are born to endless night.
We are led to believe a lie
When we see not thro’ the eye,
Which was born in a night to perish in a night
When the soul slept in beams of light.
God appear & God is light
To those poor souls who dwell in night,
But does a human form display
To those who dwell in realms of day.

quarta-feira, 9 de março de 2016

Surto psicótico: sintomas e tratamentos / Médico Psiquiatra Dr. Deyvis Rocha

Abre-se o jornal ou liga-se a TV e dá-se de cara com alguma notícia sobre um sujeito que realizou algum ato absurdo por causa de um surto psicótico. Em geral, são notícias desagradáveis, que envolvem atos de violência. Podem se referir a pessoas consideradas sadias até que vieram a ter o surto ou a indivíduos que sabidamente faziam uso de alguma substância ilícita no momento da perturbação.
O que pouco se diz é o que vem a ser de fato o surto psicótico. O que quer dizer a pessoa ter um surto psicótico? Quais são as suas causas? Isso é o mesmo que ser psicopata???
Esclareça as suas dúvidas com o psiquiatra Dr. Deyvis Rocha:
1. O que é surto psicótico?
Vamos analisar cada palavra separadamente. Surto quer dizer “impulso arranco”, algo que surge de maneira súbita, mudando o status quo de uma situação.  Falamos por exemplo em surto de dengue quando começamos a ter, em pouco tempo, um grande aumento do número de casos da doença.
A palavra psicótico vem de psicose, termo que tem raízes históricas. O seu sentido sofreu algumas alterações ao longo do tempo. Em meados do século XIX, quando foi pela primeira vez empregada na literatura psiquiátrica, psicose servia para enfatizar as manifestações psíquicas das doenças cerebrais.  Ela já foi empregada como sinônimo de doença mental e de insanidade, também para referir-se às doenças mentais com alterações do cérebro, e hoje em dia é usado, como adjetivo, para qualificar os sintomas de delírios e alucinações.
Então, surto psicótico é quando a pessoa passa a apresentar, de maneira súbita, os sintomas de delírios e alucinações. Não confundir a palavra psicótico com psicopata, pois, apesar de serem foneticamente parecidas, significam coisas bastante diferentes.
2. O que são delírios e alucinações?
Os delírios são juízos falsos da realidade, produzidos de maneira patológica. Em termos mais claros, os delírios indicam que a pessoa está com alterações do pensamento que a fazem acreditar em coisas que não existem. A pessoa pode crer que está sendo perseguida por outros que lhe querem fazer algum mal, prejudicá-lo e até matá-lo, sejam policiais, sejam bandidos, sejam os vizinhos, ou mesmo os familiares. Ou a pessoa pode achar que nas ruas os outros estão falando ao seu respeito, mesmo quem não o conhece, que câmeras de TV o vigiam que os telefones estão grampeados. Pode também pensar que podem ler o seu pensamento, que a televisão lhe manda mensagens.  Pode ser um delírio de ciúme, em que a pessoa tem certeza de estar sendo traído, ou um delírio erotomaníaco, em que a pessoa pensa que é amada por outra pessoa, em geral famosa ou mais rica.
As alucinações são alterações do senso percepção. Nós adquirimos conhecimento do que está ao nosso redor através do percebemos pelos nossos cinco sentidos, a visão, a audição, o olfato, o paladar e o tato.  Uma alteração cerebral pode fazer com que possamos perceber coisas que na verdade não existem, como ouvir vozes de pessoas conversando, sendo que não há ninguém falando. O mesmo funciona para os demais sentidos, podemos ver coisas que não estão lá, sentir cheiros e gostos desagradáveis, além de sentir toques ou beliscões que não existem. Não é que a pessoa está imaginando uma voz ou outra sensação, ela realmente está ouvindo, mas essa é uma produção do cérebro doente.
3. A pessoa em surto pode ficar violenta?
A resposta é sim e não.  Vai depender da reação da pessoa frente a essas alterações descritas acima.
Vejam bem, quem está pensando que está sendo ameaçado por outros, que os seus passos estão sendo vigiados, que todos falam ao seu respeito nas ruas, que pode ser morto a qualquer instante, não vai ficar impassível. Soma-se a isso as vozes ameaçadoras que se ouve, como por exemplo, “você vai morrer”, ou xingamentos da pior espécie. Em primeiro lugar, a pessoa vai ter medo, muito medo (algumas pessoas acham que isso é transtorno do pânico). Daí, a pessoa pode reagir ficando em casa escondido, sem sair do seu quarto por nada, ou vai  brigar para se proteger, no que passa a agredir com palavras ou até fisicamente quem ele pensa que é o seu agressor. Parece ter sido esse o caso do sujeito que causou confusão em São Paulo no começo da semana.
Estudos mostram que os pacientes com transtorno psicótico não cometem mais atos de violência do que a população normal. A maior parte dos atos de violência nos pacientes acontece quando, além dos sintomas psicóticos, eles estão sob o efeito de alguma droga, como maconha ou cocaína.
4. Eu posso ter um surto psicótico?
O surto psicótico está presente em algumas doenças mentais, como a esquizofrenia, o transtorno psicótico breve, o transtorno bipolar, a depressão grave, a demência, entre outros. A não ser pela demência, que costuma aparecer em idade mais avançada, os outros transtornos, mesmo que geralmente comecem entre o final da adolescência e início da idade adulta,  podem acometer pessoas de todas as idades.
Quem tem parentes com doenças que cursam com transtorno psicótico tem mais risco de desenvolver também um surto do que pessoas que não têm parentes acometidos.
O uso de substâncias, como a maconha e a cocaína, ou mesmo algumas medicações, como corticoides, podem desencadear surtos. A maconha está particularmente relacionada à esquizofrenia, pois pessoas com predisposição genética que a usam na adolescência podem desenvolver essa doença.
5. Há jeito de prevenir o surto?
Mesmo que a eclosão dos delírios e alucinações se dê de maneira subida, é possível sim identificar algumas alterações que precedem o desencadear do surto psicótico.
Quem geralmente percebe isso é alguém bem próximo da pessoa, como os pais ou companheiros, que notam que ela começa a agir de maneira diferente do seu habitual, está mais irritadiça, dorme menos, às vezes manifesta preocupações com temas filosóficos ou religiosos, passa a ir mal na escola ou no trabalho. Isola-se dos amigos, perde o interesse em algumas atividades.
A própria pessoa pode não se dar conta disso, mas pode começar a perceber as coisas que antes eram triviais de uma maneira estranha. Antes de achar que está sendo perseguida ou que há um plano diabólico contra ela, a pessoa percebe significados diferentes nos gestos e nas falas das pessoas, passa a desconfiar de que algo está para acontecer, mas ainda não sabe exatamente o quê.
Esse é o momento de procurar a avaliação de um profissional, de um psiquiatra, que pode instituir o tratamento antes que o surto se apresente de sua maneira mais exuberante.
Evitar o uso de drogas também é importante para se prevenir o surto psicótico, principalmente às pessoas que têm parentes com transtornos psicóticos. O uso de maconha e cocaína deve ser desencorajado em todos os adolescentes.
6. Há tratamento para o surto psicótico?
Sim, há tratamento, e quanto mais cedo ele começar, melhor.
As medicações antipsicóticas são as principais ferramentas em seu tratamento. Há vários antipsicóticos, que podem ser classificados de acordo com o tempo em que foram fabricados. Os de primeira geração são os mais antigos e os de segunda geração, mais recentes. No entanto, não há diferença de eficácia comprovada entre os diferentes tipos, há diferenças sim de efeitos colaterais. A escolha do antipsicóticos a ser tomado vai depender do perfil do paciente e da experiência de tratamento do médico.
Em casos de transtorno afetivo bipolar, o uso de estabilizadores de humor também é recomendável para o tratamento do surto psicótico.


terça-feira, 1 de dezembro de 2015

POR SER MENINA.../ Postado por Elza Augusta Carvalho

Andreia M., de 23 anos, foi abusada pelo pai de uma amiga aos oito anos de idade, enquanto estudava, e escondeu o que aconteceu por vergonha e culpa. Patrícia D., de 28 anos, foi estuprada aos 16 anos por um desconhecido e, mais tarde descobriu que estava grávida. Maria C, de 32 anos, sofreu uma tentativa de estupro pelo próprio avô, aos 12 anos. Estas são só algumas das histórias que ilustram o tipo de violência sexual que milhares de meninas sofrem pelo Brasil e, em sua maioria, em silêncio. Estima-se que apenas 10% dos casos de estupro sejam notificados no País.
"A violência contra mulher começa na infância. Isso não tem como negar", disse Viviana Santiago, especialista em gênero da ONG Plan Internacional, em entrevista ao HuffPost Brasil. "A sociedade é tão machista, que culpa uma menina como mulher por um abuso. Como se o consentimento fosse algo possível para uma criança seis e dez anos de idade, por exemplo", completa.
Apenas por ser do sexo feminino, milhares de meninas estão sujeitas à violência e o agressor, na maioria das vezes, está dentro de casa. Elas são 94% das vítimas de estupro no Brasil, segundo dados do Ipea. E é preciso mudar essa cultura. Hoje, 25 de novembro, é celebrado o Dia Internacional da Não-Violência Contra a Mulher. Abaixo, estão 13 dados alarmantes que mostram o quanto este crime é um problema enraizado no Brasil e precisa ser enfrentado.
Do total de vítimas de estupro, 89% são do sexo feminino
Daquelas que têm entre 14 e 17 anos, 94% são meninas
Entre as vítimas de até 13 anos, elas são 81%
51% das vítimas são de cor preta ou parda
24% dos agressores das crianças e adolescentes são os próprios pais ou padrastos
33% são amigos ou conhecidos da vítima
Além disso, 93% dos estupradores de crianças são do sexo masculino
527 mil pessoas são estupradas por ano no Brasil e, destes casos, apenas 10% são notificados
Em 48% dos casos envolvendo crianças e adolescentes, há um histórico de estupros anteriores
Em 38% das vezes que o crime é cometido contra meninas de até 13 anos, o agressor ameaça e intimida a vítima. Com adolescentes, isso acontece em 46% das vezes
Em 42% dos casos contra adolescentes a força física ou espancamento é utilizado pelo estuprador.
Com crianças, isso acontece em 32% das vezes
Em 15% dos crimes envolvendo adolescentes, o estupro resulta em gravidez
O estupro ou qualquer outro tipo de violência sexual, quando ocorre na fase de formação da mulher, gera consequências a longo prazo e pode ter efeitos físicos e emocionais devastadores para toda a vida.
Depressão, fobias, ansiedade, suicídio, síndrome de estresse pós-traumático, além de carregar a culpa e o julgamento são algumas das consequências.
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A Secretaria de Política para Mulheres tem um disque-denúncia que funciona 24 horas por dia, inclusive aos finais de semana. Basta discar o número 180 para ser atendida. As denúncias são recebidas e encaminhadas à Segurança Pública e ao Ministério Público de cada Estado. Depois, os atendentes orientam a qual delegacia ou serviço a mulher precisa procurar de acordo com sua necessidade. O serviço atende todo o Brasil.

sábado, 28 de novembro de 2015

Violência psicológica e o mito do “machismo sutil” / Natalia Conti


É comum, quando mencionamos algo sobre violência contra a mulher, que se forme uma imagem mental sobre agressão física ou sexual. O estupro, o espancamento, na cabeça das pessoas, são os problemas por excelência deste tema. As agressões sexuais, sobretudo são identificadas como um problema de quando se está num beco escuro e se depara com um desconhecido agressor. Há dois nós aí, o primeiro sendo o do “desconhecido”, e o segundo, a ideia da violência estar associada somente ou principalmente a danos físicos.
O escopo de violência exercido sobre as mulheres é amplo, podendo alcançar os níveis físico, sexual, moral e psicológico. Além disso, os dados caracterizam fortemente a localização da violência em âmbito doméstico e/ou entre pessoas conhecidas. São eles pais, irmãos, tios, amigos, colegas de trabalho, maridos, namorados, companheiros de militância, etc. Este texto parte da necessidade em compreender o âmbito da violência entre pessoas conhecidas, retirando, contudo, o problema do âmbito privado; e em avançar na compreensão da violência psicológica e moral como práticas devastadoras para a vida das mulheres, com particularidades nas novas gerações.

 “machismo sutil”
Segundo o Mapa da Violência 2015 – Homicídio de Mulheres no Brasil, 23% de mulheres atendidas foram vítimas de violência psicológica. Constitui-se a segunda forma mais frequente, seguida da violência física. Trata-se de 45.485 mulheres no último ano. Entre os casos registrados de violência psicológica, 47,8% foram vítimas de pessoas conhecidas, de círculos próximos, sendo que 10% delas sofrem com esta violência diariamente. Nos casos relatados de violência doméstica, sexual ou física, o aspecto do terror psicológico também é frequente, compondo o que conhecemos por ciclo da violência. O ciclo da violência é um encadeamento de acontecimentos em um relacionamento afetivo (não necessariamente entre casais), tendo início normalmente em agressões verbais, tensão psicológica, se intensificando em violência física e/ou sexual, ameaças de ruptura, e terminando com um momento denominado “lua de mel”, em que o agressor busca reatar a relação afetiva, sendo carinhoso e dizendo que tudo vai ficar bem, garantindo a interrupção e não repetição das agressões, quando o novo ciclo tem início.
A violência psicológica envolve xingamentos, tentativas de desmoralização da mulher, de afetar sua autoestima, grosserias, controle de sua vida pessoal e afetiva, invasão de espaços de privacidade, perseguição, ameaças de abandono frente a comportamentos que não seguem a maneira esperada, diminuição ou subestimação de suas capacidades em espaços públicos e práticas paternalistas e de tutela. Por não ter consequências evidentes e explícitas, é tratada como um mal menor, de efeito sutil, ou comumente não identificado como machismo, mas como “desvios” ou “desequilíbrios”, portanto, justificáveis. Entretanto, os danos causados às vítimas vão desde transtornos psicológicos, depressão, isolamento, até restrições cotidianas de seus espaços de convivência e trabalho.
Por ser uma prática encarada pelo senso comum como natural, fruto dos conflitos existentes em qualquer relação entre parceiros, amigos, familiares, etc., é mais difícil de ser combatida. Invisível, assume a forma de um fantasma onipresente na vida das mulheres. E justamente por ser invisível e encarada como socialmente aceitável, as próprias mulheres não reconhecem muitas vezes que são vítimas de relações abusivas.
 As gerações mais jovens
Ao observar os movimentos de mulheres na última década no Brasil, percebemos um salto no número de organizações, coletivos, blogs, publicações ligados à ideia do feminismo. Dentro da dinâmica internacional, hoje já reconhecida como uma nova onda de luta feminista, o boom de visibilidade do tema passou e foi mediado centralmente pela internet e as redes sociais. Mulheres, em sua maioria jovens, puderam através da internet, tomar contato de forma rápida com lutas contra o machismo em curso no mundo inteiro; lutas viralizadas, atingiram os mais provincianos rincões do machismo no Brasil. A SlutWalk canadense, de 2011, traduzida comoMarcha das vadias no Brasil, colocou na pauta de todos os jornais do mundo o problema do assédio e da culpabilização das vítimas de violência. Além disso, a possibilidade de encontrar pares nesta luta e de denunciar casos de machismo foi potencializada pelas redes sociais.
Há, no entanto, o revés desta moeda. É verdade incontestável o papel das redes sociais como canais para a organização de lutas feministas e tomada de consciência individual e coletiva sobre a opressão de gênero e sexualidade; outra verdade incontestável é o fato de que as redes sociais potencializam também a organização de setores conservadores, de práticas misóginas e, em âmbito mais estrito, a possibilidade de controle e violência psicológica contra as mulheres, sobretudo jovens nestes meios. Há ao menos dois fenômenos sobre os quais é importante tratar para pensar a violência psicológica exercida sobre as novas gerações, ostalking e o revanchismo.
O revanchismo acontece normalmente por ex-namorados ou ex-parceiros sexuais, inconformados com o fim da relação, que como forma de vingança colocam vídeos e fotos de suas parceiras nuas na internet. Enquadra-se na prática de violência psicológica e moral, destruindo a autoestima da mulher e condicionando seu cotidiano ao permanente constrangimento, vergonha e julgamento públicos. O revanchismo reflete, além da barbárie evidente, a concepção de que a vida sexual das mulheres é uma questão da qual elas têm de se envergonhar. Todos os dias, acompanhamos relatos de vítimas muito jovens, adolescentes. Muitas delas abandonam os estudos, e outras tantas, completamente desmoralizadas, chegam ao suicídio.
O Stalking como violência machista
Stalking é uma prática de perseguição e controle, envolvendo comportamentos de assédio persistente, a partir de diferentes formas de abordagem e contato, vigilância e monitoramento de uma pessoa. A constância da perseguição, mesmo aparentemente inofensiva, caracteriza ameaça e intimidação, e em toda circunstância oferece algum risco. Em se tratando de um fenômeno pouco conhecido como ameaçador, a despeito do avanço em relação à legislação sobre o tema em várias partes do mundo, a legislação do Brasil não reconhece o stalking como violência.
Potencializada pela internet e as redes sociais, possibilita o controle e o acesso permanente às vítimas, em sua maioria esmagadora, mulheres. O termo stalking ou stalker, com as redes sociais, banalizou-se ao ser reconhecido como uma prática de vasculhar o perfil de alguém que nos interessa sexual ou afetivamente. No entanto, é uma questão que habita o corredor da violência psicológica, gerando, do mesmo modo que outras violências, diversos transtornos às vítimas, desde restrições no estilo de vida até impactos na saúde psicológica.
O stalking é uma forma de aviso para violência futura, assumindo uma escala de aproximação que pode chegar à violência física e sexual. Estudos surgem no sentido de aprofundar a leitura sobre estes fenômenos, e cumprem o papel de pressionar o poder público de países como Portugal, por exemplo, a dar resposta legal. É o caso de “Stalking: Boas práticas no apoio às vítimas. Manual para profissionais”, de Gangeia, Matos, Ferreira e Azevedo. Um elemento que ganha notoriedade nas elaborações são os casos que têm como desenlace o homicídio da vítima, sobretudo naqueles em que existe relação prévia, ou seja, a vítima possuía um relacionamento com o agressor. Outras características importantes são o foco num só alvo e a natureza implícita das ameaças, como a ocorrência de “encontros casuais” ou contato indesejado. Percebam que a exposição da vítima em redes sociais, seja pela visibilidade de seus círculos de amigos, fotos, locais que frequenta e até mesmo marcar o local onde se encontra no momento – “checking”, ampliam a margem de risco.
Segundo Grangeia e Matos, por se tratar de violência não reconhecida como tal, as vítimas frequentemente não buscam ajuda, impedindo que estas consigam reconhecer o cenário de violência, sentindo-se envergonhadas ou mesmo culpadas pela situação vivida.
Desse modo, a busca por ajuda é protelada até o momento em que coisas mais graves, em um quadro criminal, aconteçam, como uma agressão física ou invasão de domicílio, por exemplo. As autoras tratam ainda da necessidade em avaliar os riscos, de modo a diminui-los. Esta avaliação deve ser feita a partir de uma série de sinais. Levar em consideração apenas a avaliação do próprio agressor pode resultar em subestimação do risco, visto que é comum a negação ou diminuição de sua responsabilidade. Conhecer os acontecimentos e os relatos da vítima é o primeiro passo para construir um mapa dos riscos. A percepção da vítima sobre o risco é sempre um importante foco de avaliação, ainda que esta possa, em alguns casos, minimizar a própria condição.
As autoras afirmam a evidência de maior risco quanto mais próxima for a relação do stalker com a vítima, e estabelece motivos geradores que envolvem também diferentes ameaças. Entre eles estão os perfis de “rejeitado”, que não aceita o fim de uma relação ou a negativa para o início de uma; o “ressentido”, que busca formas de vingança; o “desajustado” ou “cortejador”, com práticas inadequadas de abordagem do outro, etc. Curiosamente o rejeitado, o mesmo ator das práticas de revanchismo, é aquele quem oferece o mais amplo leque de riscos às vítimas.
A criminalização do stalking nos Estados Unidos e em diversos países da Europa é hoje uma realidade. Há, no entanto, um hiato na legislação brasileira que não reconhece a sua gravidade e ameaça, sobretudo à vida das mulheres. Em 2011, um grupo de 15 juristas encaminhou uma proposta de lei que, entre outras questões, criminalizava a prática de stalking; a proposta foi limada nos principais pontos no senado, tendo caído a criminalização. A única legislação que engloba o problema no país é a contravenção penal de “perturbação de tranquilidade”, prevista no artigo 65 do Dec.-lei n.3.688/41 (Lei das Contravenções Penais), que afirma que alguém que lhe perturbar a tranquilidade, pode ser punido com prisão simples de quinze dias a dois meses, ou multa.
Através da Lei Maria da Penha (Lei n.11.340/2006) seria possível encontrar uma ferramenta para abordar o tema, a partir dos artigos: 

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

5 FERIDAS EMOCIONAIS DA INFÂNCIA QUE PODEM PERSISTIR NA IDADE ADULTA / Lisa Bourbeau

Embora não seja regra absoluta, não podemos negar que nossa infância e primeiras experiências afetivas podem influenciar na maneira como que lidamos com os relacionamos posteriores e na leitura que temos das coisas que acontecem ao nosso redor.
As boas e más experiências infantis afetam sim nossa qualidade de vida quando adultos. Influenciam também, depois, em como trataremos nossos filhos tanto do ponto de vista do afeto quanto do enfrentamento de adversidades. Agiremos, reproduzindo os comportamentos que conhecemos ou seremos diferentes?
Abaixo, estão descritas 5 feridas emocionais segundo a especialista em comportamento canadense Lisa Bourbeau. Para a autora, são elas algumas das mais determinantes nas dificuldades de relacionamentos que as pessoas podem carregar ao longo da vida adulta posterior.
1- O medo do abandono
Um dos medos frequentes nas crianças é o medo da ausência de seus pais, o medo do abandono. A criança, nos primórdios de sua vida, ainda não consegue separar fantasia de realidade, e, por também não conseguir quantificar o tempo, entende que as ausências podem ser sinônimos do abandono absoluto.
Se a aprendizagem dessa separação necessária já é complexa em ambientes onde os pais lidam com o fato com tranquilidade, no caso de pessoas que tiveram experiências de negligência na infância, as marcas deixadas podem acarretar um medo de solidão e rejeição contínuos todas as vezes em que a pessoa não tiver perto de si (fisicamente) a pessoa amada.
A ferida causada pelo abandono não é fácil de curar. A pessoa saberá que está curada quando os momentos de solidão não forem vistos como desamor e rejeição, e, dentro de si, existirem diálogos positivos e esperançosos.
2- O medo da rejeição
É uma ferida profunda que é formada quando, durante o desenvolvimento, a criança não se sentiu suficientemente amada e acolhida pelas figuras de referência que estavam ao seu redor assim como, posteriormente, pode ser afetada também por rejeições em ambiente escolar.
Como a pessoa, no começo, forma sua identidade a partir da maneira como que é tratada, se ela for desvalorizada e depreciada constantemente, pode internalizar em si uma autoimagem de que não é merecedora de afeto e de que não possui atributos suficientes para ser aceita em sociedade.
O rejeitado passa, então, a rejeitar-se, e, na idade adulta, muitas vezes, mesmo frente ao sucesso e obtendo bons resultados, essa pessoa pode apresentar grande fragilidade frente a qualquer crítica que exponha seus medos internos de insucesso.
3- A humilhação
Esta ferida é gerada no momento em que sentimos que os outros nos desaprovam e criticam. Podemos criar esses problemas em nossos filhos, dizendo-lhes que eles são estúpidos, maus ou mesmo exagerando em comparações; isso destrói a criança e sua autoestima.
Uma pessoa criada em um ambiente assim pode desenvolver uma personalidade exageradamente dependente. Outra possibilidade é o desenvolvimento da “tirania” também em si, um mecanismo de defesa em que a pessoa passa a humilhar aos outros para se sentir mais valorizada.
4- Traição ou medo de confiar
Uma criança que se sentiu repetidamente traída por um de seus pais, principalmente quando o mesmo não cumpria as suas promessas, pode nutrir uma desconfiança que, mais tarde, pode ser transformada em inveja e outros sentimentos negativos. Quem não recebe o que foi prometido pode não se sentir digno de ter os que os outros têm.
Pessoas que passaram por isso desenvolvem uma tendência maior a tentar controlar tudo e todos ao redor em uma tentativa de trazer para si o comando de variáveis que, antigamente, faziam com que se sentissem preteridas e injustiçadas. Quando perdem o controle, ficam nervosas e se sentem perdidas.
5- Injustiça
A ferida da injustiça surge a partir de um ambiente no qual os cuidadores primários são frios e autoritários. Na infância, quando existe uma demanda além da capacidade real da criança, ela pode ter sentimentos de impotência e inutilidade que depois pode carregar ao longo dos anos.
Em ambientes assim, a criança pode desenvolver um fanatismo pela ordem e pelo perfeccionismo como tentativa de minimizar os erros e as cobranças. Soma-se a isso a incapacidade de tomar decisões com confiança.
Nota da CONTI outra:
Como dito no começo, existem feridas da infância que aumentam a probabilidade de sequelas emocionais na vida adulta. Entretanto, nada é regra e existem pessoas que desenvolvem mecanismos adaptativos e superam essas questões. Outras, entretanto, não se saem tão bem. Se você for uma delas, procure ajuda de um profissional da saúde mental. Nunca é tarde para rever questões mal resolvidas. O passado não muda, mas o futuro ainda é um livro em branco.
Traduzido e ADAPTADO por Josie Conti.

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

DEPRESSÃO INFANTIL: ELA EXISTE E ESTÁ AUMENTANDO EM TODO O MUNDO

 Boa notícia é que a família tem papel fundamental para evitar que a doença se manifeste. Saiba mais sobre o assunto.
Um astronauta acaba de se deparar com a imensidão do espaço. Por algum motivo, suas amarras de proteção são desfeitas e ele não vê alternativas para voltar à nave, menos ainda para voltar à Terra. Ele agora está à deriva na imensidão do espaço. O quão desesperador isso lhe parece? Esta metáfora foi usada pelo psicólogo americano Douglas Riley para definir a sensação depressiva de uma criança. No livro The Depressed Child: A Parent’s Guide for Rescuing Kids (Criança Deprimida: um Guia para Pais Resgatarem os Filhos, em tradução livre), o especialista explica que pensamentos negativos, como “ninguém gosta de mim”, “sou inferior” e “a morte é a melhor saída” não são restritos aos adultos.
Pelo contrário, a depressão em crianças e adolescentes tem aumentado consideravelmente em todo o mundo, como mostram dados médicos recentemente divulgados. Um guia do National Institute for Health and Care Excellence (NICE), no Reino Unido, alertou: já são mais de 80 mil crianças da região diagnosticadas anualmente, 8 mil delas menores de 10 anos. Em maio, a Organização Mundial da Saúde (OMS) revelou que o transtorno depressivo é a principal causa de incapacidade de realização das tarefas do dia a dia entre jovens de 10 a 19 anos. No Brasil, não é diferente. Embora não haja dados estatísticos, estima-se que a incidência do distúrbio gire em torno de 1 a 3% da população entre 0 a 17 anos, o que significa, mais ou menos, 8 milhões de jovens.
O que está por trás dessa epidemia?
Os transtornos mentais podem ser acionados por qualquer gatilho – leia-se, situação ou experiência frustrante que a criança tenha enfrentado -, como separação dos pais, morte de um parente, bullying na escola, abandono, abusos físicos ou psicológicos, mudanças bruscas e alterações no padrão de vida. No entanto, o estilo de vida que levamos pode favorecer a manifestação da doença, como explica Marco Antônio Bessa, psiquiatra do Hospital Pequeno Príncipe (PR): “Muitas crianças estão com a agenda lotada de compromissos, o que eleva o grau de estresse, dormem mais tarde, ficam fechadas em ambientes como apartamentos e shoppings, usam aparelhos eletrônicos excessivamente, sob risco de aumento de ansiedade e restrição do contato social, e convivem menos com seus pais”.
Há, ainda, um fator genético que exerce influência. A ciência já comprovou que, quando há episódios de depressão na família, a probabilidade de a criança desenvolver algum transtorno mental aumenta consideravelmente. Se as vítimas forem mãe ou pai, as chances podem ser até cinco vezes maiores. Além disso, um distúrbio psiquiátrico – os mais comuns em crianças são de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH), de conduta e de ansiedade – pode abrir precedente para outro. Estudos conduzidos em 2012 pelo Hospital das Clínicas (SP) mostram que mais de 50% das crianças ansiosas experimentarão, pelo menos, um episódio de depressão ao longo da vida.
Não é só tristeza
O quadro depressivo de um adulto difere do de uma criança. Enquanto o adulto sofre com alteração de humor, falta de prazer em viver, de executar as tarefas, recolhimento, alterações de sono e de apetite, as crianças nem sempre dão sinais tão característicos. Como explica Ivete Gattás, coordenadora da Unidade de Psiquiatria da Infância e Adolescência da Unifesp, “é mais comum ela apresentar irritabilidade, agitação, explosões de raiva e agressividade, tristeza, sensação de culpa e de melancolia”. Não raro, a depressão é confundida com TDAH, por isso, é fundamental que se procure um profissional especializado. “Erros de diagnóstico e de tratamento podem mascarar os sintomas e até mesmo agravar o quadro”.
É claro que, assim como nós, a criança também não está imune à tristeza, a acordar sem vontade de se relacionar com as pessoas ou ao mau humor. O que se aconselha é tentar entender o contexto do seu filho, principalmente, observar a duração desses sentimentos (mais de um mês já é preocupante), a intensidade e de que maneira eles estão afetando a vida. “O pai que presta atenção em seu filho vai notar que algo mudou. Mesmo que ele não saiba exatamente o que é, já serve de sinal de alerta”, diz a especialista.
É possível evitar, sim
Assim como existem fatores facilitadores do transtorno depressivo, há outros que são protetores. Isso significa que o aparecimento da doença está intimamente ligado a uma equação de equilíbrio dessa balança. Mesmo que a criança tenha propensão genética e viva em um ambiente pouco favorável, ela pode não desenvolver o quadro e vice-versa.
Um bom funcionamento cognitivo, estabilidade e organização familiar, ambiente amoroso e ausência de fatos estressantes na vida da criança contribuem com a prevenção. Todos eles podem ser construídos e reforçados em casa, por você e por toda a família. Lembre-se: a criança que cresce com amor, carinho, que recebe atenção e proteção dos pais, dificilmente vai enfrentar problemas de comportamento ou desenvolvimento. E, ainda que os enfrente, serão mais facilmente superados.
(Autora: Andressa Basilio)
(Fonte: Revista Crescer)

domingo, 25 de outubro de 2015

Morre lentamente / Martha Medeiros

Morre lentamente
quem se transforma em escravo do hábito,
repetindo todos os dias os mesmos trajetos, quem não muda de marca
Não se arrisca a vestir uma nova cor ou não conversa com quem não conhece.
Morre lentamente 
quem faz da televisão o seu guru.
Morre lentamente
quem evita uma paixão,
quem prefere o negro sobre o branco
e os pontos sobre os "is" em detrimento de um redemoinho de emoções,
justamente as que resgatam o brilho dos olhos,
sorrisos dos bocejos,
corações aos tropeços e sentimentos.
Morre lentamente
quem não vira a mesa quando está infeliz com o seu trabalho,
quem não arrisca o certo pelo incerto para ir atrás de um sonho,
quem não se permite pelo menos uma vez na vida,
fugir dos conselhos sensatos.
Morre lentamente
quem não viaja,
quem não lê,
quem não ouve música,
quem não encontra graça em si mesmo.
Morre lentamente
quem destrói o seu amor-próprio,
quem não se deixa ajudar.
Morre lentamente,
quem passa os dias queixando-se da sua má sorte
ou da chuva incessante.
Morre lentamente,
quem abandona um projeto antes de iniciá-lo,
não pergunta sobre um assunto que desconhece
ou não responde quando lhe indagam sobre algo que sabe.
Evitemos a morte em doses suaves,
recordando sempre que estar vivo exige um esforço muito maior
que o simples fato de respirar. Somente a perseverança fará com que conquistemos
um estágio esplêndido de felicidade. 


segunda-feira, 28 de setembro de 2015

"O silencio machuca e até mata". / Bya Albuquerque

Meu nome não é Beatriz, porém uso o pseudônimo de Bya Albuquerque na comunidade que criei e administro faz oito anos, chamada "Filhas do Silencio". A comunidade trata do abuso sexual, com enfase em ajudar pessoas mais velhas a colocar para fora sua dor. E também mostrar as consequências devassadoras do abuso sexual, principalmente o infrafamiliar. É formada por três blogs, duas páginas, dois grupos (um fechado e outro secreto, somente para as mulheres abusadas), um e-mail e um perfil no facebook. 
Na verdade, a comunidade deveria se chamar "Filhas e Filhos do Silencio"...porém quando adentrei nesse mundo "paralelo" aos 40 anos, jamais pensei em encontrar tantas pessoas abusadas e tanto sofrimento. Por ter sido uma filha do silencio, achei que eram poucas as pessoas que foram abusadas numa época passada...
Hoje em dia o termo "abuso sexual" abrange desde o molestamento até o estupro. Muitos vivem somente uma fase...outros, assim como eu, passam por todas as etapas. Mas a pior violência é a emocional, que permanece por toda vida e que não deixa você falar. É um círculo vicioso: o emocional devora o físico e vice versa. No meu blog de depoimentos tenho menos de 100 relatos, porém tenho mais de 200 relatos arquivados, já que as vítimas não permitiram a publicação. Eu nunca peço a ninguém para que seja publicado, pois sei como um depoimento muitas vezes é difícil de ser assimilado pela própria vítima. Muitos me escrevem contando sua história e querendo apenas desabafar. Outros pedem eles mesmos para que o seu relato seja publicado no blog. Quanto mais jovem é a vítima, mais fácil lidar com o abuso. Mas tenho vítimas de 60 a 80 anos. De várias classes sociais. Às vezes recebo somente um comentário: fui ou sou uma / um filho(a) do silencio e o triste que ainda agradecem por terem conseguido falar. Fico extremamente abalada com relatos curtos e tão diretos. Imagino quanto tempo a pessoa precisou "tomar" coragem para escrever essas poucas palavras. Respeito demais todas as vítimas, alias não somente do abuso sexual, mas também do preconceito...bullying...discriminação...assédios...e da omissão social. 
O silencio machuca porque vai corroendo por dentro. Aparentemente  o abusado leva uma vida normal (dentro das suas possibilidades). Mas é somente aparentemente. Porém sofre com vários tipos de transtornos e fobias. Com a depressão, insonia, transtornos alimentares, ansiedade, vaginismo (nas mulheres), vários tipos de síndromes, como a Síndrome e Doença de Cushing, auto mutilação e baixa estima. Muito comum são a procura de drogas lícitas ou ilícitas e transtornos sexuais. Um deles já machuca e muito. Quando se juntam vários...é devastador.
Alguns não aguentam a pressão e se matam, já que não encontram forças e solidariedade necessárias para continuar sua jornada. Nesses oito anos passei por quatro suicídios dos membros e duas tentativas, uma foi nesse mês de setembro.
Falar ou escrever...são um grande alívio. O problema é que muitos não querem escutar...entender...ser solidários. Falar no fim do abuso sexual é a mesma coisa que falar do fim das drogas...da violência urbana e doméstica...corrupção. Não existe um final. mas podemos investir nas precauções e divulgar as terríveis consequências. Somente assim, quem sabe, podemos diminuir o número de filhos e filhas do silencio, a dor provocada por esse silencio e, por consequência, a morte.



Erotismo e palavras “proibidas” / MÁRCIA PINNA RASPANTI

PUBLICADO NO BLOG HISTÓRIA HOJE...

Quando estudamos a sexualidade e as práticas amorosas ao longo da História, muitas vezes, nos deparamos com expressões que nos causam espanto. O que era natural no passado pode ser escandaloso ou simplesmente soar estranho ou bizarro nos dias de hoje. Como entender o significado dessas palavras naquela época estudada, e mais ainda, como mostrar ao leitor o contexto em que foram empregadas? Os dicionários de época são nossos maiores aliados nessa missão.
O título do recém-lançado livro de Mary del Priore, o romance histórico “Beija-me onde o sol não alcança” (ed. Planeta), foi inspirado no poeta espanhol Francisco de Quevedo (1580-1645), autor de inúmeros poemas eróticos. “Ele fala de ambiguidade, de não poder dizer tudo, de se mascarar atrás das palavras. A vida dos três personagens principais (conde Maurice Haritoff, sua esposa Nicota Breves e a filha de escravo alforriado, Regina Angelorum, que formam um triângulo amoroso) é feita de traições. Traição do que se é, de quem se ama ou amou, dos projetos de vida”, explica a historiadora.
Para escrever a obra, Mary fez uma profunda pesquisa sobre palavrões e palavras de cunho erótico. “Meu maior cuidado nesse livro foi como vocabulário. Ficou tudo muito fiel às práticas da época”, diz a escritora. Para evitar anacronismos, ela recorreu à poesia erótica e pornográfica do século 19. “Lá está todo o repertório de palavrões”, diz.
Na segunda metade do século XIX, não faltaram os chamados “romances para homens” no Brasil, a exemplo do que ocorria na Europa. A vida amorosa dos grandes homens era um dos temas preferidos. Os amores conventuais continuavam na moda como se pode ver pelos “Serões do convento”, “Suspiros de um padre ou a crioula debaixo da cama”, “A mulher e o padre”. Não faltavam títulos mais picantes como “Amar, gozar, morrer”, “Os prazeres do vício”, “Gritos da carne”, “História secreta de todas as orgias”, entre muitos. Outro assunto muito abordado era a mulher adúltera, virgem, devassa ou pertencente às altas rodas de prostituição.
No que se refere ao vocabulário, Mary del Priore, em “Histórias Íntimas”, destaca que muitos textos limitavam-se a descrever uma sucessão de cópulas, mas tinham pudores quanto à linguagem. “Palavras chulas traduzidas em estórias francesas como picacaralhoporra eram cuidadosamente substituídas por autores portugueses e viravam varinha de condão, lançainstrumento, furão ou um nada sensual apêndice varonil“. A historiadora destaca que, O Primo Basílio, de Eça de Queiroz, publicado em 1878, foi considerado escandaloso a ponto de ser incluído na lista das “leituras para homens”. O fato da personagem Luísa sentir “um luxo radiante de novas sensações” em seu encontro com Basílio – leia-se, ter um orgasmo, – bastou!

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Prostituídas e exploradas: a dura realidade de crianças imigrantes abandonadas na Europa

Algumas delas entrando para o tráfico de drogas e outras se prostituindo. Na Itália, com o número crescente de imigrantes, as autoridades permitiram a abertura de abrigos privados para crianças, mas sem controle sobre suas atividades. Na Sicília, um desses locais tinha condições precárias de saneamento básico, cabos elétricos expostos e descaso com relação às crianças. Existem relatos também sobre maus-tratos em centros públicos e vínculos das crianças com a máfia italiana.
O número de crianças que buscam refúgio ou asilo na Europa cresceu 74%. Segundo a Unicef, nos primeiros seis meses de 2015, cerca de 106 mil crianças solicitaram asilo ou refúgio. Algumas delas chegam ao continente sozinhas, órfãos de guerra ou porque perderam sua família no caminho para a Europa.
Katya Adler
A sensação de "estar sozinho no mundo" é difícil para qualquer ser humano. Mas para uma criança, em um mundo ideal, essa situação deveria ser inimaginável.
Enquanto os líderes europeus discutem medidas para conter o enorme fluxo de refugiados e outros imigrantes para a Europa – e não parece haver solução imediata para o problema -, os mais vulneráveis são os que mais sofrem com a situação.
O número de crianças que buscam asilo ou refúgio na Europa aumentou 74%. De acordo com o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), durante os primeiros seis meses de 2015, cerca de 106 mil crianças solicitaram asilo ou refúgio na Europa.
Os mais novos, com menos de 10 anos, geralmente embarcam na jornada para a Europa junto com outro membro da família, mas a porcentagem de crianças desacompanhadas que têm chegado ao Velho Continente tem aumentado drasticamente.
Algumas são órfãs de guerra. Outras perderam a família na "odisseia" que enfrentaram para chegar à Europa.
Muitas outras foram "escolhidas" por suas famílias para tentar uma vida melhor no continente europeu, com a esperança de poderem enviar dinheiro ou mesmo abrirem as portas para um futuro mais promissor para todos.
Mas infelizmente a Europa não está suficientemente preparada para receber tantas crianças.
Agora, elas chegam à Grécia – a Hungria também se inseriu nessa rota -, mas, há dois anos, era a Itália o principal destino de imigrantes levados por traficantes de pessoas.
Muitos dos menores vinham de Síria, Eritreia e Afeganistão, e viveram toda espécie de horrores no trajeto para a Europa.
Alguns deles sofreram ataques e abusos durante a travessia, mas sempre mantinham esperanças de que quando chegassem lá, sua sorte mudaria.
Mas em muitos casos, não foi o que aconteceu.
Com as autoridades italianas sem saber como lidar com a grande quantidade de imigrantes desembarcando em sua costa, os criminosos se aproveitaram da situação.
Sem refúgio seguro
A consequência disso foi que muitas crianças acabaram sendo exploradas desde o primeiro momento que chegaram na Europa.
Crianças significam "oportunidades de negócios" no sul da Itália, e alguns centros de acolhida chegam a receber a até 75 euros diários por cada criança que abrigam – e 35 euros por cada adulto.
Sobrecarregadas com volume de imigrantes chegando, as autoridades italianas permitiram a abertura de abrigos privados para crianças, mas sem nenhum controle sobre suas atividades.
A reportagem da BBC visitou um centro desses na cidade de Giarre, na Sicília, e se deparou com condições precárias de saneamento básico, cabos elétricos expostos e descaso com relação às crianças que estavam ali.
Com resultado dessa investigação e depois de outra denúncia oficial feita por parlamentares italianos, o centro foi fechado há alguns dias.
No entanto, o problema não se resume aos centros privados. Há relatos também sobre maus-tratos a crianças em centros públicos, e sobre vínculos destes com a máfia italiana.
Fabio Sorgoni, que trabalha para a ONG italiana On the Road, disse à BBC que "o tempo é muito curto para que os italianos consigam proporcionar um refúgio seguro às crianças que chegam ali".
"A lei permite que os menores saiam dos centros de acolhida durante o dia e, assim, eles ficam mais suscetíveis ao crime organizado, que acaba explorando essas crianças", explicou.
Abandonadas
Pouquíssimos centros de acolhida italianos contam com tradutores suficientes para se comunicar com as crianças em seu idioma.
Além disso, não há profissionais capacitados para reconhecer vítimas de exploração sexual nesses lugares.
Inseguras e desprotegidas, milhares de crianças acabam fugindo dos centros de acolhida na Itália e perdendo-se nas ruas.
Sem ninguém disposto a tomar conta delas, essas crianças são abandonadas à sua própria sorte - e farão de tudo para tentar sobreviver.
A estação Termini de Roma – a principal estação ferroviária da cidade – se tornou um dos principais destinos das crianças abandonadas do Oriente Médio, quando elas não têm nenhum lugar para ir.
Alguns deles têm apenas 11 anos. São jovens vulneráveis, expostos à maldade alheia. A BBC acompanhou alguns deles durante alguns meses.
Uns foram presos, outros saíram dali em direção a outros países do norte da Europa. Mas suas histórias têm coincidências tristes.
Drogas e prostituição
Khaled, de 14 anos, nos contou que começou a vender drogas para comprar comida. "Fiz isso para evitar o que eu sabia que outras crianças estavam fazendo: mantendo relações sexuais com homens italianos".
"Eu vi isso com meus próprios olhos. Meninos egípcios, tunisianos, marroquinos, que cobram 50 euros ou até 30 euros por sexo com homens."
Na estação de trem, Khaled mostrou à reportagem da BBC como funciona esse negócio.
Ele foi a um café local – muito conhecido por homens que buscam esse tipo de serviço - e conversou com um homem de meia idade que estava ali.
A maioria dos jovens que conhecemos na estação eram muçulmanos e vinham de famílias conservadoras. Nenhum deles admitiu que se prostituía.
Um ficava apontando para o outro, mas Lassad, um voluntário ítalo-tunisiano que passa vários dias da semana na estação tentando tirar os meninos da vida criminal, disse à BBC que a maioria deles roubam, vendem drogas para gangues e, eventualmente, também se prostituem.
"O que esperam?", questionou. "De que outra maneira eles poderiam pagar suas dívidas com os traficantes de pessoas? Como vão conseguir se alimentar? Alguns deles sequer têm onde dormir. As pessoas sabem que esses meninos estão desesperados e se aproveitam deles. É um mercado."
O jovem Hamid chegou a ser preso por vender drogas. Ele diz que liga para sua mãe toda semana e mente sobre sua situação. Dormindo em ônibus à noite e passando dificuldades, o garoto nos mostra a fonte onde costuma tomar banho.
"Viemos aqui pensando que iríamos para a escola, que teríamos um lugar seguro para dormir e que encontraríamos trabalho", relata Hamid. "Mas não é assim. Nós trabalhamos por uma miséria nos mercados, outros que vieram vendem drogas e outros vendem a si mesmos."
"Se soubéssemos disso antes, jamais teríamos vindo aqui."
Para muitas dessas crianças, a rota de fuga para a Europa acaba se tornando um caminho para o inferno.
A maioria das crianças que chegam sozinhas ao continente europeu são meninos, mas viajando de Roma a Abruzzo, no centro da Itália, descobrirmos a situação desesperadora de meninas nigerianas no país.
Escravidão por dívida
O problema do tráfico sexual de mulheres nigerianas é um problema que existe há muito tempo na Europa, mas com a chegada de mais imigrantes pelo Mediterrâneo, a prostituição de meninas do país têm aumentado bastante – incluindo adolescentes.
As meninas deixam suas casas com a ideia de trabalhar na Europa como cabeleireiras ou cuidadoras.
Uma vez que terminam a árdua jornada até a Líbia, são mantidas em cativeiro por traficantes, que abusam sexualmente delas, antes de enviá-las em lanchas com destino à Itália.
Quando chegam, eles obrigam as meninas a se prostituírem, dizendo que elas lhes devem entre 50 mil e 60 mil euros (R$ 223 mil a R$ 267 mil) somente pelo pagamento do trajeto até a Europa. Assim, essas jovens mulheres – algumas de até 13 anos - viram "escravas" para pagar suas dívidas.
O valor pago por sexo em Abruzzo é de 15 euros (o equivalente a R$ 67), o que faz com que essas meninas precisem de anos para juntar o dinheiro suficiente para pagar a dívida.
As meninas com quem conversamos conseguiram escapar – e agora estão sob tutela estatal. Elas contaram que os traficantes as ameaçavam caso demorassem muito para pagar o que deviam.
Durante a noite, vimos meninas muito jovens nas ruas – uma delas, Annie, estava se prostituindo ao lado de uma lata de lixo. Ela nos contou que tinha acabado de chegar à Itália em um barco e parecia bem nervosa.
Essas meninas muitas vezes oferecem sexo apenas em troca de um prato de comida.
A legislação europeia e a legislação internacional defendem a proteção de menores. Mas enquanto os líderes europeus não definirem como lidar com os refugiados e imigrantes que chegam, milhares de crianças ou adolescentes estão sendo abandonadas em condições precárias dentro de suas próprias fronteiras.
http://jornalggn.com.br/…/abandonadas-criancas-imigrantes-s…