segunda-feira, 28 de abril de 2014

Chega de Fiu Fiu: mapa colaborativo mostra assédios sexuais contra mulheres pelo país / Graziela Salomão

Onde estão as principais ocorrências de assédio sexual pelo Brasil? Em busca de mapear essas regiões, a jornalista Juliana de Faria Kenski, que criou a campanha "Chega de Fiu Fiu" no ano passado, inaugurou agora um site colaborativo. A ideia deste mapa é reunir os testemunhos de mulheres que sofreraam algum tipo de violência ou tentativa de intimidação. "A primeira parte da campanha Chega de Fiu Fiu, que incluia a pesquisa e os primeiros passos, eram para trazer o assunto para a pauta. Queríamos denunciar que assédio não é algo aceito e cultural. Nosso objetivo é dar um basta porque isso causa um impacto muito negativo na vida das mulheres", diz Juliana.
De acordo com a descrição do projeto, a ferramenta é “uma tentativa de mapear os lugares mais incômodos e até perigosos para mulheres no Brasil”. No site, Juliana e Bárbara Castro, outra idealizadora do projeto, dizem que "ninguém deveria ter medo de caminhar pelas ruas simplesmente por ser mulher. Mas, infelizmente, isso é algo que acontece todos os dias". Ainda na descrição do mapa, a jornalista afirma que o "objetivo é lutar contra outros tipos de violência contra a mulher".
É possível ver alguns testemunhos já no site, que estreou no última terça-feira (22). “Estava sentada em algum dos bancos do metrô, quando um cara parou em pé na minha frente, haviam outros lugares para se sentar no vagão mas ele fez questão de parar na minha fente. Poucos minutos depois, quando olhei na direção em que ele estava, vi que havia abaixado as calças e estava com o pênis a mostra. Fiquei horrorizada e mudei de lugar, na hora fiquei tão assustada que não consegui pensar em nada, mandei apenas uma mensagem para o sms do metrô mas nada foi feito". O caso teria acontecido em São Paulo no dia 16 de outubro de 2013.
O metrô da capital paulista é um dos lugares com mais descritivos de assédio. Outra mulher relata que foi abusada sexualmente na Linha Vermelha no dia 5 de abril. “Dentro do trem lotado às sete da manhã, um homem ofegante abriu minha calça jeans. Distraída, senti cócegas na altura da virilha e pensei que fosse a corrente que usava pendurada na calça que estivesse me dando a sensação. Passei a mão e me assustei ao sentir que era a mão de outra pessoa. Afastei a mão dele, em choque. Ele tornou a colocá-la em mim, e eu tive que afastá-lo repetidamente até chegar na próxima estação, onde desci chorando. Entrei para as estatísticas do metrô, mas não conseguiram pegar o cara porque eu nem sequer consegui vê-lo direito”, contou.São Paulo possui mais denúncias. Na sequência vem Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Porto Alegre. As idealizadoras do mapa pedem que as vítimas denunciem os crimes para a polícia. “O mapa não substitui denúncias oficiais contra a mulher. Pedimos que denunciem também nas Delegacias de Defesa da Mulher e na Central de Atendimento à Mulher pelo telefone 180”. Para Juliana, é importante que as mulheres se unam neste assunto. "O mapa é de todas nós. Ele só vai ser relevante se tiver números relevantes. Espero que as pessoas denunciem. Com números relevantes a gente consegue articular mudanças", finaliza.

O SITE COLABORATIVO QUER MAPEAR AS REGIÕES MAIS PERIGOSAS PARA AS MULHERES (Foto: Reprodução)

VÁRIAS VÍTIMAS JÁ DEIXARAM RELATOS NO SITE. OS CRIADORES PEDEM QUE AS PESSOAS PROCUREM TAMBÉM A POLÍCIA (Foto: Reprodução)

quarta-feira, 23 de abril de 2014

ESTUPRADORES / Drauzio Varella

Anos atrás fui comprar uma luminária na rua da Consolação. A que escolhi, o vendedor disse custar R$ 250,00. Achei caro demais. Ele sorriu:
- Na verdade, custa R$ 85,00. É a tática que uso para o freguês comprar na hora.
Assim aconteceu com a tal pesquisa do Ipea. No primeiro momento, disseram que 65% dos brasileiros concordavam total ou parcialmente com a frase: “Mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas”.
Uma semana mais tarde, esse número foi corrigido para 26%. A reação foi de alívio e de revolta contra o Ipea, como se em cada quatro brasileiros um estar a favor do ataque fosse pouco.
A mesma pergunta refeita em São Paulo pelo Datafolha encontrou 12% de respostas positivas.
Quando o Datafolha substituiu a palavra atacadas por estupradas, 9% de nossos respeitáveis conterrâneos consideraram o estupro justificável.
O estupro é prática descrita em orangotangos, gorilas e chimpanzés, nossos parentes mais próximos.
Veja o caso dos orangotangos, primatas como nós, que passam a vida em cima das árvores. Os machos chegam a pesar 90 quilos, enquanto alguns não passam de 40, peso igual ao das fêmeas. A dominância é disputada pelos mais encorpados, que se enfrentam em lutas renhidas, mas que jamais acabam em morte; terminam quando o perdedor volta as costas para o adversário e se retira.
Os etologistas nunca entenderam como os machos pequenos conseguem se reproduzir, uma vez que são rejeitados pelas fêmeas, sempre interessadas nos grandes, mais aptos a proteger-lhes a prole.
Observações de campo mais recentes encontraram a explicação: os pequenos são estupradores. Atacada por um deles, a fêmea berra e se defende com todas as forças. Ao ouvir-lhe os pedidos de socorro, o macho-alfa corre pelos galhos das árvores para ajudá-la.
Mais ágeis, os pequenos fogem. Quando não conseguem, são espancados e atirados lá de cima. Chegam a morrer na queda, incidente que não ocorre entre os machos grandes em luta pela supremacia.
Agressões semelhantes contra estupradores são descritas em gorilas e chimpanzés. Do ponto de vista evolutivo, a explicação é lógica: aqueles incapazes de defender suas fêmeas, não transmitiram seus genes à descendência.
Seres humanos não são diferentes.
As agressões mais torpes a que assisti, foram perpetradas contra estupradores presos. No antigo Carandiru, o mínimo que lhes acontecia era serem esfaqueados pela turba enfurecida. Num deles, contei mais de quarenta facadas.
Quando perguntei a um dos detentos que havia carregado o corpo até a enfermaria, por que razão respeitavam o assassino de um pai de família, enquanto barbarizavam o estuprador, ele respondeu com voz pausada:
- Quem mata uma pessoa, pode passar o resto da vida sem matar mais ninguém. O estuprador vai sair daqui e atacar outra mulher, que pode ser a sua filha ou a minha irmã. Esses caras são anormais.
Não lhe tiro a razão. De fato, aceitamos com mais condescendência um assassino do que o estuprador. O estupro é o mais abjeto dos crimes.
Vamos falar de homem para homem, prezado leitor. Quem nunca passou pela experiência de estar a sós com a mulher desejada, ardente, em ambiente acolhedor, e fracassar?
Se nas condições mais favoráveis a impotência pode nos surpreender, imaginar que alguém consiga manter ereção enquanto agarra uma mulher desesperada, que grita, chora, tenta fugir e pede pelo amor de Deus para não ser violentada, está além da compreensão masculina.
Homem nenhum tem direito de atacar uma mulher, sob nenhum pretexto. Nem que ela esteja nua, num banco de jardim. Sexo não consentido é uma brutalidade criminosa que precisa ser punida com rigor.
Partir do princípio de que roupas decotadas justificam agressões sexuais, é aceitar que todas as mulheres possam ser estupradas em nossas praias ou nas cidades com verões escaldantes. Para evitar ataques, o que elas deveriam esconder? As pernas, os ombros, os braços, o colo? Não seria mais prudente andarem de burca?
Jogar a culpa na vítima é compactuar com a natureza do crime cometido contra ela. A questão é simples: estupradores são maníacos sexuais que precisam ser afastados do convívio social.

sábado, 19 de abril de 2014

.Mulheres Abusadoras Sexuais de Crianças

POSTAGEM DE 30.01.11

RESOLVI POSTAR NOVAMENTE DEVIDO AO INTERESSE SOBRE O ASSUNTO...BYA.
Ao longo dos últimos anos, houve uma crescente percepção de abuso sexual de crianças por mulheres. Evidências de que as mulheres abusam sexualmente das crianças estiveram disponíveis nos últimos 30 anos, mas permaneceram bem escondidas, por causa de estereótipos criados em relação à sexualidade feminina e à idealização das mulheres como fornecedoras de cuidado e alimentação.
A visão que se tem das mulheres como não agressoras sexuais dificulta a crença de que elas possam praticar o abuso sexual. Tradicionalmente, as mulheres têm sido vistas como as recebedoras passivas nos encontros sexuais, e não como agressoras sexuais. Além disso, algumas pessoas consideram difícil compreender de maneira precisa como as mulheres poderiam abusar sexualmente. Pesquisas mostram que mulheres abusadoras de crianças cometem vários tipos de atos sexuais, que incluem tocar os genitais, forçar a criança a sugar-lhes os seios ou a genitália, masturbação mútua forçada, penetração da vagina ou do ânus da criança com objetos e o coito propriamente dito. Por vezes, o abuso sexual é acompanhado de espancamento físico da criança. Os pesquisadores puderam identificar quatro categorias de mulheres abusadoras de crianças.
1. A professora / amante:
Envolve principalmente a mulher adulta mais velha engajada em um relacionamento sexual com um garoto pré-púbere ou adolescente, o qual ela encara como seu igual.
2. A agressora cuja predisposição ao abuso é de caráter intergeracional:
Todas as mulheres dessa categoria iniciaram o abuso sexual em crianças, muitas vezes, em seus próprios filhos.
3. As mulheres coagidas por homens:
As mulheres dessa categoria são, a princípio, coagidas a atacar sexualmente os filhos por um companheiro dominador, com um histórico de violência sexual contra crianças. Essas mulheres são muito dependentes e incapazes de se afirmar em relação aos companheiros.
4. A experimentadora - exploradora:
São garotas adolescentes relativamente ingênuas quanto a sexo e que buscavam ter uma experiência sexual com uma criança mais nova. São geralmente babás das crianças abusadas.

Principais características de mulheres abusadoras de crianças:
  • Baixa auto-estima, sentimentos de inadequação e vulnerabilidade.
  • Infância perturbada.
  • Falta de cuidados na infância.
  • Experiência de solidão, isolamento e separação dos outros.
  • Relacionamentos abusivos e negativos com companheiros de sexo masculino.
  • Histórico de atividade sexual compulsiva ou indiscriminada.
  • Graves distúrbios psicológicos ou doença mental.
  • Vício em álcool ou em drogas.
  • Quando criança, não era desejada ou era do sexo errado.

segunda-feira, 14 de abril de 2014

VIOLÊNCIA SEXUAL...

UMA DAS CONSEQUÊNCIAS DO ABUSO SEXUAL...
Automutilação - Cutting
Automutilação (AM), é definida como qualquer comportamento intencional envolvendo agressão direta ao próprio corpo sem intenção consciente de suicídio. Os atos geralmente têm como intenção o alívio de dores emocionais e em grande parte dos casos, estão associados ao Transtorno de Personalidade Borderline (TPB)




O ABUSO SEXUAL NÃO ESCOLHE QUEM SERÁ A VÍTIMA...COMPARTILHE!!!






MUITOS DOS TRAFICADOS VIRAM ESCRAVOS SEXUAIS...

Via Ministério da Justiça
Tráfico de Pessoas é crime. Ajude a combater este mal. Compartilhe essa mensagem! O tráfico de pessoa é um risco que pode aparecer disfarçado em propostas tentadoras e sedutoras.




ESSE TIPO DE VIOLÊNCIA É MUITO COMUM NO ABUSO SEXUAL E É O MAIS DEVASTADOR DE TODOS...

sábado, 5 de abril de 2014

Perfil psicológico e comportamental de agressores sexuais de crianças - Parte II / Antonio de Pádua SerafimI; Fabiana SaffiI; Sérgio Paulo RigonattiI; Ilana CasoyII; Daniel Martins de BarrosI INúcleo de Psiquiatria e Psicologia Forense (Nufor), Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas, Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) IIEscritora e pesquisadora sobre crimes seriais

Pedofilia, psicopatia e violência sexual

Um importante aspecto associado aos molestadores de crianças é a psicopatia. A presença de psicopatia em pedófilos colabora para a expressão de insensibilidade afetiva, diminuição da capacidade empática e elevado comportamento antissocial. Vários estudos têm demonstrado que criminosos psicopatas apresentam histórico de violência gratuita, com atos extremos de violência, como sadismo, crueldade e brutalidade.
O termo psicopatia descreve o indivíduo que apresenta padrão invasivo de desrespeito e violação dos direitos dos outros e pobreza geral nas reações afetivas - estima-se que entre 25% e um terço dos indivíduos com transtorno de personalidade antissocial apresentam critério para psicopatia. O que vai caracterizar o pedófilo ou molestador com psicopatia é a manifestação de evidente crueldade na conduta sexual, centrada e modulada pela postura de indiferença à ideia do mal que comete, não expressando emoções quanto ao desvio nem ao fato de que o seu comportamento produz sofrimento. Sugere-se que esse tipo de agressor sexual experimenta o prazer não mais com o sexo, e sim com o sofrimento de sua vítima. Em geral, reduz a vítima ao nível de objeto, passível de toda manipulação, degradação e descarte. O crime por prazer é produto de extremo sadismo, e a vítima é assassinada e mutilada com o propósito de provocar gratificação ao criminoso, sendo o prazer dele adquirido pela violência, e não pelo ato sexual.
Segundo o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, a prática do abuso pode ser caracterizada como o comportamento desviante denominado parafilia (do grego para → ao lado de, oposição + philos = amante, atraído por) se for motivada por transtorno da preferência sexual. Notadamente, as parafilias são caracterizadas por impulsos sexuais intensos e recorrentes, modulados por fantasias e manifestação de comportamentos não convencionais, como ocorre no fetichismo, travestismo fetichista, exibicionismo, voyeurismo, necrofilia e pedofilia.
Alguns autores ressaltam que o fato de uma pessoa apresentar preferências por determinadas partes do corpo, objetos e acessórios não representa necessariamente parafilia e, em muitos casos, não há riscos para condutas sexuais criminosas. De acordo com esses autores, para que esse funcionamento preencha critérios para a parafilia, deve-se considerar no seu portador os seguintes aspectos: 1) caráter opressor do desejo, com perda de liberdade de opções e alternativas, isto é, o parafílico não consegue deixar de atuar dessa maneira; 2) caráter rígido, significando que a excitação sexual só se consegue em determinadas situações e circunstâncias estabelecidas pelo padrão da conduta parafílica; e 3) caráter compulsivo, que se reflete na necessidade imperiosa de repetição da experiência.
A dificuldade no controle da compulsão se apresenta como o fator de maior vulnerabilidade para a ocorrência de condutas criminosas com implicação médico-legal. Altos níveis de testosterona, incapacidade em manter relação conjugal estável, traumatismo cranioencefálico, retardo mental, psicoses, abuso de álcool e substâncias psicoativas, reincidência de crimes sexuais e transtornos da personalidade são outros fatores conhecidos de vulnerabilidade para as condutas sexuais criminosas. Ressalta-se que no Brasil há grande escassez de material de pesquisa sobre a violência sexual infantil.
Outro padrão psicológico e comportamental observado em molestadores refere-se a aspecto obsessivo. Gaconoet al ressaltaram que o construto obsessivo nos molestadores psicopatas se inicia bem antes da primeira expressão de conduta sexual delituosa.
Características demográficas e comportamentais dos agressores
Molestadores sexuais dificilmente modificam seus aspectos psicológicos, culturais ou sexuais, mesmo que corram risco de eles serem identificados. Para alguns autores, a realização da investigação fenomenológica é a chave para a identificação do agressor.
modus operandi (MO) - expressão repetitiva do comportamento criminoso em questão - assegura o sucesso do crime, protege a identidade do criminoso e garante sua fuga. O MO é dinâmico e maleável, na medida em que o infrator ganha experiência e confiança. O ritual, por sua vez, é comportamento que excede o necessário para a execução do crime, sendo construído com base nas necessidades psicossexuais do agressor, e este aspecto é crítico para a satisfação dos seus desejos e impulsos.
Lanning ressalta que, se o MO é repetido frequentemente durante a atividade sexual, alguns de seus aspectos podem, por comportamento condicionado, transformar-se em ritual e seus comportamentos subsequentes são determinados pelas imagens eróticas e abastecidos pela fantasia e podem ter natureza bizarra.
O típico agressor é homem, começa a molestar por volta dos 15 anos, se engaja em vários comportamentos pervertidos e molesta uma média de 117 jovens, cuja maioria não dá queixa. Cerca de 30% são menores de 35 anos. Por volta de 80% têm inteligência normal ou acima da média.
Lanning e Salfati e Canter ressaltam que 50% dos abusos infantis envolvem o uso de força física e que molestadores de crianças produzem o mesmo percentual de ferimentos na vítima que os estupradores
Mais da metade dos criminosos sexuais condenados que acabam de cumprir pena voltam para a penitenciária antes de um ano. Em dois anos esse percentual sobe para 77,9%. A taxa de reincidência varia entre 18% e 45%. Quanto mais violento o crime, maior a probabilidade do criminoso repeti-lo.

Considerações finais
Analisado com minúcia, o crime sexual contra menores vem se mostrando complexo e variado, com diferentes perfis de criminosos se engajando nessa prática, por diferentes motivos. O perfil psicológico para identificar criminosos sexuais, embora utilizado por alguns pesquisadores, ainda requer melhor validação científica, visto que seus procedimentos são em sua maioria decorrentes de pesquisas empíricas.
Diante do quadro exposto, todavia, tal prática é muitas vezes necessária na esfera da psiquiatria e da psicologia forense, não só como forma de ampliação do conhecimento da dinâmica do indivíduo agressor, mas também contribuindo para a determinação da sua capacidade de entendimento e autocontrole.
Reforça-se que estabelecer sólidas bases para a classificação de criminosos sexuais de acordo com comportamento, tipo de vítima, motivação e risco de reincidência só é possível em um contexto interdisciplinar. Fica claro que a confluência dos saberes do psiquiatra, apto a diagnosticar transtornos mentais com seu instrumental específico; do psicólogo, cuja expertise se dá na direção da análise do comportamento, das motivações e da psicodinâmica subjacente aos atos; do assistente social, capaz de identificar elementos do contexto socioeconômico e familiar implicados nas situações; enfim, de equipe verdadeiramente comprometida com o trabalho conjunto, deve ser ativamente perseguido, se o objetivo é traçar perfil fidedigno das pessoas envolvidas em atitudes, como os crimes sexuais, uma vez que o comportamento de agressores sexuais não apresenta uma causa única, tem origem sabidamente multifatorial e envolve o complexo imbricamento de vários fatores. Só assim haverá, de fato, possibilidades para uma contribuição de forma técnica tanto para a possível identificação do ofensor como para o planejamento de tratamentos individualizados, auxiliando na definição de qual intervenção é mais efetiva e para quem.

Perfil psicológico e comportamental de agressores sexuais de crianças - Parte I / Antonio de Pádua SerafimI; Fabiana SaffiI; Sérgio Paulo RigonattiI; Ilana CasoyII; Daniel Martins de BarrosI INúcleo de Psiquiatria e Psicologia Forense (Nufor), Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas, Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) IIEscritora e pesquisadora sobre crimes seriais

CONTEXTO: A prática de abuso sexual contra crianças é um fenômeno universal. Ela ocorre em todos os tempos e lugares e atinge todas as classes socioeconômicas. Enquanto a maioria dos estudos investiga as vítimas, os poucos estudos sobre agressores se concentram principalmente em dados demográficos. 
OBJETIVO: Apresentar revisão da literatura quanto à classificação de molestadores sexuais de crianças, de acordo com o perfil psicológico e comportamental. 
MÉTODOS: Revisão da literatura e discussão do material utilizado. 
RESULTADOS: Apresentação das principais classificações dos criminosos sexuais contra crianças, identificando as tipologias mais utilizadas com suas possíveis contribuições à psiquiatria e à psicologia forense. 
CONCLUSÃO: A utilização do perfil psicológico em crimes sexuais é de fundamental relevância no contexto médico-legal, mas ainda carece de bases científicas mais sólidas.


A violência sexual vem sendo perpetrada desde a antiguidade em todos os lugares do mundo, em todas as classes socioeconômicas, sendo fenômeno complexo, com multiplicidade tanto de causas quanto de consequências para a vítima.
As experiências de violência ou abuso sexual na infância correlacionam-se a perturbações psicológicas e comportamentais na vida adulta, especificamente sendo identificada a associação entre o abuso sexual de crianças e os distúrbios psiquiátricos como transtorno de estresse pós-traumático, transtornos do humor e transtornos psicóticos.
Os crimes sexuais não acontecem simplesmente, pois somente pequeno número de molestadores de crianças age sem planejamento ou premeditação. Para a maioria desses criminosos o planejamento se inicia horas, dias ou até meses antes da ação. Apesar de compreenderem que estão agindo fora da lei, racionalizam seu comportamento, convencendo-se de que não estão cometendo nenhum crime e de que seu comportamento é aceitável.
O molestador de crianças convence a si mesmo de que a criança quer se relacionar sexualmente com ele, projetando nela os pensamentos e sentimentos que ele quer que ela tenha sobre ele. Ele interpreta a reação humana da vítima aos seus atos preparatórios e manipulatórios como resposta positiva aos seus desejos sexuais e se convence de que seu comportamento abusivo não causa estragos nem é prejudicial.
Pedófilo abusador
O tipo mais comum de pedófilo abusador é o indivíduo imaturo. Em algum ponto da vida ele descobre que pode obter com crianças níveis de satisfação sexual que não consegue alcançar de outra maneira. Trata-se de tipo solitário, e a falta de habilidade social acaba levando-o a mergulhos cada vez mais profundos e fantasiosos na pedofilia. Seu comportamento é expresso de forma menos invasiva (usam de carícias discretas) e dificilmente age com violência, o que na maioria das vezes dificulta que a criança e as pessoas ao seu redor notem o fato. Tende a se envolver com pornografia infantil, pela internet ou utilizando fotografias diferentes dos molestadores.
Pedófilo molestador
Como dito, a característica marcante do pedófilo molestador é o padrão de comportamento invasivo com utilização frequente de violência. Esse tipo também pode ser dividido em dois grupos: molestadores situacionais e preferenciais.
Molestador situacional (pseudopedófilo)
Para esse indivíduo a criança não é especialmente o objeto central de sua fantasia, logo não pode ser diagnosticado como pedófilo, na acepção estrita do termo. Alguma circunstância contingente o impele a obter gratificação sexual através da criança, o que ocorre muito mais pela fragilidade dela e pela dificuldade de ser descoberto do que pelo fato de ser pré-púbere - daí a denominação "situacional".
Esse tipo de molestador frequentemente é casado e vive com a família, mas, se alguma situação de estresse acontece, ele é levado a sentir-se mais confortável com crianças. Na maioria das vezes ataca meninas. Se a preferência for por meninos, é provável que, nesse caso, o agressor seja homossexual.
A maioria dos agressores desse tipo pertence às classes socioeconômicas mais baixas e é menos inteligente. Seu comportamento sexual está a serviço das suas necessidades básicas sexuais (excitação e desejo) ou não sexuais (poder e raiva). São oportunistas e impulsivos, focalizam as características gerais da vítima (idade, raça, gênero) e os primeiros critérios para a escolha dela são a disponibilidade e a oportunidade. Entre os molestadores de criança situacionais existem três perfis diferentes de indivíduos: o regredido, o inescrupuloso e o inadequado.
Molestador situacional regredido
Segundo alguns autores, o indivíduo com esse perfil, em razão de vivências intensas de estresse, regride a estágios anteriores do desenvolvimento e, para sentir-se seguro e à vontade, passa a interagir melhor com pessoas tão fragilizadas quanto ele naquele momento. Por esse motivo, não ataca apenas crianças. Para satisfazer seus desejos sexuais, utiliza-se de qualquer grupo vulnerável, como idosos e deficientes físicos ou mentais.
Esse tipo de molestador apresenta estilo de vida estável, financeira e geograficamente. Deve estar empregado, mas no seu histórico podem constar alguns problemas relativos a abuso de substâncias alcoólicas. Tem prazer imenso em seduzir, diminuindo, assim, seus problemas com a baixa auto-estima, que provavelmente o acometem, e mantém várias vítimas seduzidas em estágios diferentes, esperando sua ação.
A internet é um meio de busca de alvos bastante comum para esse tipo de agressor, cujo comportamento sexual é composto de sexo oral e vaginal. O uso de pornografia infantil melhora seu desempenho e a conquista da vítima. É frequente esse tipo de molestador infantil colecionar filmes caseiros e/ou fotografias das crianças que foram suas vítimas.
Molestador situacional inescrupuloso (moral ou sexual)
Esse agressor abusa de quem está disponível para satisfazer suas necessidades sexuais e o fato de atacar crianças faz parte desse contexto, não sendo a sua prioridade. Molestar uma criança é parte do padrão de abuso geral em sua vida, pois tem como hábito usar e abusar das pessoas. Esse indivíduo mente, trapaceia, furta e não vê motivo para não molestar crianças. Usa força, sedução ou manipulação para conquistar sua vítima. É um indivíduo charmoso, considerado agradável pelas pessoas e crianças à sua volta. Se for casado, é o tipo de homem que troca de mulher a toda hora.
O incesto é comum para esse molestador, que não hesita em envolver seus filhos ou enteados na realização de seus desejos. Não é raro esse agressor fazer parte de grupos de pornografia infantil, mas escolhe uma faixa etária definida de vítimas ao atacar crianças.
Molestador situacional inadequado
Alguns autores enfatizam a possibilidade de que esse tipo de molestador sofra de alguma forma de transtorno mental (retardo mental, senilidade etc.) que o impossibilita de perceber a diferença entre certo e errado em suas práticas sexuais, ou seja, o caráter delituoso de seus atos. Em geral, não manifesta comportamento agressivo, isto é, não machuca a criança fisicamente, pois suas práticas sexuais envolvem abraçar, acariciar, lamber ou outros atos libidinosos que raramente incluem a relação sexual. Quando mantém relação sexual com a criança, esta tende a ser anal ou oral.
Pedófilo molestador preferencial
Para o molestador desse grupo, a gratificação sexual só será alcançada se a vítima for uma criança. Na realidade americana os agressores desse grupo tendem a ser mais inteligentes que a média da população e pertencem a classes sociais mais elevadas. Seu comportamento sexual está a serviço de suas parafilias e é persistente e compulsivo, orientado por suas fantasias. Focaliza sua ação em vítimas específicas, no seu relacionamento com elas ou no cenário dos fatos. Alguns colocam em prática com a criança as fantasias que têm vergonha de executar com um parceiro adulto. O número de vítimas desse tipo de molestador de crianças é altíssimo e ele costuma atacar mais meninos do que meninas.
A característica marcante desse tipo de molestador é a violência extrema, que chega até o homicídio. Ele pode ser do tipo: sedutor, sádico e introvertido.
Pedófilo molestador preferencial sedutor
De acordo com Holmes e Holmes, esse perfil representa um dos grupos mais perigosos, visto ser difícil para a criança escapar das suas mãos. Geralmente ele corteja, presenteia e seduz seus alvos e é capaz de percorrer qualquer distância para alcançá-los. Em princípio, esse ofensor não quer machucar a criança. Fica íntimo dela antes de molestá-la e insinua gradativa e indiretamente assuntos sexuais, usando pornografia infantil e parafernália sexual. Esse material tem como objetivo diminuir as inibições da vítima e criar a possibilidade de ela manter sexo com um adulto. Normalmente é solteiro, tem mais de 30 anos e estilo de vida e comportamento infantilizados.
Para que esse tipo de molestador infantil possa estar em constante contato com seus alvos, deixando crianças em vários estágios de sedução, é necessário que o contato seja legítimo. Sendo assim, as profissões escolhidas por esse tipo de agressor serão aquelas da qual as crianças são parte inquestionável, como funcionários de escolas, monitores de acampamento, técnicos esportivos, motoristas de ônibus escolar, fotógrafos, padres etc.
Pedófilo molestador preferencial sádico
Esses agressores pretendem molestar crianças com o expresso desejo de machucá-las. Seu excitamento sexual é diretamente proporcional à violência, que pode ser fatal.
O crime é premeditado e ritualizado, sendo resultado de elaborado plano de ataque. Ele não conhece a criança que ataca e não a seduz: utiliza-se de truques para tirá-la dos pais ou de armas para amedrontá-la ou simplesmente a leva a parquinhos, shopping centers e escolas.
A maioria dos molestadores desse tipo é do sexo masculino, tem personalidade antissocial, trabalha em empregos temporários e muda frequentemente de endereço ou de cidade. Antecedentes criminais envolvendo atos violentos, como estupro ou assalto, são comuns. Os meninos se caracterizam como a principal vítima desse molestador, que prefere o sexo anal. Machuca a criança de forma fatal, e a prática do canibalismo pode ser frequente. Castração de meninos, brutalização da área genital feminina e decapitação fazem parte do repertório de mutilações desse criminoso.
Pedófilo molestador preferencial introvertido
É um indivíduo que prefere crianças, mas não tem habilidade pessoal para seduzi-las. Tipicamente, mantém mínima comunicação verbal com a criança que escolhe. Em geral, ela é desconhecida e muito pequena para entender o que está acontecendo. Sua área de ação envolve os parques infantis ou locais com grande concentração de crianças, onde observa e/ou tem breves encontros sexuais. Telefonemas obscenos e exibicionismo também são ofensas comuns. Para realmente se relacionar sexualmente utiliza prostituição infantil, turismo sexual, internet ou se casa com a mãe das crianças que deseja para ter acesso legítimo e seguro e com a frequência que necessita.


ESTAR NO FUNDO DO POÇO...SOZINHA...ABANDONADA É UMA SENSAÇÃO CAUSADA PELA CONSEQUÊNCIA DO ABUSO SEXUAL...BYA.


Estupro não é por pouca... roupa / Sônia T. Felipe

Já escrevi em outro lugar e repito aqui: se o tamanho da roupa fosse a causa do estupro, bebês, idosas, deficientes e freiras jamais conheceriam essa violência.
Estupro é uma forma de assalto. O alvo do assalto é a parte sexual do corpo, a genitália e seus arredores, de pessoas vulneráveis. A vulnerabilidade pode ser o estado permanente da pessoa sexualmente assaltada, ou um estado transitório, um momento do qual o violentador se aproveita, em que a pessoa não tem como se defender, para produzir o assalto sexual, o estupro, ainda que a pessoa assaltada não esteja permanentemente numa condição vulnerável, como ocorre com crianças muito pequenas, com deficientes ou com idosas.
Estupro é violência física que tem exclusivamente como agente o macho inconformado com o fato de que os corpos das pessoas não disponibilizam o gozo que ele tanto almeja.
Estupro é prática de homens machistas até a raiz dos cabelos, criados em religiões machistas, formados em escolas machistas, educados em famílias machistas. Dizer que o tamanho da roupa de uma mulher é a causa que produz o estupro é desculpar os homens por sua barbaridade sexual, típico na cultura brasileira, onde são feitas essas pesquisas pretensamente neutras que acabam por reforçar a violência sexual sofrida pelas mulheres, pelas crianças, pelas idosas, independentemente do tamanho da roupa.
Vai alegar na Europa que o tamanho da roupa foi o que provocou o estupro, vai! Lá as pessoas se despem totalmente em muitos lugares, incluindo parques nos centros urbanos, para se exporem à luz do sol sem a qual não há formação da D, que fixa o cálcio nos ossos e ajuda a combater a depressão por falta do sol. Vai pesquisar nos países da Europa quantas pessoas foram estupradas por estarem peladas ao sol! Nunca isso aconteceu.
Fora do Brasil, esses brasileiros que levam na cabeça o seu membro viril, mais parecendo unicórnios do que homens, se comportam direitinho. É, tem homem que só tem isso bem no centro da cabeça e daí fica parecendo essa figura estranha.
Por que será que em lugares onde tais teses machistas não imperam, os homens se contêm? Se a pouca roupa fosse o caso, o estupro correria solto também na Europa. A ideia da pouca roupa é puritanismo, mais uma forma de repressão contra as mulheres.
E há mulheres que juntam sua voz para afirmar tais barbaridades, perpetuando assim a cultura machista, fálica e unicórnica na qual suas filhas meninas terão que crescer, submetendo suas escolhas estéticas ao padrão violento da sexualidade unicórnica, imposto a elas como limite para expressão de seu gosto pessoal. Estupradores usam seu pênis como um chifre: querem penetrar com violência o que não está aí para servi-los.
Bovinos usam seus chifres para se defenderem de ataques. Homens estupradores usam seu pênis para atacarem as mulheres que não estão aí para lhes oferecer o que cobiçam. Sexualidade violenta. De machos mal resolvidos. Impondo a todas as mulheres um padrão de vestir-se, quando não é o vestido que causa o estupro, é a cabeça mal formada do homem, deformada por conceitos violentos de superioridade da raça viril que o leva a penetrar o corpo de uma mulher usando a mesma estratégia do assalto à mão armada. Nesse caso, conforme escrevi num artigo há quase vinte anos, a arma é o pênis (para uma leitura maior, podem ver o livro: Estupro e atentado violento ao pudor, que escrevi em co-autoria com a jurista psicanalista Jeanine Nicolazzi Philippi, editado em 1998 pela Edufsc).
O corpo é o lugar sagrado no qual cada subjetividade se forma, o suporte sem o qual não há espírito, nem de homem, nem de mulher. Assaltar o corpo para realizar um ato que só tem sentido se consentido, é uma forma de violência que quer impor um padrão de sexualidade unicórnica, fálica a todas as mulheres. Funciona como funciona o ato terrorista: basta estuprar uma delas e todas as demais levam a lição.
No dia seguinte ao aviso de que a pouca roupa foi o que causou o estupro, todas as mães (por vezes os pais), em desespero, passam a examinar o tamanho da blusa, do short e da saia da filha quando sai para a noite ou para o trabalho. E é assim mesmo que a sexualidade unicórnica imposta pelos homens e reverenciada pelas mulheres vai forjando um tipo de sexualidade da qual a mulher foi excluída, na qual ela não pode se expressar, à qual ela sucumbe. Infelizmente, as mulheres foram educadas para achar que sua sexualidade se resume em atender aos apelos do órgão pendurado no corpo de um homem. A sexualidade de uma mulher não é fálica. Quando o falo se impõe como padrão, destino e sujeito da interação sexual, a mulher é derrotada. Estupradores nada mais fazem do que derrotar aquela que elegem para assaltar sexualmente. E muitas mulheres, mesmo as que não sofrem estupros na forma em que o conceito se impôs, são estupradas em sua sexualidade por esse padrão unicórnico imposto ao sexo delas.
Culpar a mulher, a criança, o bebê, a idosa, o idoso (mais raro, mas acontece), o rapaz, por sofrerem um estupro é da mesma ordem que culpar qualquer pessoa por levar sua carteira com dinheiro e documentos consigo e sofrer um assalto.
Você foi assaltada, assaltado? Estava pedindo, não é mesmo? Quem mandou andar com a carteira no bolso! Se as mulheres têm que vestir mantos dos pés à cabeça (e burkas) para não despertarem nos unicórnios estupradores qualquer impulso físico, então a mesma lógica deverá ser aplicada para que não haja mais assaltos: ninguém mais deve andar com carteira, com celular, com relógio, com carro, ter casa, objetos de valor na casa... nada nada que dê ideia ao assaltante de usar de violência para obter o que deveria ter apenas como fruto de sua conquista.
Não é diferente com sexo. Quer ter uma interação sexual? Tá precisando? Dê-se ao trabalho de conseguir isso com o consentimento da outra pessoa. Se não invertermos essa pesquisa machista, já, daqui a pouco esse instituto vai fazer nova pesquisa induzida e colocará lá a inteligente questão: Você acha que haveria assaltos na rua se ninguém mais saísse à rua? Êta gente inteligente, não é mesmo? Isso sim é uma vergonha nacional.
Sinto vergonha alheia, por ver homens e mulheres defendendo o estupro em respostas induzidas, e por ser mulher e ver gente (instruída) induzindo as pessoas a defenderem o estupro.
Divulgar o resultado de uma pesquisa mal feita como essa tem como resultado reforçar o que dizem ter ido investigar. Não foram pesquisar coisa alguma. Fizeram a pergunta de tal modo que automaticamente 65% dos entrevistados escolheram a resposta mais rápida, para parecerem inteligentes. Pesquisa de fatos, genuína, não induz nada. A indução na resposta tem o propósito de facilitar a contabilidade dos dados obtidos. Os dados obtidos são exatamente os que foram oferecidos ao entrevistado.
Portanto, a divulgação do resultado da pesquisa deveria ser assim: Pesquisadoras/es do IPEA creem que o estupro se deva à pouca roupa das mulheres. Ponto. Isso seria divulgar o que está na cabeça de quem formatou a pesquisa, aliás, péssima/o cientista. Fiz muita pesquisa nas ruas em toda a minha vida. E analisei muitas também, justamente nos 15 anos em que mais estudei o estupro e fiz palestras sobre ele.
Quanto ao unicórnio, que uma leitora lamentou, nos comentários de um compartilhamento, ter sido usado como metáfora da cultura fálica instalada pelo nosso país afora, o fiz justamente por ser um animal criado pelo imaginário com um design nada sutil do falo pontudo bem no meio da cabeça.
Esse design me leva a crer que quem o criou tinha exatamente um falo no meio de sua cabeça e criou a figura para que todas as mulheres venerem o falo. Não é de graça que induzem todas as mulheres a acharem lindinho o unicórnio. Fiquem espertas com imagens fálicas. É assim que plantam o falo na mente das mulheres, ocupando um espaço que elas deveriam cultivar para deixar florescer a sua própria sexualidade, com sua singularidade que não evoluiu para reverenciar o falo. Que os homens reverenciem seus falos. Aliás, a maior parte só sabe mesmo é fazer isso. Temos coisas mais sérias para tratar quando tratamos de expressar nossa sexualidade. Tá faltando admiração pelo que é da mulher. Tudo está voltado para o que é do homem. Tá havendo uma falta grande... e não é de roupa não.

TUDO É UMA QUESTÃO DE ESCOLHA… / Crystal Espaço Terapêutico

As pessoas que fazem diferença neste mundo são aquelas que acordam, procuram pelas circunstâncias que querem…
Não esperam que as coisas aconteçam, mas fazem as coisas acontecerem. 
Quem escolhe o caminho da diferença, faz a diferença. 
No entanto, a maioria leva uma vida que não gostaria…
Ao invés de conduzir sua vida, o que fazem?
Estão sempre culpando suas circunstâncias, se sentem vítima, refém, prisioneiros de seu destino.
Vivem uma vida limitada, em trabalhos que não motivam, mal remunerados, vazios ou um tédio interminável.
Então, qual é a solução?
É fazer as coisas de forma diferente, ver com outros olhos!!!!
Muitos fazem as coisas da mesma maneira e esperam que os resultados sejam diferentes.
É preciso deixar as experiências velhas de lado pra deixar chegar as novas.
Mas, para isso, você precisa superar suas próprias limitações…
Seus medos, inseguranças, desmotivação, desesperança e, principalmente, seus pensamentos limitadores…
Jogue fora o “não consigo”… “não posso”, “não sou capaz”…
Tudo é uma questão de decisão, de escolha. 
Você pode decidir deixar de ser uma criatura impotente diante da vida e dos fatos
e assumir o papel de criador e transformador de sua realidade..
Que tal começar a tentar hoje?

ESCOLHA

ERRO DO IPEA SOBRE VIOLÊNCIA SEXUAL

BARRIGA JORNALÍSTICA
A grande mídia nacional embarcou no resultado mentiroso da pesquisa manipulada do IPEA e ficaram  "barrigudos", foi uma bela barrigada.  
Desde a primeira linha que li no site da Folha em 27 de março eu sabia que a pesquisa foi manipulada e o resultado mentiroso. 
Porém a Folha, o Estado, o Globo, Bandeirantes, o Fantástico, enfim quase todos, honrosa exceção a alguns blogueiros da Veja e outros independentes, embarcaram nesta canoa furado do instituto governista. 
Como eu sabia que estava errado?
- Simples, sou brasileiro, vivo com os pés no chão, conheço meu povo, não vivo na lua. 

Quem quiser conferir minha opinião acesse no facebook o grupo LEI 11.340 CONTRA A VIOLÊNCIA À MULHER
https://www.facebook.com/groups/leimariadapenha/10153930470080705

Está registrado que em 27/03/2014 às 18:54 eu já desmentia o resultado da pesquisa. 

O novo número ainda está distorcido, 26% (VINTE E SEIS POR CENTO) ainda é muito, se a pergunta não fosse uma pegadinha, a resposta não seria nem SEIS por cento, talvez batesse no menos do que UM por cento. 

Se a pegunta fosse: 
- Mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser estupradas?
- Não - 99%
- Sim - 1%

Nestes 1% a maioria seria de mulheres que não toleram a concorrência das periguetes. 

José Geraldo 

quarta-feira, 2 de abril de 2014

A SEGURANÇA DA VACINA CONTRA HPV / DR. DRAUZIO VARELLA

O HPV (papilomavírus humano) é a doença sexualmente transmissível mais comum no mundo. Com mais de cem tipos de vírus,  estima-se que 50% da população sexualmente ativa já tenha sido infectada por algum tipo de HPV.  “É uma doença altamente infecciosa, até mais que o HIV. Para estar exposto aos vírus, não precisa necessariamente ter relação sexual com penetração. As pessoas virgens não estão necessariamente protegidas contra o HPV, pois ele pode ser transmitido por contato sexual, que envolve sexo oral e carícias”, explica o Secretário de Vigilância em Saúde Jarbas Barbosa.
Embora o preservativo ofereça proteção efetiva, é possível que a transmissão ocorra mesmo com seu uso, uma vez que o parceiro pode ter verrugas na parte externa dos genitais e na área com pelos, regiões que não são cobertas pela camisinha,  e acabar transmitindo o vírus. Mas esse fato não exclui o uso do preservativo, pois sem ele as pessoas ficam mais expostas ao HPV e a outras DSTs.
Como  a intenção de evitar futuras contaminações pelos vírus, o Ministério da Saúde do Brasil adotou mais uma medida preventiva que deve ser somada ao uso do preservativo e ao exame de papanicolaou:  a campanha de vacinação contra o HPV, iniciada no dia 10 de março de 2014.  Cerca de 2 milhões de meninas de 11 a 13 anos já foram imunizadas contra quatro tipos do vírus: dois de alto risco (16 e 18)  e dois causadores das verrugas genitais benignas (6 e 11). O ministério  também conseguiu negociar e comprar a vacina pelo preço mais baixo do mundo: cada dose saiu por R$30. Como são três, cada menina gera um gasto de R$ 90 para o governo, que oferece gratuitamente as três doses. Mesmo não sendo um valor baixo, o preço está muito mais em conta do que o oferecido pela rede privada, que chega a cobrar R$1.500 pelas três doses.
A vacina foi criada em 2006, na Austrália,  “e já faz parte dos programas de imunização de mais de 50 países como estratégia de saúde pública”, afirma o dr. Marco Sáfadi, da Sociedade Brasileira de Pediatria e professor de pediatria da FCM da Santa Casa de São Paulo. Desde o lançamento da vacina, mais de 170 milhões de doses foram aplicadas no mundo, principalmente em seu país de origem, América do Norte e Europa. Os resultados na redução dos casos de infecção por HPV são animadores:  nos Estados Unidos, as infecções pelos tipos de HPV sobre os quais a vacina atua foram reduzidas à metade. “Na Austrália observou-se redução de mais de 90% nos casos de verrugas genitais entre as mulheres da faixa etária incluída no programa de vacinação.”
Na  maioria das vezes, o vírus do HPV é eliminado espontaneamente pelo organismo, mas em alguns casos ele pode provocar a formação de verrugas na pele e nas regiões oral (lábios, boca, cordas vocais, etc.), anal, genital e da uretra, além de lesões de alto risco nos órgãos genitais que podem evoluir lentamente para o câncer de pênis e o de colo de útero. O tumor peniano é raro e representa apenas 0,4% dos carcinomas malignos do sexo masculino; já o câncer de colo de útero é bem mais comum: estima-se a ocorrência de cerca de 15.600 mil novos casos anualmente, o que significa o terceiro câncer mais comum entre as brasileiras, atrás apenas dos tumores de mama e colorretal. O mais preocupante é que, segundo dados da OMS (Organização Mundial da Saúde), 291 milhões de mulheres no mundo são portadoras do HPV, sendo que 32% estão infectadas pelos tipos 16, 18 ou ambos, responsáveis por 70% dos casos de câncer de colo de útero. Portanto, não há dúvida de que as mulheres são as maiores vítimas dessa DST.
Afinal, e os efeitos colaterais?
Quando o Ministério da Saúde anunciou a campanha de vacinação, algumas especulações sobre a segurança da imunização, principalmente a respeito dos efeitos colaterais, começaram a ser levantadas. O pediatra Daniel Becker é um dos especialistas que questiona a exposição dessas meninas a efeitos colaterais que, segundo ele, podem ser gravíssimos. “Antes de mais nada, estou me posicionando de forma bem clara como opinador, não sou infecto nem imunologista, sou um médico com opinião formada embasada em muita leitura”, frisa Becker. “Por mais que falem da proteção contra o câncer, ainda há controvérsias, com histórico perigoso. São efeitos colaterais graves, incluindo eventos neurológicos.”
Segundo a dra. Vivian Iida Avelino-Silva, médica infectologista do Hospital Sírio-Libanês,“ao analisarmos com cuidado os efeitos adversos relatados, constatamos que nenhum pôde ser atribuído à vacina contra o HPV. Ou seja, trata-se de uma associação ao acaso, uma coincidência que sempre acontece quando um grande número de pessoas recebe uma vacina nova em um curto período de tempo.
“Não há até o momento nenhum estudo que tenha associado de maneira inequívoca a vacina de HPV a algum evento adverso grave. Como todo e qualquer produto imunobiológico (vacinas, medicamentos, etc.), é claro que  eventualmente pode-se observar efeitos adversos. Após esses anos todos de uso da vacina, os dados de segurança obtidos pelos sistemas de vigilância dos países que a introduziram nos seus programas mostram que a vacina contra HPV é segura, com a ocorrência de eventos adversos, na sua maioria leves, como dor no local da aplicação, inchaço e eritema. Em raros casos, ela pode ocasionar dor de cabeça, febre de 38ºC ou síncope (desmaios)”, afirma o pediatra dr. Marco Sáfadi.
A ocorrência de desmaios durante a vacinação contra HPV não está relacionada à vacina especificamente, mas sim ao processo de vacinação, podendo acontecer com a aplicação de qualquer outra vacina ou produto biológico injetável. “Portanto, recomenda-se vacinar as adolescentes sentadas e mantê-las em observação por aproximadamente 15 minutos após a administração da vacina”, finaliza Sáfadi. Recentemente foram registrados dois casos de convulsões em Pelotas, no Rio Grande do Sul, associados à vacina, o que resultou na suspensão da campanha. No Espirito Santo, outras nove meninas apresentaram efeitos colaterais relacionados à imunização.
“Vacinamos quase 2 milhões de meninas. Se você pegar esse número, durante duas semanas, alguém vai apresentar problema com a vacina. De toda maneira, os casos do Espírito Santo são tidos como leves. Já a convulsão é grave e, como  fazemos com qualquer  outra vacina, vamos investigar, já que não há nenhum relato de convulsão [relacionado à vacina] na literatura. O que não significa, necessariamente, que esses casos estejam ligados diretamente à vacina, uma vez que essas meninas podiam apresentar problemas de saúde antes de serem vacinadas”, afirma o secretário Barbosa.
“Temos que ter cuidado com o que estamos falando. Uma coisa é associar os efeitos colaterais com a vacina e analisar se isso é fato ou não. Outra coisa é falar que ela não funciona e pode matar. Isso não pode ser dito. Muitas vacinas são associadas a essas mesmas reações e nem por isso  vamos deixar de tomá-las. Eu estive num congresso europeu que relacionou a síndrome de Guillian-Barré (doença do sistema nervoso) com a antitetânica e a vacina da hepatite, assim como estão fazendo com a do HPV. São casos isolados e não um fato”, explica  a dra. Isabella Ballalai, presidente Nacional da Comissão de Revisão de Calendários da SBIm (Sociedade Brasileira de Imunizações).
Para o pediatra Daniel Becker a aprovação foi precipitada, sem tempo suficiente para se analisar as reações causais. “Eu me pergunto se com o passar dos anos não vamos perceber que elas ocorreram  de forma causal mais para frente, com milhares de meninas vacinadas. A imunização é de 2006 e está aprovada há cinco anos. Foi testada em um tempo curtíssimo. Nós não deveríamos ter tido mais cautela? Eu tenho as minhas desconfianças.”
Segundo o dr. Marco Sáfadi, “na verdade, quando a vacina foi aprovada nos EUA, em 2006, as autoridades revisaram estudos que incluíram perto de 20 mil mulheres de várias idades que receberam a vacina de HPV ou outras vacinas em estudos controlados, demonstrando segurança e eficácia de mais de 90%  na prevenção de lesões pré-cancerosas, adenocarcinoma e verrugas genitais causadas pelos tipos contemplados pela vacina. Esses estudos acompanharam as mulheres por 2 a 4 anos após a vacinação e foram julgados suficientes para o licenciamento da vacina para as indicações então vigentes”.
Por que só essa faixa etária?
“Essa faixa etária foi escolhida por dois motivos. Primeiro, a vacina é mais efetiva em meninas que ainda não tiveram contato sexual e não foram expostas ao HPV. Segundo, porque é nessa idade que o sistema imunológico apresenta melhor resposta às vacinas. Com base em pesquisas feitas pelo IBGE, 28% dos jovens  começam a ter contato sexual a partir dos 13 anos, então vacinando essa faixa etária conseguimos um melhor aproveitamento dos efeitos da vacina.  Esse ano vamos vacinar todas as meninas dos 11 aos 13, em 2015, as dos 9 aos 11. Daqui dois anos, todas as meninas até 15 anos estarão protegidas”, explica Jarbas. Isso não quer dizer que a vacina perca efeito depois do inicio da vida sexual.
“A vacina é eficaz para as virgens e para aquelas que já iniciaram a vida sexual. É claro que a efetividade é menor por uma questão: a menina que já iniciou a vida sexual pode ter tido contato com o vírus antes de se vacinar. O vírus pode estar ali no organismo, sem se manifestar. Ela toma a vacina hoje e depois de um tempo o vírus pode ‘acordar’. Não quer dizer que a vacina não fez efeito, mas que a menina já estava infectada quando foi imunizada”, fala Ballalai.
Papanicolaou x Vacina
“Antes de mais nada, é preciso ficar claro para todos: em nenhum momento falamos em substituir uma estratégia pela outra, as duas se complementam. A vacinação é uma ferramenta de prevenção primária antes da entrada do vírus no organismo e não substitui o rastreamento do câncer de colo de útero causado que já esteja em evolução”, explica o pediatra dr. Marco Sáfadi. Portanto, é imprescindível manter a realização do exame preventivo (exame de Papanicolaou), pois as vacinas não protegem contra todos os tipos oncogênicos de HPV.
Dessa forma, o rastreamento das mulheres por meio do exame preventivo deve continuar sendo realizado, independentemente da vacinação. “Nenhum meio de prevenção é  100% seguro. A camisinha é segura, mas nem todo mundo usa. Nem todas as mulheres têm acesso ao papanicolaou, sua cobertura está bem longe da totalidade, fora os inúmeros erros de leitura. Sem abrir mão de nenhuma prevenção, agora nós temos  outra  ferramenta, temos três. As meninas que estão tomando a vacina agora vão receber  a orientação de que a imunização não elimina a necessidade da camisinha e do exame.A incidência de câncer de colo de útero vai ser muito menor do que hoje”, explica o secretário de vigilância Jarbas Barbosa.
“Após vários anos de experiência em programas de imunização no mundo a vacina de HPV mostrou-se segura e não foi associada a eventos adversos graves. A vacinação das meninas no início da puberdade oferece a possibilidade de uma excelente resposta imune, característica desse grupo etário, além de permitir a otimização da proteção da vacina ao administrá-la em uma idade que precede a idade de risco de exposição ao HPV. O benefício da vacinação nos parece, portanto,  inquestionável, merecendo o total apoio da Sociedade Brasileira de Pediatria”, finaliza o dr.Marco Sáfadi.

terça-feira, 1 de abril de 2014

O estupro imaginário / Paulo Ghiraldelli Jr.

Uma pesquisa pergunta para o brasileiro se ele concorda com a frase “mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas”. O resultado é que 65% diz que concorda. A mesma pesquisa conta que 91% das pessoas entrevistadas concordam total ou parcialmente com a prisão do marido que bate em mulher. Os organizadores da pesquisa deveriam ter cuidado com esses dados, que apontam sentidos distintos, mas, não creio que tiveram, saíram por aí com conclusões apressadas. Os meios de comunicação embarcaram nisso afoitamente, desconsiderando essa diferença de julgamentos. Os ativistas de internet, então, se lambuzaram no descuido!
Na novela da Rede Globo, Vida em família, Helena comenta com o marido: “mas como assim, quer dizer que o homem não consegue conter seus impulsos sexuais?” Helena toma gato por lebre: acha que a pesquisa está dizendo que o estupro vem de impulsos sexuais masculinos. Helena erra porque tudo foi montado na imprensa para ela, leitora, errar. 
Se a tal pesquisa que chegou às mãos de Helena diz algo de válido, o faz apenas quanto às confusões próprias do senso comum, e assim mesmo só se tivermos boa vontade para com o que foi divulgado. Levando em conta o grau de dificuldade de nossa população em interpretar textos, já atestada por órgãos internacionais de pesquisa, deveríamos entender que a palavra “merece”, na frase “mulheres que usam roupas mostram o corpo merecem ser atacadas”, pode muito bem ser interpretada não como uma condenação à mulher, mas simplesmente como uma constatação válida. Quem pensa que estupro é algo oriundo única e exclusivamente do que popularmente chamamos de tesão recolhido, pode muito bem dizer que mulher que mostra o corpo demais vai acabar mesmo recebendo algum tipo de ataque. 
No entanto, vamos sair das imagens do senso comum e suas reiterações pela mídia. Vamos às informações de quem pesquisa efetivamente o estupro. No Brasil, só 7% (mais ou menos) dos estupros são de responsabilidade de uma pessoa que a vítima não conhece. E entre estas, nem todas atacam as vítimas por razões de desejo de sexo de uma maneira que não doentia. Em geral são pessoas presas às fixações de fantasias pré-adolescentes, que deveriam ter sido sublimadas. Todo o resto é composto por estupradores que são maridos, ex-maridos, namorados e ex-namorados e, é claro, tios, pais, amigos, amigos da família etc. Essas pessoas, como se vê, não desconhecem o corpo da mulher atacada. Muitos já as tiveram na cama ou já a conhecem em situações variadas com pouca roupa. O ataque surge aí de modo quase que totalmente desligado de desejo, mas vinculado ao fato de quem deveria obedecer pode não estar obedecendo. 
Nisso tudo, há mais mandonismo que “machismo”. Aliás, “machismo” é uma palavra que não tem mais servido para nada. Antes esconde coisas que revela. Esse mandonismo, essa ideia de que há quem deva ser subjugado, também é exercido contra o homem que deve ser servil. Na cadeia, por exemplo, nenhum chefe se impõe sobre seus servos senão com o estupro, e não com um murro na cara. No lar ou nas imediações, primeiro vem o tapa ou murro na cara, depois o estupro, para mostrar para o serviçal que, no limite, seu corpo vai obedecer sem que o cérebro ou o coração sejam consultados. Coincidentemente o serviçal, nesse caso, é a mulher. Mas ela pode ser substituída como objeto de humilhação, sabemos bem disso. 
Há uma distância entre a imagem do estupro e suas causas e o estupro que ocorre. Qualquer pesquisa boa sobre o assunto deveria, antes de tudo, ter ficado atenta a essa distância. Os militantes feministas também deveriam ter notado isso. Não o fizeram. 
Paulo Ghiraldelli, 56, filósofo. Autor do recente A filosofia como crítica da cultura (Cortez, 2014).