sexta-feira, 17 de maio de 2013

UM DIA ENTRE OUTROS... / BYA ALBUQUERQUE

Dia 18 de maio é Dia Nacional de Combate ao Abuso e a Exploração Sexual da Criança e do Adolescente. Conseguimos um dia...mas será que é incomum? O  que muda? O fato do reconhecimento que há abuso...pedofilia...estupro? Será? Também não há Dia Internacional da Mulher...Dia da Criança? E nesses dias há diminuição da violência contra os mesmos? E por que não há um dia para os Abusados Sexualmente?
Sim, minha alma...meus sentimentos estão de luto. Somente quem passou por uma violência tão brutal e tão cruel sabe que a verdadeira violência é a psicológica / emocional. Não estou tirando mérito das pessoas...comunidades...Ong's que lutam contra esse mal. Mas condeno tantos e tantos que tiram vantagem pessoal dessa violência...
Eu faço parte dessa estatística de abusados. A pessoa que deveria me amar e proteger infligiu-me muita dor...tristeza...e, principalmente, muito medo. Vivi o horror do abuso físico e a crueldade / brutalidade do abuso emocional. Durante mais de vinte ( 20 ) anos me submeti ao meu pai biológico, sob forte ameaças e chantagens. Somente por amor a minha mãe e irmã é que fiquei em silêncio. Amor esse que foi e é retribuído com agressividade e rejeição. Ou seja: elas simplesmente fecharam os olhos e não enxergam o homem pedófilo e psicopata que foi o meu pai...Meu pai tão inteligente...intelectual...tão querido pelos amigos...tão convincente...e ao mesmo tempo um verdadeiro monstro...predador.
E isso dói...e muito. Hoje, aos quase 46 anos sofro de males físicos e emocionais e da descrença praticamente de todos. Por que? Porque ele era engenheiro geólogo...homem culto...com posses? Talvez as pessoas que lerem esse texto não imaginem quanto abuso sexual há entre os mais providos, tanto intelectualmente como financeiramente.
Eu também sou mãe. Eu sei o que é amar um filho incondicionalmente. Eu sei o que é continuar sobrevivendo por um filho por amor. Porque nós, os abusados, não vivemos e sim, sobrevivemos. Apesar da dor...do descrédito...da rejeição de tantos. Apesar da grande maioria esquecer que somos as VÍTIMAS e não os ABUSADORES.
Também sou uma cidadã, com consciências política e social. Por isso, nesse dia 18, a minha solidariedade é com todos os FILHOS E FILHAS DO SILÊNCIO, que não tiveram chance de falar...de se manifestar. Mas que atualmente lutam com tudo para evitar que no futuro essa situação nefasta continue. A todos...abusados ou não...que se engajaram nessa luta, todo o meu apoio e respeito.
Hoje, recebi uma mensagem, na qual me chamaram de "doente de carteirinha". Eu não sei o que significa esse termo, talvez por ser russa e não entender todas as gírias. Imagino que significa louca...não sei. Não é a primeira vez e não será a última que serei julgada por pessoas ignorantes...que simplesmente te julgam...sem saber o que você passou...sem saber como é terrível conviver diariamente com medo e dor. Pessoas que têm vergonha em falar sobre o tema, criando elas mesmo um tabu mais forte ainda...ignorando que fechar os olhos não vai acabar com abusos...pedofilia...estupros. Pessoas amigas virtuais...amigas reais...família. Essa mesma pessoa desejou que um dia eu encontrasse felicidade, ignorando que já vivo muitos momentos felizes e não é porque tenho fobia social...depressão...e baixa estima que sou infeliz. Vivo um dia de cada vez...buscando as alegrias...os prazeres e momentos felizes a cada instante. Infeliz é aquele que pensa assim, pois demonstra todo o seu preconceito. E o triste que somos milhões de pessoas a sofrerem com isso...porque sim...isso dói...mesmo após anos e anos.
Todo dia é dia dos pais, das mães, das crianças, dos idosos, dos doentes, dos cancerosos, dos abusados sexualmente. E que nesse dia 18 de maio cada pessoa que souber do significado da data, possa refletir sobre a dor da omissão e da rejeição...a vergonha...a dor física e emocional pela qual um abusado sexualmente passa. E que possa compreender que esse tipo de violência não escolhe a raça...a religião...e as condições sociais.
Meu abraço fraterno a todos que lutam por essa causa. Bya Albuquerque / Máshenka Engrácia Fróes.











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