sexta-feira, 24 de maio de 2013

Mulher alemã escreve livro inédito sobre estupros que sofreu na Segunda Guerra Mundial / Susanne Beyer

Gabriele Köpp foi estuprada repetidamente por soldados russos em 1945, quando tinha apenas 15 anos de idade. Agora, aos 80 anos, ela tornou-se a primeira mulher alemã a lançar um livro escrito sob o seu próprio nome a respeito da violência sexual sofrida durante a Segunda Guerra Mundial.

Köpp levou uma vida plena na qual teve tudo – tudo menos o amor romântico. Ela conta que isto se deveu à falta de sorte. O número de mulheres era maior do que o de homens após a guerra, e nenhum dos poucos homens que restaram era o companheiro certo para ela. “Além disso, eu não teria sido capaz de sentir qualquer coisa”, acrescenta Köpp.
Durante aqueles 14 dias, Köpp foi estuprada seguidamente. Ela tinha 15 anos de idade, e não conhecia nada sobre sexo.


Agora Köpp escreveu um livro sobre aqueles 14 dias e os estupros, intitulado “Warum war ich bloss ein Mädchen?” (“Por Que eu Tinha que Ser uma Garota?”). O livro constitui-se em um documento sem precedentes, porque é o primeiro trabalho do gênero escrito voluntariamente por uma mulher que foi estuprada nos meses finais da Segunda Guerra Mundial, e que, anos depois, descreveu essas experiências e fez delas o tema central de um livro.

“Correndo para a ponta de uma faca”
Na noite de 25 de janeiro de 1945, Köpp estava embalando os seus pertences, preparando-se para fugir. A sua mãe lhe disse para se apressar, porque os russos aproximavam-se da cidade, e afirmou que a encontraria mais tarde. Köpp queria conversar com a mãe naquela noite, mas a mulher estava silenciosa e mal falou com a filha, nem sequer para avisá-la das várias coisas que poderiam acontecer enquanto ela estivesse fugindo. “De certa forma, ela permitiu que eu corresse para a ponta de uma faca”, escreve Köpp.
Em 26 de janeiro de 1945, Köpp e a sua irmã mais velha foram embora de casa. Ela saberia mais tarde que os soviéticos libertaram o campo de concentração de Auschwitz no dia seguinte, 27 de janeiro. A raiz dos sofrimentos que estavam prestes a ter início para Gabriele Köpp encontrava-se nos crimes cometidos pelos seus compatriotas alemães.
Ela mal se lembra de ter se despedido da mãe. Na verdade, ela escreve que só recentemente permitiu-se acreditar que não houve despedida alguma.
Köpp embarcou em um trem de carga dotado de pesadas portas de correr. A cidade já estava sob fogo de artilharia. Ao mesmo tempo, ela jamais imaginou que se passariam décadas até que pudesse retornar para casa. Espiando através das pequenas janelas do vagão de carga, ela percebeu que o trem seguia para o sul, em vez de deixar a cidade no rumo norte, como havia acreditado.
Ela sabia que os russos tinham cercado o sul. Pouco tempo depois, ela ouviu o som do fogo de artilharia, e o trem parou. Aparentemente, a locomotiva havia sido atingida. As portas de correr estavam trancadas, e a única forma de sair do vagão era espremendo-se por uma das janelas altas. Köpp era uma garota atlética e conseguiu passar pela janela, e um soldado a empurrou pela pequena abertura. A irmã dela ficou para trás, dentro do vagão. Ela nunca mais a viu.
“Eu desprezo essas mulheres”
Köpp caiu na neve e, a princípio, ficou deitada no solo para proteger-se dos tiros. Outros refugiados também conseguiram escapar do trem, e todos começaram a correr rumo a uma fazenda e, a seguir, para a aldeia próxima. Köpp os seguiu. Um padeiro deixou que ela entrasse no seu estabelecimento.Na vila, soldados soviéticos portando lanternas grandes procuravam garotas sob a luz fraca. Um deles agarrou Köpp. No dia seguinte, ela foi levada para uma outra casa, onde foi estuprada por um soldado e, logo depois, por um outro. Na manhã seguinte, ela foi empurrada para dentro de um estábulo onde foi estuprada por dois homens. 

À tarde, Köpp escondeu-se debaixo de uma mesa em um aposento repleto de refugiados. Quando os soldados vieram até a casa, procurando garotas, a mulher mais velha gritou: “Onde está a pequena Gabi?”, e a puxou de sob a mesa. “Eu senti o ódio crescer dentro de mim”, escreve ela. Ela foi arrastada até uma casa saqueada. “Eu não tinha lágrimas”, escreve ela. Na manhã seguinte, foram as mulheres, mais uma vez, que a “empurraram” para os braços de um “oficial ávido”. “Eu detesto aquelas mulheres”, escreve ela.
A situação transcorreu dessa forma, “ininterruptamente”, por duas semanas. Depois disso, ela foi levada para uma fazenda, onde conseguiu esconder-se dos soldados...


http://noticias.bol.uol.com.br/internacional/2010/02/27/mulher-alema-escreve-livro-inedito-sobre-estupros-que-sofreu-na-segunda-guerra-mundial.jhtm






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