sábado, 27 de outubro de 2012

Claudia Sobral / A menina do Paquistão


Como explicar que mulheres não têm o direito de frequentar escolas?

Nem segundo turno eleitoral em Cuiabá, nem condenação dos mensaleiros. Nem jogo da seleção brasileira, nem final de novela.

Não houve fato que me comovesse mais nos últimos dias que o brutal atentado contra a menina paquistanesa Malala Yousufzai, de 14 anos, que também deixou feridas outras duas crianças. 

Como explicar para minha filha, um pouco mais nova que Malala, que há no planeta, em pleno século XXI, organizações políticas e religiosas como o Talibã que negam às mulheres o direito de frequentar escolas? E ainda tentam assassinar crianças que, pacificamente, se manifestam pelo direito à educação?

Infelizmente, o que aconteceu com a paquistanesa Malala não é um ato isolado. No mundo todo, dois terços das pessoas sem escolaridade ou que estudaram menos de quatro anos são do sexo feminino.

Em grande parte do mundo, as mulheres ainda sofrem diversas formas de discriminação. Em inúmeras constituições, as mulheres não usufruem os mesmos direitos que os homens. Há países em que elas não têm o direito de voto, ou não podem trabalhar ou viajar ao exterior sem autorização do marido. 

Há países em que a mulher não pode possuir terras ou herdar bens. Há países que admitem a poligamia masculina e são tolerantes com a violência doméstica e sexual contra as mulheres. Há países que praticam a pena de morte por apedrejamento em caso de adultério, mas apenas para as mulheres. 

Há países em que os pais determinam e negociam o casamento das filhas e outros em que há incentivos para o aborto de fetos femininos. Há países que obrigam as mulheres, independentemente de suas crenças, inclusive visitantes estrangeiras, a utilizar determinadas vestimentas, desde o véu até a burca. 

Há países que não somente restringem o acesso das mulheres à educação como também a cuidados básicos de saúde, para evitar que tenham contato com médicos homens, uma vez que são poucas as que conseguem cursar medicina. 

Se somadas as populações desses países, veremos que mais da metade das mulheres do nosso planeta vive debaixo de normas e condições bastante preconceituosas. Em regra, o tratamento jurídico discriminatório é justificado por tradições culturais e religiosas, mas também obedece a razões econômicas que fazem das mulheres uma mão-de-obra barata e submissa.

Além disso, também nos países ocidentais, há importantes religiões que relegam as mulheres a papéis secundários não lhes permitindo ser sacerdotes ou participar mais ativamente dos cultos.

Mesmo no Brasil, apesar de uma mulher ter sido eleita presidente, ainda há um grande caminho a percorrer, tanto no setor público como no privado. 

Nas recentes eleições municipais, 46,8% dos candidatos a vereador em todo o Brasil eram mulheres, mas elas foram apenas 13,3% dos eleitos. Nas estatísticas de desemprego, as mulheres são em maior número e as que estão empregadas recebem em média remuneração menor que a dos homens na mesma ocupação. 

Como feminista convicto, sonho para minha filha um planeta no qual ela possa viver, trabalhar e viajar sem medo e sem risco de sofrer agressões pelo simples fato de ser mulher. Por isso, envio minha solidariedade e desejo de recuperação à Malala Yousufzai. 

Que ela tenha êxito na sua luta pelo direito à educação feminina no vale do rio Swat no Paquistão. E que possamos denunciar sempre toda e qualquer discriminação contra as mulheres.

LUIZ HENRIQUE LIMA é conselheiro substituto do Tribunal de Contas do Estado de Mato Grosso (TCE-MT).

http://www.midianews.com.br/conteudo.php?sid=262&cid=138659


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