domingo, 19 de setembro de 2010

Terror

Após a abertura da página "Filhas do Silêncio" no facebook, tenho recebido muitas mensagens. A maior dúvida exteorizada é por que me submeti tanto tempo ao meu pai. Quando criança, ainda dá para entender...mas e depois? É difícil explicar, pois envolve vários tipos de sentimentos. Envolve terror (um medo profundo), impotência diante da situação (na época, não havia nenhum tipo de ajuda para esses casos), omissão e rejeição (não podia contar com a minha mãe) e uma forte chantagem emocional.
Desde pequena aprendi a sentir medo do meu pai. E ele impunha esse medo de uma maneira brutal...tiranizando...agredindo verbalmente e, principalmente, chantageando.
Devo contar um pouco sobre ele. Homem extremamente culto e articulado. Bem apessoado, elegante. Viajado (conheceu mais de 65 países). Tocava piano, lia muito, conhecia a fundo praticamente todos os assuntos. Tudo girava em torno dele...todos giravam em torno dele. Era um homem para ser adorado ou odiado. Não havia meio termo...E a grande maioria simplesmente o adorava, o idolatrava. Como eu poderia chegar e contar? Quem iria acreditar? Até hoje sou considerada mentirosa e louca. Inclusive pela minha mãe.
Com certeza, psicólogos / psiquiatras explicam isso. Lembro,como se fosse hoje, que desde pequena distinguia os passos dele. Nunca errava. Eu podia estar no apartamento e ele na rua...Os finais de semana eram um tormento para mim. Ele sempre dava um jeito de tirar a minha mãe de casa e aí...Quase sempre eu queria sair junto, mas as ameaças vinham através de gestos. Frequentemente eu chorava de desespero, tentava sinalizar para a minha mãe, mas ela era impiedosa. Talvez, se eu tivesse tido uma MÃE, não teria chegado a tanto.
Quando comecei a me rebelar, com mais ou menos 19 anos, ele passou a me chantagear fortemente em relação a minha irmã. Chegou ao ponto de tentar molestá-la; ela me contou. Tudo o que eu sofri até aquele momento, tinha sido por ela. Seria tão fácil ir embora...mas e ela? Como poderia deixar que ele a molestasse (ela é 11 anos e meio mais nova que eu). O amor que sentia por minha irmã era incondicional. Hoje em dia ela não fala comigo, me despreza, considera que sou louca e mentirosa...que sou  responsável pela morte dele (muitos acham isso).
Tudo o que eu aguentei foi por amor, para poupar a minha mãe e minha irmã e, principalmente, pelo terror que sentia do meu pai. A escolha foi minha e, com certeza, estou pagando muito caro por ela. Até hoje! O que dói mais não é a agressão física sofrida e, sim, a agressão verbal, que sofro desde adolescência e ainda sofro da minha mãe e de várias pessoas.Desprezo também.
Por vários anos rejeitei a idéia de ter filhos (apesar de sempre ter sido o meu maior sonho). Também não queria me casar. Hoje estou no 18° ano do meu casamento e temos dois filhos. E, se no passado fui imperfeita, sei que sou uma boa mãe. Mãe amiga e companheira. Liberal, mas criteriosa. E, o mais importante de tudo, amorosa!
A violência fica impugnada na gente por toda a vida. O tempo se incube do perdão, mas não de aceitação. É duro ouvir a minha mãe gritar que a culpa foi minha, que fui eu que permiti...quando na verdade busquei sua ajuda e tentei poupá-la. É duro, aos 43 anos, ainda sofrer descaso e rejeição da própria mãe...e da sociedade. Mas vou caminhando em frente. Caminhando e lutando. Lutando e tentando perdoar, aos outros e a mim mesma. Simplesmente tentando ficar em paz e ser feliz.

Nenhum comentário:

Postar um comentário