domingo, 6 de maio de 2012

Está na hora de varrer suas fotos



Não é porque aconteceu com uma famosa como Carolina Dieckmann que não pode acontecer com você. Invasão de privacidade, hackeamento de fotos e documentos, vídeos que ridicularizam as pessoas e vão parar no YouTube para deleite dos “amigos” são as novas modalidades de chantagem, extorsão e humilhação. Não há nada que se possa fazer contra isso — além de chamar a polícia, claro — e, mesmo assim, o mal já está feito. Diante dessa evidência, está mais do que na hora de limpar seu telefone, seu computador e suas páginas nas redes sociais; apenas uma questão de proteção.
Tudo pode ser usado contra você, até uma singela foto numa mesa de bar com os amigos, brindando com um copão de chope. Caso de uma conhecida minha que foi demitida, sem mais nem menos, do emprego. Ela mantinha em seu Facebook um álbum de fotos batizado ‘Drinks’, em que aparecia sempre segurando um copo de bebida alcoólica na mão, em situações festivas. Pois, bem depois de sua demissão, ela descobriu que um colega do trabalho mostrou ao chefe aquele álbum, dizendo-se “preocupado” com o apreço dela pelo álcool e que talvez fosse por isso que ela não conseguiu cumprir uma determinada tarefa. Os psicopatas estão à espreita.
Mas você pode argumentar que o que faz na vida privada não tem nada a ver com sua persona pública; que jamais vai deixar de compartilhar seus momentos de alegria e lazer com os amigos; ou que não merece viver com medo dos prejuízos que uma a pessoa mal intencionada possa desejar lhe causar. Pois quem avisa amigo é: com tantos exemplos se espalhando por aí, essa postura deixou de ser ingênua para ser tola. Se qualquer criança de oito anos sabe burlar uma senha de celular, imagine um bandido pronto para tirar vantagem de um momento de fraqueza. Então vamos combinar que não pode:
1. No ápice do sexo, deixar-se fotografar pelo parceiro. Nem todo amor dura para sempre, e a maioria dos romances termina com grandes ressentimentos
2. Postar incessantemente fotos narcisistas de seu corpinho semidesnudo na praia, na piscina, na academia. Está carente, precisando de confete? Procure um analista
3. Deixar que as pessoas cliquem ou filmem você em momentos de total relaxamento, sobretudo aqueles em que você está mais “vulnerável” a julgamentos, como bebendo, de biquíni, gritando, colocando a língua para fora num momento de êxtase
4. Publicar fotos de crianças pequenas — elas ainda não têm idade para frequentar o Facebook nem o livre-arbítrio para desejar estar na rede
5. Postar grandes desabafos de natureza pessoal. Hoje você não é apenas julgado por aquilo que diz, mas também pelo que publica. As pessoas tendem a traçar um perfil seu — triste, alegre, deprimido, narcisistas — a partir desses posts, que não necessariamente refletem sua personalidade, mas apenas um momento de fragilidade
Soube de uma pessoa que detonou uma operadora de cartão de crédito por causa do telemarketing. Meses depois, quando pintou a chance de trabalhar a empresa, seu perfil no Twitter foi rastreado e a reclamação virou um ponto em desfavor na entrevista.
Se lhe cansa o fato de que, nas redes sociais, as pessoas são sempre felizes, bem-sucedidas e realizadas, dê um tempo do mundo virtual e vá arejar a cabeça. Essas pessoas não são bobas; são apenas inteligentes.
Fotos de cachorros, pratos, cartazes, peças de teatro, flores, da lua (como vimos ontem à noite): ninguém aguenta mais, mas elas não oferecem o menor risco. Permitem que você se mantenha ativo na rede sem se queimar e ainda se divirta com a indiscrição — dos outros.
Antes de postar qualquer coisa, pense que seu chefe, sua mãe, sua ex e sua futura namoradas poderão vê-la um dia. Cole esses nomes num post-it amarelo na tela do computador, e seus dedos congelarão, como num passe de mágica.
E uma última observação: li comentários muito infelizes sobre o episódio de Carolina Dieckmann. Uma famosa, que recentemente teve a foto do filho recém-nascido publicada sem autorização (o que a deixou furiosa), debochou da atriz; um twitteiro disse que ela “mereceu” o que teve porque não deveria ter tirado as fotos. Pois Carolina, casada e mãe de dois filhos, foi vítima de um crime medonho, cujo autor espero que seja encontrado e exemplarmente condenado. O que lhe aconteceu pode ocorrer com qual-quer um de nós, e é muito triste se dar conta de que não restou mais qualquer privacidade neste mundo insano.
É triste, mas é fato; intimidade é coisa do século passado.

De Bruno Astuto na revista Época  

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