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quarta-feira, 1 de outubro de 2014

DEPENDÊNCIA PODE LEVAR MULHER A FICAR COM AGRESSOR

Geralmente temos cinco a sete encontros com a pessoa até ela deixar o parceiro que a agride, de uma vez por todas

Até pouco tempo Janay Palmer Rice, 26, era pouco conhecida. Era a parceira de Ray Rice, jogador do time de futebol americano Baltimore Ravens. 

Mas, depois de o contrato de Rice ter sido encerrado pelo time, Janay tornou-se a esposa agredida mais famosa dos Estados Unidos, defensora ferrenha de seu marido e, para sobreviventes e especialistas em violência doméstica, um exemplo público extraordinário da complexa psicologia das mulheres maltratadas por homens. 

"Saibam que vamos continuar a crescer e mostrar ao mundo o que é o amor verdadeiro", disse Janay no Instagram. "Tirar do homem que eu amo alguma coisa pela qual ele trabalhou a vida inteira seria horrendo. Nação Raven, amamos você!" 


O post deixou implícito que a agressão que ela sofreu foi tirada de contexto, e não está claro se ela se vê como vítima.

Mas milhares de outras pessoas, incluindo sobreviventes de violência doméstica e terapeutas que as atendem, procuraram insights em sua própria experiência para tentar responder a uma pergunta: 

- um homem bate em uma mulher com tanta força que ela cai ao chão, desmaiada, ele parece cuspir sobre o corpo dela, por que ainda ela se casaria com ele e ficaria ao seu lado após essa cena ter sido mostrada em todo o mundo? 

A gerente de recursos humanos Beverly Gooden foi ao Twitter para explicar. "Tentei sair de casa uma vez, depois de uma agressão, e ele me impediu", ela escreveu a respeito de seu ex-parceiro, acrescentando o hashtag #whyistayed (#porquefiquei). "Achei que o amor superaria tudo", ela acrescentou em mensagem subsequente. 

Outras sobreviventes de violência doméstica levaram o hashtag adiante e contaram as razões que as levaram a ficar com homens que as faziam sofrer. "Eu achava que era a única capaz de amar e curar esse homem", diz um post de Chicago. 

Depois de divulgar seu post, Janay Rice afastou-se das redes sociais, fugindo do que descreveu como "negatividade". Mas sua história de vida pode ajudar a explicar suas ações: em aparições públicas e entrevistas, Janay pareceu ser apegadíssima a seu marido, que tem 27 anos, financeiramente dependente dele e totalmente investida nele. 

Os dois se conheceram na adolescência, em Westchester, em Nova York. Começaram a namorar na primeira temporada de Rice com o Ravens, em 2008, e ela se mudou com ele para Baltimore, matriculando-se na Universidade Towsown, da região. 

Antes de completar a faculdade ela engravidou. Os dois batizaram sua filha de Rayven, nome que sugere até que ponto ambos estavam totalmente envolvidos com a carreira de Rice. 

Janay voltou às aulas e formou-se em comunicações, mas não se sabe se ela teve uma vida profissional independente. Em 2012, Rice assinou um contrato de US$ 35 milhões (R$ 84 milhões) com Ravens até 2017. 

Vários especialistas em violência doméstica fizeram a ressalva de que há muito que não é sabido no caso dos Rice; para começar, não se sabe se o jogador de futebol bateu em sua mulher em mais de uma ocasião. 

Mas disseram que a dependência econômica é um dos principais elementos que permitem prever se uma mulher vai deixar um parceiro que a agride. 

"É incrivelmente difícil sair de uma relação quando você depende financeiramente do parceiro", disse Jacquelyn Campbell, professora da Universidade Johns Hopkins. 

Em fevereiro, um ano após Ravens conquistar o Super Bowl, Ray Rice deixou Janay inconsciente num elevador em Atlantic City, em Nova Jersey (o vídeo parece mostrar Janay batendo nele ou o empurrando também, algo que, segundo especialistas, não é incomum em casos de violência doméstica). 

Em março o jogador foi indiciado por agressão física, acusação passível de ser punida com três a cinco anos de prisão. 

Testemunhar contra o jogador teria significado o fim de sua carreira no futebol americano, causando constrangimento ao time e possivelmente levando o pai de sua filha a parar na cadeia. Em vez disso, Janay Palmer casou-se com ele no dia seguinte ao indiciamento. 

"Muitas vezes uma vítima fica tão dependente do parceiro para tudo que não consegue se imaginar sem ele", disse Ramani Durvasula, professora de psicologia na Universidade California State, em Los Angeles. "Não sei se alguma de nós teria força e coragem para resistir a uma organização de bilhões de dólares e ao homem que a gente ama." 

Mas, agora que o vídeo da agressão circulou, Ray Rice foi afastado, sua carreira está em risco e o salário acabou. 

Karma Cottman, diretora-executiva da Coalizão Contra a Violência Doméstica em Washington, teme que o questionamento público sobre o relacionamento possa prejudicar Janay. 

Quando uma nova vítima chega procurando ajuda, contou Cottman, "a primeira coisa que queremos dizer é 'por que você não o larga, por que não cai fora?'". Mas é a abordagem errada, "porque o isolamento faz parte do ciclo da violência. 

Geralmente temos cinco a sete encontros com a pessoa até ela deixar o parceiro que a agride, de uma vez por todas." 

Texto de Jodi Kantor do "New York Times"
http://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2014/09/1524248-dependencia-pode-levar-mulher-a-ficar-com-agressor.shtml

Meu comentário:
O texto acima fala da dependência de uma esposa em relação ao marido, uma pessoa adulta, o que me fez pensar em como deve ser muito mais difícil para uma criança, ou um/uma adolescente se livrar do agressor, quando ele é o pai, ou alguém muito próximo.
Não deve ser fácil, por isso deixo meu pedido: DENUNCIE!

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Sexo com criança é estupro, decide o Supremo


STF veta brecha na interpretação de estupro 


Por unanimidade, a 1ª Turma acompanha o voto da ministra Rosa Weber; decisão contrasta com a absolvição, pelo STJ, de acusado de estuprar meninas de doze anos


O Supremo Tribunal Federal decidiu que a manutenção de relação sexual com criança de dez anos de idade é estupro, e não pode ser qualificado como algo diferente.

Esse entendimento foi reafirmado por unanimidade pela 1ª Turma do STF, em maio último, ao acompanhar o voto da relatora, ministra Rosa Weber.

Estava em julgamento um habeas corpus impetrado pela Defensoria Pública da União em favor de um paranaense condenado a 8 anos e 9 meses de prisão, sob acusação de estupro e atentado violento ao pudor contra uma enteada, então com dez anos de idade. Segundo a denúncia, o abuso sexual ocorreu diariamente ao longo de quase dois anos, em 2003 e 2004.

Segundo o voto da relatora, é pacífico o entendimento no Supremo quanto a ser absoluta a presunção de violência nos casos de estupro contra menor de catorze anos nos crimes cometidos antes da vigência da Lei 12.015/09, o que impede a pretensa relativização da violência presumida.

“Não é possível qualificar a manutenção de relação sexual com criança de dez anos de idade como algo diferente de estupro ou entender que não seria inerente a ato da espécie a violência ou a ameaça por parte do algoz”, afirma o acórdão do STF, publicado no último dia 12 (*).

Essa decisão contrasta com a absolvição pelo Superior Tribunal de Justiça, em março último, de um homem acusado de cometer estupro de adolescentes de doze anos. A Terceira Seção do STJ entendeu, na ocasião, que a presunção de violência não seria absoluta, pois as meninas eram prostitutas. O caso ainda está em julgamento pelo STJ, com o oferecimento de recurso [embargos de declaração].

O entendimento do STJ foi de que a violência no crime de estupro era relativa –dependia de cada caso– e não absoluta. Ou seja, poderia ser questionada mesmo em se tratando de menores.

A decisão do STJ foi criticada, entre outros, pela ministra Maria do Rosário, da Secretaria de Direitos Humanos, pelo ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, e pela Associação Nacional dos Procuradores da República (ANPR), que viu “tolerância com essa prática nefasta” e uma afronta ao princípio da proteção absoluta garantido a crianças e adolescentes.

Em nota, o STJ afirmou na ocasião que a Corte “apenas permitiu que o acusado possa produzir prova de que a conjunção ocorreu com consentimento da suposta vítima”.

Segundo a relatora do caso no STJ, ministra Maria Thereza de Assis Moura, não se pode considerar crime o ato que não viola o bem jurídico tutelado –no caso, a liberdade sexual.

Na época das relações sexuais, o Código Penal considerava que o crime deveria ser cometido mediante violência, e que ela era presumida quando se tratava de vítimas menores de 14 anos. O artigo foi revogado em 2009 com a mudança da lei –o texto atual não cita a violência.

“A prova trazida aos autos demonstra, fartamente, que as vítimas, à época dos fatos, lamentavelmente, já estavam longe de serem inocentes, ingênuas, inconscientes e desinformadas a respeito do sexo. Embora imoral e reprovável a conduta praticada pelo réu, não restaram configurados os tipos penais pelos quais foi denunciado”, afirmou o acórdão do STJ.

A decisão do Supremo reitera sua jurisprudência quanto a ser absoluta a presunção de violência nesses casos.

Texto de Frederico Vasconcelos
http://blogdofred.blogfolha.uol.com.br/2012/06/25/sexo-com-crianca-e-estupro-decide-o-supremo/





(*) HC N. 105.558-PR

RELATORA: MIN. ROSA WEBER

HABEAS CORPUS. ESTUPRO. ATENTADO VIOLENTO AO PUDOR. PRETENSÃO À ABSOLVIÇÃO. IMPOSSIBILIDADE. REEXAME DO CONJUNTO FÁTICO PROBATÓRIO. VÍTIMA MENOR DE CATORZE ANOS. PRESUNÇÃO ABSOLUTA DE VIOLÊNCIA. CRIME COMETIDO ANTES DA VIGÊNCIA DA LEI 12.015/09.  CONTINUIDADE DELITIVA. MAJORAÇÃO MÁXIMA DA PENA. COMPATIBILIDADE COM O NÚMERO DE CRIMES COMETIDOS. PRECEDENTES.

1. O habeas corpus não se presta ao exame e à valoração aprofundada das provas, não sendo viável reavaliar o conjunto probatório que levou à condenação criminal do paciente por crimes de estupro e atentado violento ao pudor.

2. O entendimento desta Corte pacificou-se quanto a ser absoluta a presunção de violência nos casos de estupro contra menor de catorze anos nos crimes cometidos antes da vigência da Lei 12.015/09, a obstar a pretensa relativização da violência presumida.

3. Não é possível qualificar a manutenção de relação sexual com criança de dez anos de idade como algo diferente de estupro ou entender que não seria inerente a ato da espécie a violência ou a ameaça por parte do algoz.

4. O aumento da pena devido à continuidade delitiva varia conforme o número de delitos. Na espécie, consignado nas instâncias ordinárias terem os crimes sido cometidos diariamente ao longo de quase dois anos, autorizada a majoração máxima.



domingo, 3 de junho de 2012

Sobre o abuso sexual


Danuza Leão escreve: Sobre o abuso sexual

Coisas ruins acontecem, mas devem e podem ser também superadas, e o estupro é uma delas

Ninguém sabe o que se passa na cabeça das pessoas, mas existem -homens, principalmente- as que têm fantasias sexuais com meninas (ou meninos) muito jovens, sobretudo quando são meninas (ou meninos) bonitas; isso desde que o mundo é mundo, e acontece até no seio da Santa Madre Igreja. Esses, ou procuram pensar em outra coisa, ou cometem abusos, o que é crime hediondo.

Mas qual a diferença entre uma menina e uma moça? Já era assim quando as adolescentes usavam saia pregueada e meia curta. Hoje elas imitam, desde bem novinhas, o que veem na televisão: usam sapatos de saltinho, minissaia, batom e pintam as unhas.
Pedófilos sempre existiram, existem e existirão, mais do que se imagina, mais do que se sabe. São pessoas com desordem mental, e quem não ouviu falar que em regiões mais atrasadas pais tiveram relações com uma ou mais filhas, tendo até engravidado algumas, que se tornaram mães de suas próprias irmãs. Isso acontece no Brasil profundo e também em países altamente civilizados; na Espanha, houve um bando de pedófilos que abusava sexualmente de crianças, até mesmo de bebês. A miséria humana não tem limites.
A sexualidade das pessoas é um mistério; existem muitos homens, mais do que se imagina, que se alteram quando veem uma criança bonita. Acariciam uma perna, dizem que ela é linda, mas não vão adiante por saberem que esse desejo é pecado, é crime, é contra as leis da natureza, como preferirem chamar; alguns não passam disso, pois não chegam nem mesmo a terem consciência desse desejo.
Mas as crianças percebem; não sabem o que está acontecendo, mas quando fogem do abraço de algum amigo do pai ou de um tio, é porque perceberam. Até pelo olhar elas sentem, criança não é boba. Intuem que alguma coisa está errada, mas como não compreendem o que está acontecendo, não falam. Só se fala do que se entende, e acusar uma pessoa próxima da família de algo que elas mesmas não sabem o que é está fora de questão. Têm pudor e sabem que podem ser castigadas, por terem a cabeça "suja".
Cabe às mães e aos pais ficarem atentos, não deixarem suas filhas/filhos em situações de risco, olhar atentamente o que se passa, e desconfiar sempre, sem medo de estar pensando em "maldades", sabendo que essas coisas acontecem nas melhores famílias. Não vivemos em um mundo ideal.
O abuso sexual causa efeito devastador nos que o sofrem, e precisam de apoio profissional, apoio esse que deve ser forte e positivo; só o amor de mãe e pai não é suficiente.
Elas devem aprender a levantar a cabeça e olhar a vida de frente, deixando esse triste momento para trás, no lugar de sofrer por toda a existência; passaram por um péssimo momento, como poderiam ter sido atropeladas ou levado uma facada de um assaltante.
Houve gente que perdeu a família inteira na guerra, ou durante o tsunami, ou nas torres gêmeas de Nova York, ou no terremoto de Tóquio, mas conseguiu superar. Coisas ruins acontecem, mas devem e podem ser também superadas, e o estupro é uma delas.
A condição humana é uma miséria.danuza.leao@uol.com.br

De Danuza Leão na Folha de São Paulo de 03/06/2012

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Denúncias de abuso e exploração de menores quase triplicam em 2011

Disque Direitos Humanos recebeu 82.281 denúncias; São Paulo lidera.
Nos primeiros meses de 2012, já houve aumento de 71%, diz secretaria.

O Disque Direitos Humanos recebeu 82.281 denúncias de violações de direitos humanos de crianças e adolescentes em 2011, uma média de 225 por dia, segundo dados do serviço da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República obtidos pelo G1. 

Total de denúncias recebidas pelo Disque Direitos Humanos por ano*
2011 82.281
2010 30.544
2009 29.756
2008 32.589
2007 24.942
2006 13.830
2005 5.138
2004 3.774
2003 4.494
*Fonte: Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República 

O número é quase o triplo das denúncias recebidas no ano anterior, quando houve um total de 30.544 – um aumento de 169,4%.
E neste ano, o total dos relatos sobre abusos contra crianças e adolescentes em apenas 4 meses já representa quase a metade do recebido em todo o ano passado. Foram 34.142 atendimentos de janeiro a abril, aumento de 71% em relação ao mesmo período de 2011.
"O aumento na capacidade de atendimento e a ampla divulgação do canal de denúncias trouxeram um salto no número de denúncias registradas", diz a secretaria.
A partir de março de 2011, o atendimento do Disque 100 foi ampliado, passando a funcionar todos os dias, 24 horas. Até então, funcionava das 7h às 22h.
Os dados do Disque 100 devem ser divulgados oficialmente nesta sexta-feira (18), Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes.

Tipos de violência

No ano passado, as denúncias de abuso contra menores representaram 84,7% do total recebido pelo serviço. Também foram registrados relatos sobre violações contra idosos (8,7%), pessoas com deficiência (3,2%), população LGBT (1,3%), população de rua (0,5%) e outros grupos, como quilombolas e indígenas (1,7%).
As denúncias de violência contra crianças e adolescentes dividiram-se em: negligência (40,88%), seguida da violência psicológica (24,34%), violência física (21,67%) e sexual (11,53%). Esta última divide-se em: abusos (70%) e exploração sexual (30%).
Denúncias em 2011 por estado
SP 10.496
BA 9.395
RJ 9.120
MG 5.703
MA 4.686
PE 4.152
CE 3.994
RS 3.377
AM 3.375
PA 3.221
PR 3.188
RN 2.750
GO 2.135
SC 2.106
PB 2.095
AL 1.969
DF 1.852
PI 1.771
ES 1.376
MS 1.345
RO 1.104
MT 1.073
SE 829
TO 435
AC 352
AP 178
RR 95
Nos dados divulgados de 2012, o percentual de denúncias apenas sobre abuso sexual, aqueles ocorridos em sua maioria dentro de caso, aumentou de 11,53% para 20% do total.

Por estado e região
São Paulo lidera o número de denúncias recebidas pelo Disque 100 sobre violência contra crianças e adolescentes em 2011, com um total de 10.496 ligações (12,8% do total). Em seguida, aparecem Bahia, com 9.395 denúncias (11,4%), Rio de Janeiro, com 9.120 (11,1%), Minas Gerais, com 5.703 denúncias (6,9%), e Maranhão, com 4.686 ligações (5,7%).
Os estados que menos registraram ligações em 2011 foram Roraima, com 95 relatos (0,1%), Amapá, com 178 denúncias (0,2%), Acre, com 352 denúncias (0,4%), Tocantins, que registrou 435 relatos (0,5%) e Sergipe, com 829 denúncias (1%).
Nos primeiros meses deste ano, São Paulo continua a liderar o total de ligações, com 4.644 relatos, seguido pelo Rio de Janeiro com 4.521 e Bahia com 3.634.

'Pacto do silêncio'
“Quanto mais se promovem ações de prevenção, maior número de casos vão aparecer. As pessoas tomam consciência, criam coragem de denunciar”, afirma Eduardo Pan, gestor do Polo de Prevenção à Violência da ONG Liga Solidária, que faz atendimentos de famílias na Zona Oeste da capital paulista.
Segundo Pan, os dados do Disque 100 demonstram o que a ONG vem observando na região. “A maior parte dos casos é de negligência. Os adolescentes acabam indo para os abrigos porque vivem em condição subumana”, explica.
“E é onde começa a acontecer o abuso. A maioria é o pai, padrasto, tio. As mães até percebem o que está acontecendo, mas não têm força para falar do próprio companheiro. E o adulto ele ameaça a criança, que fica completamente à mercê”, completa.
Em 2010, o total de atendimentos da ONG por violência sexual representava 7% dos casos atendidos. Em 2011, aumentou para 11%. "Isso mostra que estamos quebrando esse pacto do silêncio. O que a gente espera é que a criança e o adolescente consiga sair dessa situação, devolver a dignidade.”
A região Sudeste foi responsável por 36,2% do total de registros nos primeiros 4 meses deste ano, seguida do Nordeste com 34,7%, do Sul com 11,3%, do Centro-Oeste com 9% e do Norte, com 8,8% do total de denúncias registradas no período.
Contando apenas o abuso e a exploração sexual, a Bahia foi o estado que mais registrou denúncias nos dois casos: 962 contra abusos (12,54% do total dos estados) e 250 sobre exploração sexual.
Ao todo, 1.585 municípios (há 5.561 no Brasil, segundo o IBGE) entraram em contato com o Disque Direitos Humanos relatando violações de abuso sexual. Os municípios com maior incidência foram: Salvador com 346 relatos, Brasília com 269, São Paulo com 250 e o Rio de Janeiro com 236.
Incluindo apenas as denúncias de exploração sexual, 809 municípios acionaram Disque 100. Salvador lidera com 81 denúncias, Manaus com 67, Rio de Janeiro com 66 e São Paulo com 61.

24 horas

O Disque 100 é um serviço destinado a receber demandas relativas a violações de Direitos Humanos, especialmente as que atingem grupos sociais vulneráveis. O número funciona 24 horas, todos os dias da semana, inclusive domingos e feriados. A ligação é gratuita e atende ligações de todo o território nacional.
As manifestações de violações de Direitos Humanos acolhidas pelo Disque Direitos Humanos são examinadas e encaminhadas para os órgãos responsáveis.

De 
Rosanne D'Agostino no G1, em São Paulo

sábado, 24 de setembro de 2011

Psicanálise é usada contra violência doméstica no Rio

"É difícil não sentir raiva do agressor, mas é importante pensar que ele não se reduz a seu ato de violência. A gente não sabe o que se passa com ele até ouvi-lo. Nosso ponto de partida é oferecer um lugar de escuta"


Núcleo de Atenção à Violência de Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, atende principalmente a crianças

Vítimas e autores de agressão procuram ajuda para falar sobre assuntos delicados, como abuso sexual

Desde que iniciou sua atuação em Nova Iguaçu (Baixada Fluminense), há três anos, o NAV (Núcleo de Atenção à Violência) já prestou atendimento psicanalítico gratuito a mais de 1.400 vítimas e autores de violência doméstica. Crianças representam a maior parte dos atendidos.
Apesar do expressivo número, a psicóloga Paula Ribeiro, coordenadora do projeto em Nova Iguaçu, evita generalizações sobre o perfil de vítimas ou agressores.
Cada caso tem sua singularidade, afirma ela, que lançou anteontem, no Rio, um livro em parceria com Simone Gryner, presidente do núcleo, sobre o projeto.
Uma das poucas características em comum a quase todos os atendidos pelo NAV é o fato de terem encontrado ali, pela primeira vez, um espaço para falarem e serem ouvidos sobre temas delicados, como o abuso sexual.
É justamente a partir do momento em que conseguem expressar o que sentem que muitos encontram meios para interromper esses atos.
No caso dos autores de agressão, Paula reconhece que aqueles que procuram ou aceitam o apoio do NAV são os que, de alguma forma, se incomodam com o ato cometido e demonstram alguma preocupação com a criança.
"O que encontramos aqui são muitas situações que acontecem meio que no piloto automático e que ganham vida, tomam corpo e têm consequências quando essas pessoas podem se escutar falando do que estão fazendo."
Já houve casos como o de uma menina que decidiu, por iniciativa própria, relatar uma tentativa de abuso por parte do pai ao Conselho Tutelar. Ela fugiu de casa, brigou com a mãe e o pai e se refugiou na avó.
Todos foram encaminhados ao NAV, onde puderam falar sobre o caso.
O pai contou que estava passando por muitos problemas, tinha bebido e não se lembrava do episódio. Mas disse que acreditava na versão da filha e que estava disposto a arcar com as consequências de seu ato.
A filha disse que se sentia mais segura depois de tudo e preparada para se proteger.
Foi graças a esse trabalho que a Justiça concluiu que todos poderiam voltar a morar juntos. Neste caso, como nos outros atendidos pelo NAV, foi fundamental não ter reduzido o agressor ao papel de um monstro a ser punido.
"É difícil não sentir raiva do agressor, mas é importante pensar que ele não se reduz a seu ato de violência. A gente não sabe o que se passa com ele até ouvi-lo. Nosso ponto de partida é oferecer um lugar de escuta", diz.

Da Folha de São Paulo de 24/09/2011


Esta postagem é uma contribuição à postagem anterior:
É preciso reconhecer a face humana daquele que nos horroriza

sábado, 12 de junho de 2010

Incesto é 'comum' e não é denunciado

Incesto é 'comum' e não é denunciado, dizem especialistas

G1 ouviu estudiosos sobre caso de jovem que teve 7 filhos do pai no MA.
Somente isolamento e falta de condições sociais não levam ao incesto.

Luciana Rossetto Do G1, em São Paulo
Pescador é chamado de avó pelos 'filhos-netos' em PiedadePescador teve sete filhos com a própria filha
(Foto: Divulgação/Polícia Civil do Maranhão)

Isolamento, falta de acesso à educação e condições sociais precárias. A soma de todos esses fatores poderia explicar o caso do pescador que teve sete filhos com a própria filha no povoado de Extremo, em Pinheiro (MA). No entanto, especialistas ouvidos pelo G1 afirmam que tudo isso não justifica o abuso, mas colabora para que ele ocorra. Eles chegam a afirmar que em algumas regiões do interior do Brasil é um costume os homens iniciarem sexualmente as filhas.
O psiquiatra José Raimundo da Silva Lippi, professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e da Universidade de São Paulo (USP), explica que somente o isolamento não leva a uma conduta incestuosa, mas a falta de contato com a sociedade colaborou para o incesto.
“Dentro de cada pai incestuoso, existe algo não resolvido, que o faz buscar a solução para seu desejo sexual com uma criança ou o próprio filho. Ele age ainda como uma pessoa primitiva em termos de desenvolvimento afetivo”, afirmou.
Dentro de cada pai incestuoso existe algo não resolvido, que o faz buscar a solução para seu desejo sexual com uma criança ou o próprio filho"
José Raimundo da Silva Lippi, psiquiatra
De acordo com o médico, o incesto não é uma questão biológica, mas psicológica e predominantemente cultural. Ele ressalta que há semelhanças entre o pescador brasileiro e o engenheiro austríaco, que também abusou e teve filhos com a filha, que era mantida em cárcere privado, apesar do nível socioeconômico dos dois ser bem diferente. O caso do austríaco veio à tona em abril de 2008.
“Todos nascemos instintivos, mas conforme vamos nos desenvolvendo, criamos estruturas que nos permitem interromper pensamentos que ocorrem. Não é proibido um pai ter desejo ao ver uma filha, mas o pai com desenvolvimento afetivo adequado tira o pensamento da cabeça e não concretiza o ato. Já o pai instintivo vê a filha como objeto sexual e não tem essa lei interior que o ajuda a conter esses impulsos. O lugar ermo pode ter dificultado o mecanismo de contenção interior, então ele se sentiu mais livre para isso, sem regras sociais que o impedissem”, disse.

Pescador teve sete filhos com filha de 28 anos mantida em cárcere privado
Casa onde pescador vivia tem dois cômodos e fica afastada do Centro de Pinheiro (Foto:
Divulgação/Polícia Civil do Maranhão)

A cientista social Sandra Nascimento, pesquisadora do programa de Cultura e Sociedade da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), destaca que o pescador falou com naturalidade sobre o incesto após a prisão. “O fato de ele viver isolado, sem controle, contribuiu para o que aconteceu. Até pelas condições de miséria em que vivia, ele não tem dimensão social do horror que causou com o incesto. Talvez, ele tenha considerado que é algo natural para todos os homens, que desejam e têm as mulheres”, explicou.
Sandra também vê aspectos semelhantes entre os casos do Brasil e da Áustria. “Tanto no caso da Áustria quanto no brasileiro, há uma relação de poder muito forte. Existe a questão de querer dominar a filha, que é vista como propriedade. Eles quiseram possuir as meninas e subjugá-las aos seus domínios. Nós nos horrorizamos, porque, pelas normas, pai é proteção”, disse.
Existe a questão de querer dominar a filha, que é vista como propriedade"
Sandra Nascimento, cientista social
O antropólogo José Rogério Lopes, professor do programa de pós-graduação em Ciências Sociais da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), concorda que o isolamento não é uma explicação. “Em quase todas as culturas é proibido ter relação dentro de um grupo íntimo de parentesco. Isso é importante, inclusive, para forçar as pessoas a buscar alternativas e constituir outras relações que ampliam o núcleo de convivência. O indivíduo não nasceu no isolamento, portanto, ele já tinha conhecimento dessa proibição, que foi estabelecida antes.”
De acordo com o antropólogo, o incesto não é aceito na maioria das culturas. “Os casos não são legitimados e, quando ocorrem, os indivíduos são penalizados. Agora, existem relatos de homens que não têm possibilidade de buscar uma companheira para estabelecer uma relação conjugal que seja fora da própria família. Isso faz com que, muitas vezes, sujeitos pratiquem atos incestuosos”, disse.
Em quase todas as culturas é proibido ter relação dentro de um grupo íntimo de parentesco"
José Rogério Lopes, antropólogo
Casos ocorrem com frequência
De acordo com Lippi, em algumas regiões do interior do Brasil, é um costume os homens iniciarem sexualmente as filhas. “Existe a idéia de que o pai sabe mais sobre as coisas do mundo. Em determinada região do Tocantins, por exemplo, há relatos de meninas que passam por isso, porque é algo visto como ‘obrigação de pai’.”

O médico conta que assim surgiram os filhos dos botos, que seriam, na verdade, fruto do relacionamento incestuoso entre pais e filhas. “Criou-se uma lenda para tirar a culpa dos pais e justificar a gravidez das jovens. Então, surgiu a história de que as crianças são filhas de um boto”, diz.
Sandra também relata que esse tipo de caso é comum no interior do Maranhão. “Pais dizem que eles vão ter as filhas primeiro, porque elas não serão de outro homem sem ser primeiro deles. É uma dominação de gênero. O homem quer ter a posse da mulher. A vítima se sente ameaçada e, ao mesmo tempo, não consegue reagir contra o próprio pai. Acontece muito, mas é algo que tem pouca visibilidade.”
Criou-se uma lenda para tirar a culpa dos pais e justificar a gravidez das jovens. Então, surgiu a história de que as crianças são filhas de um boto"
José Raimundo da Silva Lippi, psiquiatra
Lopes lembra que essas atitudes também são comuns na Região Amazônica. “É possível encontrar, entre a população ribeirinha, famílias em que os pais iniciam sexualmente as filhas. Não constituem família ou chegam a ter filhos com elas, mas ocorre a relação sexual”, diz.
Denúncias
O psiquiatra acredita que, quando situações como essa são descobertas, a população tem um incentivo maior para denunciar casos de abuso. “A tendência é que a comunidade não permita mais. Se isso chega à comunidade como algo proibido, então a cultura do local pode mudar”, diz.