Esse blog não trata só de abusos, principalmente sexual. Há um segundo blog com os depoimentos. É claro que o tema é relevante, mas o blog trata de outros temas diversos, principalmente culturais.
terça-feira, 26 de agosto de 2014
quarta-feira, 6 de agosto de 2014
SINTOMAS DO INFARTO SÃO DIFERENTES NAS MULHERES / DR. DRÁUZIO VARELLA
A cada ano, mais mulheres são vítimas de doenças cardiovasculares no Brasil. Atualmente, cerca de 30% dos casos de infarto têm mulheres como vítimas. Por conta disso, é necessário alguns cuidados especiais, já que o músculo cardíaco delas possuem algumas particularidades em relação ao dos homens.
O coração delas é menor, as artérias coronárias são mais estreitas e a frequência cardíaca de repouso maior, ou seja, o coração é mais acelerado. Essas mudanças, em si, não são grandes causadoras de problemas, segundo a médica cardiologista Elizabeth Giunco Alexandre, do Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia, mas é importante ficar atenta, porque o diâmetro dos vasos pode favorecer o acúmulo de gorduras no futuro. “Tal particularidade vai interferir mais em uma cirurgia de revascularização dos vasos ou no caso de uma implantação de stents, caso seja necessário”.
O que requer mais atenção são as diferenças em relação aos sintomas de infarto. No quadro clínico do ataque cardíaco feminino, geralmente não há a presença de dois sinais bastante reconhecidos: aquela forte dor no peito do lado esquerdo e o formigamento no braço.
“O infarto na mulher tende a se manifestar de outra maneira, com fadiga intensa, náuseas e dor na boca do estômago. Muitas vezes ela não se dá conta de que pode estar infartando, pois consegue suportar a dor por mais tempo e acaba demorando muito para procurar ajuda. Os próprios médicos quando atendem às vezes também não associam a um quadro de infarto”, afirma Giunco.
O tempo entre o início do infarto e o recebimento do pronto socorro é determinante, pois tem reflexo direto nas possíveis sequelas e no sucesso do tratamento. O retardo no atendimento compromete o músculo cardíaco, pois é fundamental fazer o quanto antes a desobstrução e liberar a passagem de sangue para o coração.
É importante lembrar que há diferenças também em relação aos fatores de risco. Em geral, a doença coronariana aparece na mulher 10 anos mais tarde que nos homens, ou seja, elas costumam infartar por volta dos 50 anos, após a menopausa. O atraso tem relação direta com os hormônios femininos, pois coincide com o momento em que elas perdem estrogênio, um protetor natural do coração. “Outro fator a ser lembrado é que após esse período há modificações nas quantidades de colesterol no organismo. Há tendência de o bom cair e o ruim subir, o que acaba favorecendo o risco de infarto”, explica a cardiologista.
A médica alerta ainda que há mudança na distribuição de gordura corpórea. Começa a existir acúmulo de gordura na região do abdômen, o que contribui para o aparecimento e desenvolvimento de placas de gordura que obstruem a passagem do sangue.
Apesar das diferenças quanto aos sintomas e aos fatores de risco, a forma de prevenção é a mesma para os homens e mulheres. Praticar atividades físicas diárias por 30 minutos, consultar um médico regularmente, não fumar e ter uma alimentação rica em frutas e verduras podem fazer a diferença no futuro.
segunda-feira, 21 de julho de 2014
Publicado pela Comunidade NADA ACONTECE POR ACASO
"Nós nos consumimos, nós nos destruímos.
Revivemos todas as manhãs, reinventando-nos.
Tentando a todo custo não olhar para as mãos calejadas, os olhos assustados, o peito cheio.
Recriminamos quem nos avisa do perigo.
Bajulamos quem só nos diz o que queremos ouvir.
Sabemos da verdade.
Nosso coração sempre está adiante.
Preenchemos nossos vazios espaços com inutilidades.
Fingimos felicidade.
Negamos as tristezas.
Rezamos sem prestar atenção na oração proferida.
Discriminamos os aventureiros.
Agredimos a nós mesmos.
Absorvemos informações equivocadas.
Perseguimos o que não podemos alcançar.
Tendemos a nos sentir sozinhos dentre tantos.
E continuamos sendo um mundo de vastidão.
Escondemos nossas riquezas maiores.
Nos enaltecemos com coisas pequenas.
Sangramos pelo óbvio.
Fingimos frieza com o válido.
Seguramos as expressões para não sermos mal interpretados.
Expressamos-nos da força errada.
Falamos demais.
Sentimos de menos.
Qual a pobreza da humanidade, quando ainda julgamos as lutas de todos?
Por que ainda ha guerras?
Por que pessoas ainda se sentem acima do bem e do mal, manipulando, transferindo e destilando ruindades?
Qual veneno lhe parece mais amargo?
Qual a dor que te convém?
Em que mundo você vive?
Por que não podemos viver as verdades, cada um, a sua?
Sim, todos, cada qual tem as suas!
Respeitemos-nos.
Não subjuguem ninguém.
Todos estamos aqui para aprender algo.
Todos existimos para ensinar muito.
Experimente."

Revivemos todas as manhãs, reinventando-nos.
Tentando a todo custo não olhar para as mãos calejadas, os olhos assustados, o peito cheio.
Recriminamos quem nos avisa do perigo.
Bajulamos quem só nos diz o que queremos ouvir.
Sabemos da verdade.
Nosso coração sempre está adiante.
Preenchemos nossos vazios espaços com inutilidades.
Fingimos felicidade.
Negamos as tristezas.
Rezamos sem prestar atenção na oração proferida.
Discriminamos os aventureiros.
Agredimos a nós mesmos.
Absorvemos informações equivocadas.
Perseguimos o que não podemos alcançar.
Tendemos a nos sentir sozinhos dentre tantos.
E continuamos sendo um mundo de vastidão.
Escondemos nossas riquezas maiores.
Nos enaltecemos com coisas pequenas.
Sangramos pelo óbvio.
Fingimos frieza com o válido.
Seguramos as expressões para não sermos mal interpretados.
Expressamos-nos da força errada.
Falamos demais.
Sentimos de menos.
Qual a pobreza da humanidade, quando ainda julgamos as lutas de todos?
Por que ainda ha guerras?
Por que pessoas ainda se sentem acima do bem e do mal, manipulando, transferindo e destilando ruindades?
Qual veneno lhe parece mais amargo?
Qual a dor que te convém?
Em que mundo você vive?
Por que não podemos viver as verdades, cada um, a sua?
Sim, todos, cada qual tem as suas!
Respeitemos-nos.
Não subjuguem ninguém.
Todos estamos aqui para aprender algo.
Todos existimos para ensinar muito.
Experimente."

sábado, 19 de julho de 2014
RUBEM ALVES
"Amor é isto: a dialética entre a alegria do encontro e a dor da separação. De alguma forma a gota de chuva aparecerá de novo, o vento permitirá que velejemos de novo, mar afora.
Morte e ressurreição. Na dialética do amor, a própria dialética do divino.
Quem não pode suportar a dor da separação, não está preparado para o amor. Porque o amor é algo que não se tem nunca. É evento de graça.
Aparece quando quer, e só nos resta ficar à espera. E quando ele volta,a alegria volta com ele. E sentimos então que valeu a pena suportar a dor da ausência, pela alegria do reencontro."
"Compreendi, então,
que a vida não é uma sonata que,
para realizar a sua beleza,
tem de ser tocada até o fim.
Dei-me conta, ao contrário,
de que a vida é um álbum de mini-sonatas.
Cada momento de beleza vivido e amado,
por efêmero que seja,
é uma experiência completa
que está destinada à eternidade.
Um único momento de beleza e amor
justifica a vida inteira."
"Quem tenta ajudar uma borboleta a sair do casulo a mata.
Quem tenta ajudar um broto a sair da semente o destrói.
Há certas coisas que não podem ser ajudadas.
Tem que acontecer de dentro para fora."
"Na saudade descobrimos que pedaços de nós já ficaram para trás.
E descobrimos, na saudade, uma coisa estranha: desejamos encontrar, no futuro, aquilo que já experimentamos como alegria, no passado.
Só podemos amar o que um dia já tivemos."

Morte e ressurreição. Na dialética do amor, a própria dialética do divino.
Quem não pode suportar a dor da separação, não está preparado para o amor. Porque o amor é algo que não se tem nunca. É evento de graça.
Aparece quando quer, e só nos resta ficar à espera. E quando ele volta,a alegria volta com ele. E sentimos então que valeu a pena suportar a dor da ausência, pela alegria do reencontro."
"Compreendi, então,
que a vida não é uma sonata que,
para realizar a sua beleza,
tem de ser tocada até o fim.
Dei-me conta, ao contrário,
de que a vida é um álbum de mini-sonatas.
Cada momento de beleza vivido e amado,
por efêmero que seja,
é uma experiência completa
que está destinada à eternidade.
Um único momento de beleza e amor
justifica a vida inteira."
"Quem tenta ajudar uma borboleta a sair do casulo a mata.
Quem tenta ajudar um broto a sair da semente o destrói.
Há certas coisas que não podem ser ajudadas.
Tem que acontecer de dentro para fora."
"Na saudade descobrimos que pedaços de nós já ficaram para trás.
E descobrimos, na saudade, uma coisa estranha: desejamos encontrar, no futuro, aquilo que já experimentamos como alegria, no passado.
Só podemos amar o que um dia já tivemos."

sexta-feira, 18 de julho de 2014
Diga Não a Pedofilia No Brasil / Delair Zermiani
Olá!
Eu criei uma petição pública e gostaria muito de sua ajuda para coletar assinaturas. Ela se chama: SALVE CRIANÇAS VÍTIMAS DE ABUSO SEXUAL E EX-VÍTIMAS A SUPERAR ISSO! Destina-se ao Presidente da Câmara dos Deputados, Henrique Eduardo Alves.: Que o PL 4754/2012 seja votado e aprovado com máxima urgência, se possível, antes da Copa. Eu fui à Brasília duas vezes, uma para esse Projeto de Lei ser criado e outra para ser votado. Mas isso é moroso e ainda não há muito interesse nos parlamentares em enxergar esse problema social...
Eu criei uma petição pública e gostaria muito de sua ajuda para coletar assinaturas. Ela se chama: SALVE CRIANÇAS VÍTIMAS DE ABUSO SEXUAL E EX-VÍTIMAS A SUPERAR ISSO! Destina-se ao Presidente da Câmara dos Deputados, Henrique Eduardo Alves.: Que o PL 4754/2012 seja votado e aprovado com máxima urgência, se possível, antes da Copa. Eu fui à Brasília duas vezes, uma para esse Projeto de Lei ser criado e outra para ser votado. Mas isso é moroso e ainda não há muito interesse nos parlamentares em enxergar esse problema social...
Eu realmente me preocupo sobre este assunto (assim como você) porque sou uma sobrevivente desse inferno (Youtube - Pedofilia e Incesto - Superação do Trauma). E juntos nós podemos fazer algo maior a respeito disso! Cada pessoa que assina nos ajuda a chegar mais próximo do objetivo de 100.000 assinaturas -- será que você pode me ajudar assinando a petição?
Essa é minha missão e a minha bandeira! Quando esse Projeto de Lei virar lei realmente terá valido à pena passar por tudo o que passei. Que tal tirar muitas crianças desse inferno e contribuir para a recuperação de tantos que também foram vítimas? Se não nos mobilizarmos corremos o risco de aceitar a pedofilia como opção sexual (como já ocorre em alguns países dos EUA, na Holanda e na França). Por favor, junte-se à nós?
Clique aqui para ler mais a respeito e assine:
http://www.avaaz.org/po/petition/Para_o_Presidente_da_Camara_dos_Deputados_Henrique_Eduardo_Alves_Que_o_PL_47542012_seja_votado_e_aprovado_com_maxima_urg/?launch
http://www.avaaz.org/po/petition/Para_o_Presidente_da_Camara_dos_Deputados_Henrique_Eduardo_Alves_Que_o_PL_47542012_seja_votado_e_aprovado_com_maxima_urg/?launch
Campanhas como esta sempre começam pequenas, mas elas crescem quando pessoas como nós se envolvem -- por favor reserve um segundo agora mesmo para nos ajudar assinando e passando esta petição adiante.
Posso contar com seu apoio divulgando para sua rede de contatos?
Muito obrigada!
Delair Borges Zerrmiani
Idealizadora e fundadora da ONG "EVAS - Ex-Vítimas de Abuso Sexual".
Idealizadora e fundadora da ONG "EVAS - Ex-Vítimas de Abuso Sexual".

Unicef no Brasil
Hoje, 18 de julho, é o Dia Internacional Nelson Mandela. #Mandeladay#NelsonMandela
"Meus queridos jovens: vejo a luz em seus olhos, a energia de seus corpos e a esperança que está em seu espírito. Sei que são vocês, e não eu, que farão o futuro. São vocês, e não eu, que consertarão nossos erros e levarão adiante tudo que está certo no mundo.
Se eu pudesse, de boa-fé, prometer-lhes a infância que eu tive, eu prometeria. Se eu pudesse prometer-lhes que cada um de seus dias será um dia de aprendizado e de crescimento, eu prometeria. Se eu pudesse prometer-lhes que nada – nem guerras, nem pobreza, nem injustiças – privará vocês de seus pais, de seu nome, de seu direito a uma boa infância, e que essa infância levará vocês a uma vida plena e frutífera, eu prometeria.
Mas prometerei apenas o que eu sei que posso cumprir. Vocês têm a minha palavra de que continuarei a aplicar tudo que aprendi no começo de minha vida, e tudo que aprendi a partir de então, para proteger seus direitos. Trabalharei todos os dias de todas as maneiras que conheço para apoiá-los enquanto crescem. Buscarei suas vozes e suas opiniões, e farei com que outras pessoas também as ouçam.
(...)
Cada um de vocês é uma pessoa única, que tem direitos, que merece respeito e dignidade. Cada um de vocês merece ter o melhor começo de vida possível, para completar uma educação básica da mais alta qualidade, para que possa desenvolver plenamente seu potencial e ter a garantia das oportunidades de uma participação significativa em suas comunidades. E enquanto cada um de vocês, quem quer que seja, não usufruir de seus direitos, eu, Nelson, e eu, Graça [Machel], não descansaremos."
Se eu pudesse, de boa-fé, prometer-lhes a infância que eu tive, eu prometeria. Se eu pudesse prometer-lhes que cada um de seus dias será um dia de aprendizado e de crescimento, eu prometeria. Se eu pudesse prometer-lhes que nada – nem guerras, nem pobreza, nem injustiças – privará vocês de seus pais, de seu nome, de seu direito a uma boa infância, e que essa infância levará vocês a uma vida plena e frutífera, eu prometeria.
Mas prometerei apenas o que eu sei que posso cumprir. Vocês têm a minha palavra de que continuarei a aplicar tudo que aprendi no começo de minha vida, e tudo que aprendi a partir de então, para proteger seus direitos. Trabalharei todos os dias de todas as maneiras que conheço para apoiá-los enquanto crescem. Buscarei suas vozes e suas opiniões, e farei com que outras pessoas também as ouçam.
(...)
Cada um de vocês é uma pessoa única, que tem direitos, que merece respeito e dignidade. Cada um de vocês merece ter o melhor começo de vida possível, para completar uma educação básica da mais alta qualidade, para que possa desenvolver plenamente seu potencial e ter a garantia das oportunidades de uma participação significativa em suas comunidades. E enquanto cada um de vocês, quem quer que seja, não usufruir de seus direitos, eu, Nelson, e eu, Graça [Machel], não descansaremos."
Nelson Mandela, em Situação Mundial da Infância 2001
(UNICEF 2000)
(UNICEF 2000)

terça-feira, 15 de julho de 2014
segunda-feira, 14 de julho de 2014
Mulheres vítimas de abusos sexuais têm serviço de referência
Mulheres vítimas de abusos sexuais têm serviço de referência
É importante que a mulher abusada procure os serviços de saúde até 72 horas depois de sofrida a violência
Criado no dia 26 de abril do ano passado para atender mulheres que sofrem violência sexual, o Ambulatório Girassol faz parte dos serviços ofertados pelo Hospital e Maternidade Dona Iris (HMDI) em Goiânia. Agora, o ambulatório quer integrar o Grupo Gestor Intermunicipal (GGI), que está redesenhando a Rede de Atendimento às vítimas de violência em Goiânia. Os integrantes do GGI se reuniram na quinta-feira (10), na Diretoria de Atenção à Saúde (DAS), da Secretaria Municipal de Saúde (SMS).
A rede reúne integrantes de outras pastas, como a Guarda Civil Metropolitana, mas a maioria é da área de saúde, como a Divisão de Vigilância à Violência e a Divisão de Ciclos de Vida, ambas de diretorias da SMS. O grupo fará a próxima reunião no dia 8 de agosto, quando definirá novas ações de políticas de acolhimento e tratamento das vítimas da violência na Capital, uma vez que a criminalidade vem aumentando.
Importância
Segundo a coordenadora do Ambulatório Girassol, médica Maria Laura Porto, a ideia de entrar no grupo tem como objetivo atrair mais mulheres para o serviço que trabalha com equipe multidisciplinar (médicos, enfermeiros, psicólogos, assistentes sociais e outros).
“É importante que a mulher vítima de violência sexual saiba que o primeiro serviço que deve procurar nas primeiras 72 horas é a saúde, pois é nesse período que os medicamentos fazem mais efeito, tanto para prevenir gravidez, quanto para evitar doenças sexualmente transmissíveis”, explica a médica. “Temos profissionais e serviços em pleno funcionamento para esse atendimento. As mulheres ainda sentem medo e vergonha, mas garantimos sigilo”, ressalta a coordenadora.
Laura Porto esclarece que depois de receber atendimento médico e psicológico, as pacientes recebem esclarecimentos sobre seus direitos legais por parte da assistência social e, só então, são encaminhadas, devidamente acompanhadas, para delegacias ou outras instâncias necessárias, como o Instituto Médico Legal (IML), onde são feitos exames periciais.
“Ao procurar a saúde primeiro, a mulher evita agravos desta violência”, destaca Laura Porto. O Ambulatório Girassol funciona das 8 às 12h, de segunda a sexta-feira, mas a vítima pode procurar a Maternidade Dona Iris, no serviço de emergência, todos os dias. O Girassol atende mulheres acima de 14 anos residentes em Goiânia.

sexta-feira, 11 de julho de 2014
SONO DE PEDRA / Poema de Raquel Naveira. Ilustração de Liliane Lililane Gobbo
Durante o sono
Não era dono
De nada:
Nem de seu corpo,
De músculos relaxados,
Nem de sua consciência,
Suspensa
Como um fruto de outono.
Sono de pedra,
Sonhos
Feitos de minério
Colhido no leito dos rios
E dos caminhos.
Sono de pedra
Em que, às vezes,
Passava do opaco
Ao translúcido
Como um topázio
Que guarda em segredo
O seu mistério precioso.
Sono de pedra,
Cheio de limo
E umidade,
Palpável ao toque,
Quente
Como uma força ígnea.
Sono de pedra
Em que virava pilha
E acumulava energia
Natural das rochas.
(Jean-Antoine Houdon, Morpheus, 1777)

Não era dono
De nada:
Nem de seu corpo,
De músculos relaxados,
Nem de sua consciência,
Suspensa
Como um fruto de outono.
Sono de pedra,
Sonhos
Feitos de minério
Colhido no leito dos rios
E dos caminhos.
Sono de pedra
Em que, às vezes,
Passava do opaco
Ao translúcido
Como um topázio
Que guarda em segredo
O seu mistério precioso.
Sono de pedra,
Cheio de limo
E umidade,
Palpável ao toque,
Quente
Como uma força ígnea.
Sono de pedra
Em que virava pilha
E acumulava energia
Natural das rochas.
(Jean-Antoine Houdon, Morpheus, 1777)

quarta-feira, 9 de julho de 2014
Sexualidade / APAE DE SÃO PAULO
Ao elegermos o tema da sexualidade, o fazemos por acreditar que o tema permeia todas as relações humanas, com implicação direta no desenvolvimento afetivo e social dos indivíduos.
Tratar do tema da sexualidade transversalmente ao tema da violência contra a criança e o adolescente, é abrir um espaço para a discussão e compreensão de uma modalidade de prática violenta, ainda pouco compreendida e debatida na sociedade: a violência sexual, abuso e exploração sexual comercial.
Entendemos, assim, que tanto a questão da violência, quanto a questão da sexualidade são aspectos constitutivos da formação do psiquismo e subjetividade humana.
A discussão da sexualidade ganha grande espaço e sofre forte transformação a partir das formulações e contribuições de Freud e da psicanálise no inicio do séc. XX, que rompe com conceitos dominantes até então, de uma sexualidade ligada exclusivamente à necessidade instintiva da reprodução humana, pelo coito entre um homem e uma mulher, para uma conceituação e compreensão da sexualidade mais abrangente e complexa que acompanha e perpassa a vida do individuo do nascimento à morte.
A compreensão da sexualidade deixa de ser meramente reprodutiva e passa a ocupar o espaço de elemento formador da constituição do psiquismo e da subjetividade humana.
Desde o nascimento o bebê irá experimentar, em sua relação com a mãe, sensações de prazer (alimentação, calor, aconchego, p.ex. ) e desprazer , fúria ( fome, cólica, frio, por.ex). Ao sentir fome, o bebê experimenta uma sensação ruim e de desconforto. A mãe atenta às necessidades de seu filho irá alimentá-lo, gerando uma experiência de prazer e satisfação. O bebê irá buscar, na relação com sua mãe, a repetição desta experiência de prazer. Assim sendo, podemos imaginar que toda experiência de prazer\desprazer, busca de satisfação, acontecerá na presença e na relação com outro ser humano, fundando assim a sexualidade.
Porém, não devemos confundir a sexualidade do bebê e da criança, pautada na busca da sobrevivência em um primeiro momento e da repetição de uma experiência prazerosa, posteriormente, com a sexualidade adulta, madura, genital e voltada para a relação sexual para obtenção de prazer e reprodução. São momentos distintos no desenvolvimento humano e assim devem ser vistos e compreendidos. Freud propôs uma compreensão do desenvolvimento infantil e da sexualidade humana em fases e etapas distintas, que são definidas por processos de maturidade bio-fisiológica e desenvolvimento afetivo. Tentaremos descrever as etapas descritas por Freud de forma resumida, para que possamos iniciar nossas reflexões e compreensão da sexualidade humana e sua relação com a violência e o abuso sexual da criança e do adolescente, com e sem deficiência intelectual.
Fase Oral – Momento do desenvolvimento que vai do nascimento até por volta dos 2 anos de idade e se caracteriza pela oralidade como forma de exploração do mundo exterior e busca de prazer pela criança. O mundo lhe será apresentado, neste período, através dos olhos e da fala da mãe.
Fase Anal – Ocorre dos 2 aos 4 anos de idade. É o momento em que a criança vivência o início da independência e da autonomia, onde irá experimentar a possibilidade de controlar suas próprias produções e o seu corpo. O aprendizado da marcha e da linguagem irão permitir que a criança experimente comunicar seus anseios e desejos. As relações, antes estritamente duais, passam a permitir a entrada de novos elementos, as relações triangulares. É comum, neste momento do desenvolvimento, crianças apresentarem comportamentos mais birrentos, testando e buscando o controle do ambiente a sua volta; em função disso é comum, neste momento, que pais e cuidadores respondam a estes comportamentos com violência, tirania e abuso, calando a voz da criança e coibindo suas ações e expressões.
Fase Fálica - Caminha dos 4 aos 6 anos aproximadamente. Fase crucial do desenvolvimento da subjetividade, onde ela viverá e tentará elaborar o Complexo de Édipo. A criança nesta fase irá se identificar com um dos pais, buscando encantar o outro. É o momento da interdição da criança, com a entrada na cultura. É a elaboração da interdição que irá nos constituir como sujeitos.
Fase de Latência - Ocorre dos 4 aos 10 anos. É o momento em que a criança trabalhará intensamente na elaboração e internalização das regras e normas sociais, passando a experimentá-las como elemento organizador. Neste momento, as crianças costumam ter preferência por jogos e brincadeiras mais estruturadas e se dividem por grupos de gênero. Meninos e meninas. A vida social e escolar ganha força e fica em destaque.
Puberdade e adolescência - Iniciando-se próximo aos 11 anos costuma alongar-se até por volta dos 19 anos de idade. Momento intenso na vida da criança, onde irá experimentar sentimentos ambíguos e contraditórios. A passagem da infância para a vida adulta. É necessário elaborar o luto pela perda do corpo infantil e acostumar-se com as intensas mudanças que irão transformá-lo em um corpo adulto. A curiosidade com o corpo do outro, com aspectos da sexualidade e o desejo sexual voltam à tona com força. Trata-se de momento de intenso conflito e contraposições com as figuras paternas e de autoridade, na busca de se diferenciar e se constituir como sujeito mais livre e autônomo.
“As crises da adolescência duram apenas um tempo e o tempo é seu remédio natural. Ou seja, existe um trabalho do tempo que opera mudanças. É claro que muitas vezes essas crises representam riscos que precisam ser considerados, porém, no atacado, se elas não forem impedidas, sempre acabam relativamente bem. Não se deve combatê-las, curá-las ou encurtá-las, mas acompanhá-las e explorá-las para que o sujeito tire o maior proveito delas” (Winnicott apud Pavan, 2003).
Tentamos apresentar aqui um recorte do tema sexualidade, apresentando alguns marcos do desenvolvimento, pelo olhar da psicanálise, trazendo à discussão e jogando luz na importância e na complexidade do tema para a formação da subjetividade e da identidade do sujeito.
O tema da sexualidade deve ser encarado com seriedade e cuidado e os mitos e tabus, que ainda persistem, devem ser desmistificados possibilitando lidar com o tema de forma mais livre e crítica.
A manifestação da sexualidade nas crianças não deve ser ignorada ou punida como atos desviantes. Muitas das dificuldades do adulto em tratar do tema da sexualidade de crianças com ou sem deficiência intelectual, consiste na impossibilidade do adulto em se distanciar de sua vivência da sexualidade, genital, e se aproximar da sexualidade infantil, pré-genital. Os adultos pensam e sentem necessidades sexuais diferentes da criança e do adolescente, que ainda estão em fase de construção de sua identidade e subjetividade.
Tratar do tema sexualidade com crianças, adolescentes e pessoas com deficiência intelectual, faz com que tenhamos que olhar para nossa própria experiência e sexualidade, questionar nossos mitos, crenças e valores. Por isto mãos à obra, temos muito trabalho pela frente.
Bibliografia indicada:
PAULA, A.R. de e REGEN, M. Sexualidade e a Pessoa com Deficiência - Reabilitação de Pessoas com Deficiência: A Intervenção em discussão. Editora ROCA, São Paulo, 2006.
PAULA. A.R. de e REGEN, M. Sexualidade e Deficiência: rompendo o silêncio. Editora Expressão e Arte, São Paulo, 2ᵃ edição, 2011.
terça-feira, 24 de junho de 2014
Violência Emocional / Verinha da Silveira
“A violência psicológica, entendida como qualquer conduta que lhe cause dano emocional e diminuição da autoestima ou que lhe prejudique e perturbe o pleno desenvolvimento ou que vise degradar ou controlar suas ações, comportamentos, crenças e decisões, mediante ameaça, constrangimento, humilhação, manipulação, isolamento, vigilância constante, perseguição contumaz, insulto, chantagem, ridicularização, exploração e limitação do direito de ir e vir ou qualquer outro meio que lhe cause prejuízo à saúde psicológica e à autodeterminação”.
A violência emocional é um tipo bem comum de violência doméstica, mas não recebe tanta atenção e nem é tão divulgado por que afinal, trata-se de uma agressão que não deixa marcas corporais visíveis, mas emocionalmente causa cicatrizes indeléveis para toda a vida.
Violência emocional tem varias formas de manifestação, dentre elas, as mais comuns são fazer o outro sentir se inferior, sentir se omisso, dependente ou culpado. O processo de manipulação da vitima começa com a destruição da sua autoestima e afastamento de pessoas que possam socorrê-la, abrir lhe os olhos para o que esta lhe acontecendo, o isolamento da vitima é fundamental para o sucesso do agressor que pretende a dominação da parceira através de manipulação.
Em um dos depoimentos que recebemos, sobre o pseudônimo de Eduarda, ela diz:
“Ele odiava todos meus amigos (as), dizia que não confiava neles (as), que ‘aquelas pessoas’ estava jogando a gente um contra o outro, estavam acabando com nosso casamento, que ele não ia me dizer o que fazer, mas que eu deveria saber o que era mais importante para mim. Eu me sentia péssima, sofria, tinha que escolher me afastar de meus amigos (as) para manter ele no centro da minha vida, como se fosse o rei da minha vida”.
Um dos mecanismos da manipulação pode ser a chantagem emocional, uma forma de culpar o vitima por omissão. A intenção do agressor é mobilizar a outra pessoa, tendo como chamariz alguma doença, alguma dor, algum problema de saúde, enfim, algum estado que exija atenção, cuidado, compreensão e tolerância.
“Quando eu não aguentava mais todas as opressões e agressões emocionais, resolvi dar um basta na relação, ele foi procurar um psiquiatra e voltou com um diagnóstico de bipolaridade. Foi um pesadelo este diagnóstico, pois todos os erros e abusos que ele cometeu contra mim tornaram-se justificáveis apoiados nesta enfermidade, à família dele, amigos dele, amigos homens cis héteros meus e até algumas mulheres, diziam-me que eu deveria ser tolerante, e quadro da doença levava a pessoa agir mal, não era culpa dele, que eu deveria apoia-lo”.
Mas este tipo de manipulação nem sempre é ativa, não consiste apenas em fazer a teatralidade, onde busca um sentimento de piedade, sentimento este que leva a vitima a crer tem obrigação de dar suporte, existe outro método que também é usado e que atinge muito sucesso: A reclusão. Neste mecanismo o abusador se fecha mantem se recluso a seu próprio mundo, não comunica o que esta sentindo, como se não quisesse com seu mal estar incomodar ou causar brigas.
“Ele ficava por períodos longos em silêncio, não falava sobre o que estava acontecendo, me torturava com a dúvida, logo eu pensava que ele estava sofrendo e que a culpa era minha, que eu precisaria melhorar em algo que não sabia o que para que ele pudesse se abrir comigo, sair daquela situação depressiva de isolamento. O mal estar na casa era tão grande que quase poderia ser apalpado”.
A violência verbal também se encaixa ai, se você acha que para ser violentado verbalmente é necessário alguma agressão vocalizada, não… Não precisa. A violência verbal existe até na ausência da palavra, ou seja, até em pessoas que permanecem em silêncio. O agressor verbal, vendo que um comentário ou argumento é esperado para o momento, se cala, emudece e, evidentemente, esse silêncio machuca mais do que se tivesse falado alguma coisa.
Por outro lado, existem as milhares de palavras e insinuações depreciativas que podem levar a inferiorização do outro, destruindo sua segurança e autoestima.
“Eu li no Facebook dele ele conversando com outra mulher, dizendo a ela que ela era linda, ele não me dizia nada como isso havia muito tempo, ou seja, eu a companheira dele não merecia nenhum tipo de elogio, mas outras mulheres sim. Isso aconteceu em um período muito ruim da nossa relação, quando a depreciação era um ponto alto de tudo, ele dizia que não me amava mais, ou que não sabia se me amava, dizia que não sabia se queria continuar comigo, eu me sentia um lixo”.
“Um dia ele demorou muito chegar em casa, o jantar estava na mesa esfriando, quando ele chegou eu questionei a demora ao que ele me respondeu que veio em ‘passos de tartaruga’ para casa, pois não teria mais vontade de chegar, de me ver, conversar…”.
A violência moral, entendida como qualquer conduta que configure calúnia, difamação ou injúria.1
As ofensas morais também fazem parte deste repertório, as insinuações infundadas de que a parceira tem um amante, as criticas depreciativas sobre o corpo dela, ou ainda usar como chacota as qualidade da companheira, por exemplo, “se você não tivesse esta qualidade estaria ferrada”, “só vale a pena estar com você por que você é… (insira ai uma qualidade)”.
“Numa das discussões ele me acusou de ter um amante, ele disse ‘quem esta chupando sua buceta, Eduarda?’ Eu fiquei sem chão, fiquei sem resposta, não conseguia raciocinar, a briga acabou ali por total falta de condição emocional de responder aquela calúnia infundada”.
Todas estas situações são precursoras da violência física.
A violência física, entendida como qualquer conduta que ofenda sua integridade ou saúde corporal.1
Após conseguir o intento de afastar a mulher de seu grupo social, após destruir sua autoestima, sua autodeterminação, ela fica completamente nas mãos do agressor e impossibilitada de reação. A agressão física não trata se apenas daquela que é efetivada, ela pode ser subjetiva, este tipo de agressão tem um grande poder sobre desestruturação do psicológico da vitima, pois é sentido como agressão física, sem ter tocado na agredida.
“Discutimos no quintal de casa, ele ameaçou ir embora de casa e se separar de mim, ele sabia que eu não queria isso e usava esta chantagem em todas as brigas, neste dia resolvi reagir, arranquei a aliança do dedo e atirei longe, ele buscou e me devolveu ordenando que eu recolocasse no dedo. Repeti este ato mais duas vezes, atirando a aliança longe, ele na terceira vez armou um murro contra mim, me obrigando a recolocar a aliança. Ele não desferiu o murro mas me ameaçou com violência física. Após alguns dias perguntei a ele se ele teria tido coragem de me agredir, ele me respondeu que não, mas que bem que a ameaçava me colocou no meu lugar”.
“Em várias discussões ele me silenciava quebrando objetos da casa, socando portas, destruindo moveis, eu só queria que ele parasse de quebrar as nossas coisas, aquilo me deixava perplexa, não havia possibilidade de nenhum diálogo, pois se ele estava quebrando coisas dentro de casa, o que o impediria de me agredir também?”
“Estas situações abusivas acabavam com minha saúde, me deixavam extremamente ansiosa, eu descontava na comida, engordava demais, e minha autoestima só piorava, ele estava me destruindo, mas eu queria que tudo que aquilo parasse, que ele voltasse a ser o homem com quem me casei, eu não conseguia pensar mais em me separar dele, eu acreditava que não conseguiria mais construir nada nem sozinha e nem com outra pessoa, minha vida se resumia a tentar reconstruir nossa relação a dele se resumia em me destruir.”
As agressões seguem um ciclo, elas não começam do nada, a violência psicológica é a primeira arma usada pelo agressor, esta arma ficara mais sofisticada com o tempo, atingindo a mulher com violência física, neste ponto ela estará completamente indefesa, e justamente por isso milhares de mulheres demoram a reconhecer os relacionamento abusivos e ciclos de abuso.
“É muito difícil admitir que o homem que você escolheu para ser seu melhor amigo, seu cumplice, amante, companheiro… o homem que você escolheu para viver a vida do seu lado é um agressor. É muito difícil admitir o fracasso da relação, e enfrentar as acusações que recairão sobre a mulher, no caso sobre mim, se ela fracassar, fomos criadas para entender que o sucesso da relação entre o homem e a mulher deve se exclusivamente a mulher, eu sempre me lembrava de que ouvi muitas vezes na igreja que ‘a mulher sábia edifica seu lar’, isso ficava ecoando em minha cabeça como uma musica tenebrosa no repeat, tocava sem parar…”
Se você se reconhece em alguma destas situações, procure ajuda, procure suas amigas, não se deixe ser isolada, conte o que esta acontecendo, peça socorro. Se você esta isolada de suas amigas por este homem agressor, procure auxilio através das feministas que estão nas redes sociais. Mas não se cale, não permita que este abusado/agressor destrua sua vida. Liberte-se.
Outros depoimentos:
“…E começaram os cortes… as roupas, os sonhos, os princípios que ele outrora apoiara, agora eram motivos de brigas e insultos, os amigose até mesmo meus desenhos e meu trabalho (que nunca foram valorizados). Os ciúmes dele eram sempre justificáveis: eu sempre havia feito algo que o deixava inseguro. Os meus? Loucura, claro. Ele tinha princípios, eu não.”
Somatizar / Unoclin Terapias
Costumamos ter sintomas sempre. Vira e mexe surge uma dor de garganta, dores pelo corpo, enfim, sintomas que aparecem “do nada.” Por que isso? Chamamos esse tipo de sintoma de SOMATIZAÇÃO. A maioria das doenças começa por esse processo.
Somatizar, segundo o dicionário Aurélio, significa: Transferir para o plano físico (fenômeno de natureza psicológica): ex. Somatizou os problemas conjugais apresentando fortíssima dor de cabeça; Têm tendência a somatizar.
É ai que mora o problema, confundimos os termos. Até o dicionário deixa a desejar separando a mente do corpo (plano físico e natureza
psicológica). Quando tratamos de sintomas, mente e Corpo não devem ser divididos, precisamos entender que possuímos um corpo biológico que é regido por um psiquismo extremamente complexo!
Somatização são queixas físicas relatadas por um indivíduo com ou sem causas orgânicas definidas, vindas de um distúrbio de origem emocional.
É comum fazer confusão e achar que um sintoma sem explicação é “psicológico”; “coisa da sua cabeça”. Ela é real! A dor é real, os sintomas são reais. Podemos gerar um câncer, apenas somatizando os conflitos. Sintomas nada mais são do que uma defesa do seu corpo em relação ao problema que precisa ser resolvido.
Somatizar, segundo o dicionário Aurélio, significa: Transferir para o plano físico (fenômeno de natureza psicológica): ex. Somatizou os problemas conjugais apresentando fortíssima dor de cabeça; Têm tendência a somatizar.
É ai que mora o problema, confundimos os termos. Até o dicionário deixa a desejar separando a mente do corpo (plano físico e natureza
psicológica). Quando tratamos de sintomas, mente e Corpo não devem ser divididos, precisamos entender que possuímos um corpo biológico que é regido por um psiquismo extremamente complexo!
Somatização são queixas físicas relatadas por um indivíduo com ou sem causas orgânicas definidas, vindas de um distúrbio de origem emocional.
É comum fazer confusão e achar que um sintoma sem explicação é “psicológico”; “coisa da sua cabeça”. Ela é real! A dor é real, os sintomas são reais. Podemos gerar um câncer, apenas somatizando os conflitos. Sintomas nada mais são do que uma defesa do seu corpo em relação ao problema que precisa ser resolvido.
domingo, 15 de junho de 2014
SEM MEDRO DE FALAR - RELATO DE UMA VÍTIMA DE PEDOFILIA / Marcelo Ribeiro
"O silêncio protege o pedófilo"
Casado, aos 48 anos, empresário conta que foi vítima de abuso sexual dos 12 aos 16 por um maestro do coral da Igreja Católica que depois virou padre
RESUMO Há seis anos, Marcelo Ribeiro, 48, revelou à mulher Renata Daud, 36, ter sido abusado sexualmente dos 9 aos 16 anos pelo maestro do coral da Igreja Católica primeiro em Minas e depois no Rio Grande do Sul. Uma crise na relação levou o empresário a relatar pela primeira vez um trauma que escondia há mais de três décadas e que agora conta também no recém-lançado livro "Sem Medo de Falar - Relato de uma Vítima de Pedofilia" (ed. Paralela, 195 págs., R$ 24,90).
Casado, aos 48 anos, empresário conta que foi vítima de abuso sexual dos 12 aos 16 por um maestro do coral da Igreja Católica que depois virou padre
RESUMO Há seis anos, Marcelo Ribeiro, 48, revelou à mulher Renata Daud, 36, ter sido abusado sexualmente dos 9 aos 16 anos pelo maestro do coral da Igreja Católica primeiro em Minas e depois no Rio Grande do Sul. Uma crise na relação levou o empresário a relatar pela primeira vez um trauma que escondia há mais de três décadas e que agora conta também no recém-lançado livro "Sem Medo de Falar - Relato de uma Vítima de Pedofilia" (ed. Paralela, 195 págs., R$ 24,90).
Quando comecei a ser assediado aos nove anos pelo maestro do coral da Igreja Católica da minha cidade natal, em Minas, eu não tinha noção do que era sexo. O primeiro beijo que ele me deu foi uma coisa maravilhosa. Para mim, não era erótico. Criança é erógena. Sente, mas não sabe lidar com aquilo.
Já ele, o predador sexual, sabia o que estava fazendo. Fui abusado sexualmente dos 12 aos 16 anos.
O maestro era respeitado a ponto de ter confiança de meus pais para que eu fosse morar com ele no Sul, para onde o coral se transferiu.
A primeira vez que me lembro de ter feito sexo com ele foi quando ficamos sozinhos na casa paroquial. O maestro tirou minha roupa e eu aceitei. Já tinha me beijado escondido várias vezes.
Ele me acariciou, me tocou, me beijou, me fez praticar sexo oral e me penetrou. Repetidas vezes e a seu bel-prazer. Exigiu que eu o penetrasse.
Os abusos eram um fardinho que eu tinha de carregar. Só tive consciência de ser vítima de abuso muito depois. O maestro, que viraria padre, dizia que nossa história era de amor. Só aos 42 anos consegui falar sobre o assédio.
ABUSO HOMOSSEXUAL
É mais difícil falar sobre abuso homossexual. Nunca pensei se eu era ou não gay. Antes de ser molestado, tive uma paixão platônica por uma colega de escola. Quando decidi deixar o coral e voltar para casa, tinha 16 para 17 anos e nenhum traquejo com meninas. Optei pelas profissionais, quando estudava engenharia em Belo Horizonte.
Vivi uma adolescência tardia. Aos 26 anos, conheci minha mulher. Renata tinha 13. Falei para o amigo que nos apresentou: Como é que você me apresenta uma menina que não tem peitinho ainda?' Fiz essa grosseria, mas namoramos por dois anos.
Eu era desregulado. Agia com brutalidade. Meus familiares foram os que mais sofreram com o ódio que tinha guardado. Só contei aos meus pais quando o livro ia sair.
LAVAGEM CEREBRAL
O maestro foi nos afastando de família, amigos, futebol. Era uma lavagem cerebral. Comecei a me rebelar quando passei férias em casa e voltei usando jeans. Tínhamos que usar calça social e camisa com o último botão fechado.
Minha mulher diz que há força em falar o indizível. Reencontrei Renata adulta e nos apaixonamos de novo. Mas, há seis anos, ela pediu para eu ir embora. O medo de perdê-la me fez falar pela primeira vez sobre o abuso. Ela foi amorosa e sábia.
O silêncio protege o pedófilo. Falar desnuda ele. A força da denúncia é reverberar.
É um modo também de incentivar pais e educadores a falar sobre o tema. Esse é um crime muito comum. O pedófilo está próximo. A gente vai ter que falar para as crianças o que é pedofilia, até para elas estarem mais protegidas.
Meu caso está prescrito há muito anos. O pedófilo não pode ser punido a contar uma década a partir dos 18 anos da vítima. Defendo que não exista prescrição para esse tipo de crime. Ninguém sabe quando vai se curar do trauma e conseguir falar.
O maestro dirige hoje uma instituição no Sul. Mudou de ordem. Não é mais católico. Mas fiz a denúncia à CNBB [Conferência Nacional dos Bispos do Brasil] por ter sido vítima de abuso dentro da Igreja, numa casa paroquial.
Esperava que a entidade tomasse ao menos meu depoimento formal. Ninguém me procurou. Cheguei a falar diretamente com o presidente da CNBB na época, dom Geraldo. Ele disse que eu não precisava me preocupar mais.
Três décadas depois, tomei coragem e liguei para o maestro, que segue cercado de crianças e jovens. Perguntei: "Por que não se afasta das crianças, já que tem essa doença?". Ele não disse nada. Antes de desligar, pedi: "Para de fazer o mal".
Não revelo o nome dele no livro. É uma forma de não discutir só o meu caso, mas de falar de um problema social.
Espero que o livro ajude a sociedade a combater a pedofilia. Eu fui escolhido para ser uma vítima. E tenho certeza de que também fui escolhido para contar a história.
Reportagem de Eliane Trindade na Folha de São Paulo de 15/06/2014
Não havia meu desejo. Era obediência. Como era muito criança, parecia que aquilo não me incomodava tanto, porque tinha outras coisas bacanas, como cantar no coral, ser reconhecido.

sexta-feira, 13 de junho de 2014
Minha opinião sobre a Copa / Bya Albuquerque
Começou a Copa. É incrível como o oportunismo aparece...estamos também no ano da eleição. Pela primeira vez vi a quantidade de propagandas federais sobre o abuso e a exploração sexual. Sempre digo que uma causa séria não pode e nem deve estar vinculada a partidos ou política. Porém como vítima de vários abusos, fico conformada em saber que a causa está sendo divulgada. Sempre gostei da Copa. É o único evento futebolístico que gosto. Tento ver todos os jogos e torço pelo time que acho melhor. Não exatamente por um país determinado. Dessa vez percebi algo em que jamais tinha pensado: em como o povo está sendo lesado com esse evento. Rios de dinheiro está sendo gasto com a infra estrutura para o Brasil fazer "bonito" lá fora. Aqui dentro continua feio: pessoas morrendo na fila de hospitais...escolas sem professores ou mínimas condições para o estudo...crianças passando fome...a criminalidade e a violência aumentando. Acho que somente percebi isso porque vai ser aqui no Brasil...nunca pensei em como era lá fora. O meu ânimo murchou. Fica aqui registrado o meu pensamento e o meu protesto...que não vai fazer diferença nenhuma...mas que me alivia um pouco da revolta que sinto pelos tantos fatos negativos.
Despedida / Cecília Meireles
Por mim, e por vós, e por mais aquilo
que está onde as outras coisas nunca estão,
deixo o mar bravo e o céu tranqüilo:
quero solidão.
Meu caminho é sem marcos nem paisagens.
E como o conheces? - me perguntarão.
- Por não ter palavras, por não ter imagens.
Nenhum inimigo e nenhum irmão.
Que procuras? - Tudo. Que desejas? - Nada.
Viajo sozinha com o meu coração.
Não ando perdida, mas desencontrada.
Levo o meu rumo na minha mão.
A memória voou da minha fronte.
Voou meu amor, minha imaginação...
Talvez eu morra antes do horizonte.
Memória, amor e o resto onde estarão?
Deixo aqui meu corpo, entre o sol e a terra.
(Beijo-te, corpo meu, todo desilusão!
Estandarte triste de uma estranha guerra...)
Quero solidão.
que está onde as outras coisas nunca estão,
deixo o mar bravo e o céu tranqüilo:
quero solidão.
Meu caminho é sem marcos nem paisagens.
E como o conheces? - me perguntarão.
- Por não ter palavras, por não ter imagens.
Nenhum inimigo e nenhum irmão.
Que procuras? - Tudo. Que desejas? - Nada.
Viajo sozinha com o meu coração.
Não ando perdida, mas desencontrada.
Levo o meu rumo na minha mão.
A memória voou da minha fronte.
Voou meu amor, minha imaginação...
Talvez eu morra antes do horizonte.
Memória, amor e o resto onde estarão?
Deixo aqui meu corpo, entre o sol e a terra.
(Beijo-te, corpo meu, todo desilusão!
Estandarte triste de uma estranha guerra...)
Quero solidão.
Retrato / Cecília Meireles
Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios, nem o lábio amargo.
Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração que nem se mostra.
Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
Em que espelho ficou perdida a minha face?
OUÇA O QUE DIZEM MULHERES QUE SOFRERAM VIOLÊNCIA SEXUAL NA INFÂNCIA / Ana Carolina Moreno, Diana Vasconcelos e Luna Markman Do G1, em São Paulo, Fortaleza e Recife
Hoje adultas, elas afirmam que trauma da exploração dura para sempre.
Não há números exatos sobre quantas crianças e adolescentes são vítimas de exploração sexual no Brasil. Segundo estimativa da Organização Internacional do Trabalho (OIT), 100 mil menores de idade, principalmente meninas, são exploradas em mais de 900 municípios do país, quase metade deles no Nordeste. Embora o problema seja de difícil detecção, quem já o sofreu na pele garante: o trauma é real, profundo, e dura para sempre.
O G1 ouviu o relato de mulheres de Fortaleza e Recife que, em determinados momentos de sua infância, adolescência e até na idade adulta, sofreram algum tipo de violência sexual. As histórias têm começos distintos, mas o fim é parecido: ele ainda não chegou, mas segue carregado de medo, choro e vergonha. A maioria até hoje mantém esse passado escondido das próprias famílias.
Por isso, os nomes marcados com asteriscos foram trocados para preservar as identidades dessas mulheres.
Violência durante a vida inteira
Dos 32 anos de Maria do Socorro*, 13 foram de agressão familiar; 12 de exploração sexual, prostituição e uso de drogas, e sete de uma nova vida na reabilitação. "Eu nunca amei", diz ela ao lembrar dos anos em que se prostituiu. Ela conta ter tido seis filhos. Cinco deles foram frutos de abuso e prostituição. "Eles não sabem. Não sabem quem são os pais deles. Nunca contei. Tenho medo de que não entendam, de que me odeiem", diz a mulher que, atualmente, trabalha como zeladora com um novo companheiro, no Ceará. "Estou aprendendo agora [a amar]", diz ela.
Adotada aos três anos, ela conta que fugiu de casa aos 13, depois de cansar de apanhar da mãe adotiva. Nas ruas, ela conheceu uma menina e acabou morando na casa da mãe dela, a cafetina que a levou pela primeira vez pelo caminho da prostituição infantil. "O pior dia foi o primeiro, eu nunca tinha feito aquilo. Foi no dia que cheguei. Eu chorava tanto, eu não queria, ela me obrigou", afirma ela, acrescentando que "foi estupro".
Os clientes eram arranjados pela cafetina e os abusos sexuais ocorriam em matagais na Região Metropolitana de Fortaleza. As adolescentes ficavam com uma parcela pequena do dinheiro pago pelos abusos, apenas o suficiente para comprarem drogas. A maior parte do dinheiro ficava com a proprietária da casa.
"Até que eu engravidei e ela me expulsou. Eu tinha 15 anos."
Ela foi morar em um quarto de taipa, nas ruas, onde mantinha relação sexuais em troca de drogas, mesmo grávida. "Eu vivia suja. Eles [os 'clientes'] não ligavam", conta. "Eu dei meu filho quando ele tinha um mês e 20 dias. Procurei minha mãe e dei pra ela. Eu não queria essa responsabilidade. Até hoje ela cuida dele", afirma Maria do Socorro que, dois meses após o nascimento do primeiro filho, engravidou novamente do mesmo "cliente".
A segunda gravidez trouxe um relacionamento fixo, uma nova rotina e novos vícios. "Eu parei de me prostituir e fui pedir esmolas e comecei a usar crack", diz. Maria do Socorro criou a filha nestas circunstâncias até os cinco anos. "Mas eu perdi a guarda dela porque me denunciaram." Aos 20 e poucos anos e viciada em drogas mais pesadas, ela largou o companheiro, que a espancava, e foi em busca de clientes com mais dinheiro e mais exigentes. Ela passou a se prostituir na Avenida Beira Mar, um dos principais pontos turísticos de Fortaleza. "Aqui [no bairro em que vive] meus clientes eram velhos e tudo acabava rápido, né? Pagava pouco. Lá [na Beira Mar] não, eles queriam curtir a droga com a gente. Mas também demorava mais, era a noite toda. Quando começava, eu queria era que acabasse logo", conta.
Na Beira Mar, ela se envolveu com um estrangeiro e, como muitas garotas, acreditou que o príncipe dos sonhos lhe daria uma vida melhor. O homem, porém, desapareceu e, depois de um tempo, ela descobriu que estava grávida novamente. "Pra mim foi o fundo do poço. Você grávida de uma pessoa que você nem sabe quem é. Eu nunca engravidei na rua. Era uma vergonha", disse ela, que não sabe o nome ou o país de origem do pai de sua filha.
Após tentativas frustradas de provocar um aborto, ela foi convencida a não dar sua filha para a adoção, e foi levada a um tratamento de desintoxicação na Sociedade da Redenção. A estrada para a recuperação foi árdua, e ela chegou a repetir o ciclo e bater na filha recém-nascida. "Eu entrei em depressão e tinha tanta vergonha. Eu era que nem a minha mãe e eu me sentia triste com isso."
Há um ano e meio, Maria do Socorro encontrou um novo companheiro com quem teve mais um filho, desta vez, planejado e com acompanhamento médico. Os quatro vivem em uma pequena casa afastados do local onde as lembranças eram mais fortes. "Muita coisa ficou, eu não deixo minha filha na rua pra brincar, tenho medo."
Maria do Socorro ainda pretende se reaproximar dos filhos que vivem com sua mãe adotiva. Enquanto isso, ela ainda tenta se entender com o próprio passado. "Minha filha que vive comigo vive perguntando quem é o pai dela. Eu tenho vergonha, eu minto, cheguei a dizer que ele morreu."
Dois dias presa em um ponto de prostituição
Com Joana*, de Pernambuco, a história não começou na violência. Criada pela tia, ela diz não ter tido problemas em casa. Seu problema existia nas ruas e se aproveitava de meninas imaturas que gostavam de brincar desacompanhadas. "Eu gostava de sair, de conhecer o mundo, né", afirmou ela. Na noite de Ano Novo de 2008, com 17 anos recém-completos, a adolescente acompanhou uma conhecida do bairro a outro local. A menina lhe disse que precisava buscar uma troca de roupa para aproveitar o Réveillon. Chegando lá, porém, Joana disse que se deparou com um espaço aberto lotado de homens, e mulheres que faziam programa
"Eu não sabia dos perigos que a rua causava. Achavam que eu estava fazendo programa. Perguntavam se eu queria ficar com eles. 'Você quer ficar comigo? Eu lhe ajudo a voltar pra casa'", reconta ela. Sem crédito no celular, só depois de dois dias Joana conseguiu convencer um dos homens da região a levá-la de volta ao seu bairro. Antes disso, porém, ela diz ter sido obrigada a ficar com quatro homens contra a sua vontade, após sofrer ameaças de agressão e propostas de programas pagos em trocados ou comida. Um dos homens a ameaçou com uma arma e tentou impedir que ela tentasse ligar para a mãe.
Além de notar a presença de outras adolescentes no local, ela diz ter conhecido um estrangeiro por lá. O homem, que segundo ela era alemão, lhe disse que havia escutado várias vezes relatos de outras jovens como ela.
Na volta para casa, com vergonha de enfrentar a mãe, Joana se escondeu na casa de amigas e precisou ser acalmada pelos vizinhos. "Eu era muito aventureira, por isso não avisei minha mãe aonde eu ia. Ela esperou por mim três dias chorando", relembra ela.
Nas ruas de Recife, Joana diz que abordagens de adolescentes por homens adultos são comuns, independente de haver oferecimento por parte delas. Ela afirma que, também com 17 anos, foi parada na rua por homem que lhe ofereceu trabalho. Depois de anotar os dados pessoais dela, ele a conduziu a um suposto escritório, onde tentou fazer com que ela posasse nua para fotos. Ao perceber a armadilha, Joana se recusou e conseguiu fugir, ouvindo do homem que ninguém acreditaria em sua história, se ela a contasse.
"Existem muitas pessoas que não têm nenhum instinto de ser humano. Que esquecem o que é família, o que é vida, o que é criança, o que é uma pessoa perdida", afirma ela. Segundo Joana, esse tipo de pessoa pode se aproveitar de adolescentes imaturas como ela foi um dia. "Principalmente na Copa."
Copa aumenta fatores de vulnerabilidade
Anna Flora Werneck, gerente de Programas da Childhood Brasil, afirma que não é a Copa do Mundo que traz riscos de exploração sexual infantil, "mas alguns fatores da Copa aumentam a vulnerabilidade para que isso ocorra". Ela cita a grande movimentação de pessoas, a antecipação das férias escolares –que dá mais um motivo para os menores de idade ficarem ociosos–, a oferta de bebida alcoólica e o trabalho informal. Além da Copa, esses fatores também aparecem em outros eventos, como o Carnaval, as paradas LGBT e corridas de Fórmula 1. Por isso, segundo ela, o problema não deve ser esquecido a partir de 12 de julho.
Segundo ela, a exploração sexual infantil é móvel. "De certa forma ela é visível, mas é invisível. Você descobre o ponto, divulga, e as redes criminosas rapidamente vão para outro lugar." Apesar disso, diz a especialista, os espaços onde esse tipo de rede pode atuar sempre têm semelhanças, principalmente fatores de vulnerabilidade. Entre eles estão problemas familiares, incluindo maus tratos, e regiões com baixo índice de desenvolvimento humano, como as favelas e comunidades mais pobres.
São fatores como esse que levam as crianças e adolescentes às ruas, e lá as redes de tráfico de drogas e de prostituição não demoram a encontrá-las.
De acordo com a Childhood Brasil, os efeitos da violência são duradouros. Em pesquisa feita em 2009 com 69 adolescentes resgatadas de situações de exploração sexual, 60,9% delas afirmaram que já pensaram no suicídio. Dessas, 58,1% já tentaram tirar a própria vida. O número é dez vezes mais alto que a média brasileira.
"Quando violência sexual acontece, normalmente outros direitos já foram violados. Para garantir o direito, tem que garantir que a criança não esteja na rua, não está vendendo drogas, não está em situação de trabalho infantil, não está fora da escola, não se sente diminuída, insegura, não está brincando no esgoto."
'Escuridão' é para sempre
A escritora, historiadora e funcionária pública Maura de Oliveira Lobo já nasceu sem direitos. Era a década de 1970, bem antes do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), e suas primeiras lembranças são de quando ela tinha 4 anos de idade e vivia nas ruas do Rio de Janeiro com a mulher que lhe deu o sobrenome Oliveira. "Não sei dizer onde eu nasci, porque eu não tenho referência dos meus pais. Foi uma mulher da rua que me registrou. Era uma mulher sem paradeiro", reconta Maura, que adotou o sobrenome Lobo após casar pela segunda vez, anos depois de conseguir se emancipar e escapar de uma década de violência emocional, física e sexual.
O problema de Maura não foi a prostituição infantil, mas a pedofilia na residência de uma família que a acolheu aos sete anos com o intuito de fazê-la responsável pelo trabalho doméstico. Após sofrer três anos de violência sexual do pai da família, ela passou outros sete nas mãos do genro dele, que a tratava da mesma forma. Maura só conseguiu sair da tutela da família aos 16 anos, idade em que, naquela época, a pessoa ganhava o direito de ser ouvida pela Justiça.
Hoje, Maura tem a própria família e mantém uma ONG que atende crianças em situação de exploração sexual infantil. "É uma ruptura, é uma maldade tão grande que é para sempre. Para sempre vai se viver numa escuridão dessa lembrança ruim. Eu posso lhe garantir que não tem volta." Ela afirma que é feliz, mas só conseguiu superar o que chama de "escuridão" depois de começar a trabalhar para ajudar a resgatar outras crianças que passam pelo mesmo que ela passou. "É triste ver que a mesma história ainda acontece. Ainda existe muita exploração, muita violência infantil. É como se a gente olhasse para trás e visse o mesmo filme todos os dias", diz Maura.
Apesar de a grande maioria dos casos de pedofilia envolverem familiares, os riscos de casos de exploração sexual infantil durante a Copa do Mundo no Brasil preocupam a escritora. "Não existe uma criança se tornar uma mulher. Não existe. Uma criança é uma criança tanto no seu corpo quanto na sua alma", afirma ela.
"Gostaria que os turistas olhassem para o futebol, olhasse para as belezas naturais, mas nunca que olhassem para essas crianças desejando-as. Que possam olhar para aquela criança e pensar em si próprio. Só quando a pessoa consegue se colocar no lugar do outro ela consegue pensar na dor alheia. Não é possível que três minutos de prazer seja suficiente para destruir o futuro de uma vida."
Não há números exatos sobre quantas crianças e adolescentes são vítimas de exploração sexual no Brasil. Segundo estimativa da Organização Internacional do Trabalho (OIT), 100 mil menores de idade, principalmente meninas, são exploradas em mais de 900 municípios do país, quase metade deles no Nordeste. Embora o problema seja de difícil detecção, quem já o sofreu na pele garante: o trauma é real, profundo, e dura para sempre.
O G1 ouviu o relato de mulheres de Fortaleza e Recife que, em determinados momentos de sua infância, adolescência e até na idade adulta, sofreram algum tipo de violência sexual. As histórias têm começos distintos, mas o fim é parecido: ele ainda não chegou, mas segue carregado de medo, choro e vergonha. A maioria até hoje mantém esse passado escondido das próprias famílias.
Por isso, os nomes marcados com asteriscos foram trocados para preservar as identidades dessas mulheres.
Violência durante a vida inteira
Dos 32 anos de Maria do Socorro*, 13 foram de agressão familiar; 12 de exploração sexual, prostituição e uso de drogas, e sete de uma nova vida na reabilitação. "Eu nunca amei", diz ela ao lembrar dos anos em que se prostituiu. Ela conta ter tido seis filhos. Cinco deles foram frutos de abuso e prostituição. "Eles não sabem. Não sabem quem são os pais deles. Nunca contei. Tenho medo de que não entendam, de que me odeiem", diz a mulher que, atualmente, trabalha como zeladora com um novo companheiro, no Ceará. "Estou aprendendo agora [a amar]", diz ela.
Adotada aos três anos, ela conta que fugiu de casa aos 13, depois de cansar de apanhar da mãe adotiva. Nas ruas, ela conheceu uma menina e acabou morando na casa da mãe dela, a cafetina que a levou pela primeira vez pelo caminho da prostituição infantil. "O pior dia foi o primeiro, eu nunca tinha feito aquilo. Foi no dia que cheguei. Eu chorava tanto, eu não queria, ela me obrigou", afirma ela, acrescentando que "foi estupro".
Os clientes eram arranjados pela cafetina e os abusos sexuais ocorriam em matagais na Região Metropolitana de Fortaleza. As adolescentes ficavam com uma parcela pequena do dinheiro pago pelos abusos, apenas o suficiente para comprarem drogas. A maior parte do dinheiro ficava com a proprietária da casa.
"Até que eu engravidei e ela me expulsou. Eu tinha 15 anos."
Ela foi morar em um quarto de taipa, nas ruas, onde mantinha relação sexuais em troca de drogas, mesmo grávida. "Eu vivia suja. Eles [os 'clientes'] não ligavam", conta. "Eu dei meu filho quando ele tinha um mês e 20 dias. Procurei minha mãe e dei pra ela. Eu não queria essa responsabilidade. Até hoje ela cuida dele", afirma Maria do Socorro que, dois meses após o nascimento do primeiro filho, engravidou novamente do mesmo "cliente".
A segunda gravidez trouxe um relacionamento fixo, uma nova rotina e novos vícios. "Eu parei de me prostituir e fui pedir esmolas e comecei a usar crack", diz. Maria do Socorro criou a filha nestas circunstâncias até os cinco anos. "Mas eu perdi a guarda dela porque me denunciaram." Aos 20 e poucos anos e viciada em drogas mais pesadas, ela largou o companheiro, que a espancava, e foi em busca de clientes com mais dinheiro e mais exigentes. Ela passou a se prostituir na Avenida Beira Mar, um dos principais pontos turísticos de Fortaleza. "Aqui [no bairro em que vive] meus clientes eram velhos e tudo acabava rápido, né? Pagava pouco. Lá [na Beira Mar] não, eles queriam curtir a droga com a gente. Mas também demorava mais, era a noite toda. Quando começava, eu queria era que acabasse logo", conta.
Na Beira Mar, ela se envolveu com um estrangeiro e, como muitas garotas, acreditou que o príncipe dos sonhos lhe daria uma vida melhor. O homem, porém, desapareceu e, depois de um tempo, ela descobriu que estava grávida novamente. "Pra mim foi o fundo do poço. Você grávida de uma pessoa que você nem sabe quem é. Eu nunca engravidei na rua. Era uma vergonha", disse ela, que não sabe o nome ou o país de origem do pai de sua filha.
Após tentativas frustradas de provocar um aborto, ela foi convencida a não dar sua filha para a adoção, e foi levada a um tratamento de desintoxicação na Sociedade da Redenção. A estrada para a recuperação foi árdua, e ela chegou a repetir o ciclo e bater na filha recém-nascida. "Eu entrei em depressão e tinha tanta vergonha. Eu era que nem a minha mãe e eu me sentia triste com isso."
Há um ano e meio, Maria do Socorro encontrou um novo companheiro com quem teve mais um filho, desta vez, planejado e com acompanhamento médico. Os quatro vivem em uma pequena casa afastados do local onde as lembranças eram mais fortes. "Muita coisa ficou, eu não deixo minha filha na rua pra brincar, tenho medo."
Maria do Socorro ainda pretende se reaproximar dos filhos que vivem com sua mãe adotiva. Enquanto isso, ela ainda tenta se entender com o próprio passado. "Minha filha que vive comigo vive perguntando quem é o pai dela. Eu tenho vergonha, eu minto, cheguei a dizer que ele morreu."
Dois dias presa em um ponto de prostituição
Com Joana*, de Pernambuco, a história não começou na violência. Criada pela tia, ela diz não ter tido problemas em casa. Seu problema existia nas ruas e se aproveitava de meninas imaturas que gostavam de brincar desacompanhadas. "Eu gostava de sair, de conhecer o mundo, né", afirmou ela. Na noite de Ano Novo de 2008, com 17 anos recém-completos, a adolescente acompanhou uma conhecida do bairro a outro local. A menina lhe disse que precisava buscar uma troca de roupa para aproveitar o Réveillon. Chegando lá, porém, Joana disse que se deparou com um espaço aberto lotado de homens, e mulheres que faziam programa
"Eu não sabia dos perigos que a rua causava. Achavam que eu estava fazendo programa. Perguntavam se eu queria ficar com eles. 'Você quer ficar comigo? Eu lhe ajudo a voltar pra casa'", reconta ela. Sem crédito no celular, só depois de dois dias Joana conseguiu convencer um dos homens da região a levá-la de volta ao seu bairro. Antes disso, porém, ela diz ter sido obrigada a ficar com quatro homens contra a sua vontade, após sofrer ameaças de agressão e propostas de programas pagos em trocados ou comida. Um dos homens a ameaçou com uma arma e tentou impedir que ela tentasse ligar para a mãe.
Além de notar a presença de outras adolescentes no local, ela diz ter conhecido um estrangeiro por lá. O homem, que segundo ela era alemão, lhe disse que havia escutado várias vezes relatos de outras jovens como ela.
Na volta para casa, com vergonha de enfrentar a mãe, Joana se escondeu na casa de amigas e precisou ser acalmada pelos vizinhos. "Eu era muito aventureira, por isso não avisei minha mãe aonde eu ia. Ela esperou por mim três dias chorando", relembra ela.
Nas ruas de Recife, Joana diz que abordagens de adolescentes por homens adultos são comuns, independente de haver oferecimento por parte delas. Ela afirma que, também com 17 anos, foi parada na rua por homem que lhe ofereceu trabalho. Depois de anotar os dados pessoais dela, ele a conduziu a um suposto escritório, onde tentou fazer com que ela posasse nua para fotos. Ao perceber a armadilha, Joana se recusou e conseguiu fugir, ouvindo do homem que ninguém acreditaria em sua história, se ela a contasse.
"Existem muitas pessoas que não têm nenhum instinto de ser humano. Que esquecem o que é família, o que é vida, o que é criança, o que é uma pessoa perdida", afirma ela. Segundo Joana, esse tipo de pessoa pode se aproveitar de adolescentes imaturas como ela foi um dia. "Principalmente na Copa."
Copa aumenta fatores de vulnerabilidade
Anna Flora Werneck, gerente de Programas da Childhood Brasil, afirma que não é a Copa do Mundo que traz riscos de exploração sexual infantil, "mas alguns fatores da Copa aumentam a vulnerabilidade para que isso ocorra". Ela cita a grande movimentação de pessoas, a antecipação das férias escolares –que dá mais um motivo para os menores de idade ficarem ociosos–, a oferta de bebida alcoólica e o trabalho informal. Além da Copa, esses fatores também aparecem em outros eventos, como o Carnaval, as paradas LGBT e corridas de Fórmula 1. Por isso, segundo ela, o problema não deve ser esquecido a partir de 12 de julho.
Segundo ela, a exploração sexual infantil é móvel. "De certa forma ela é visível, mas é invisível. Você descobre o ponto, divulga, e as redes criminosas rapidamente vão para outro lugar." Apesar disso, diz a especialista, os espaços onde esse tipo de rede pode atuar sempre têm semelhanças, principalmente fatores de vulnerabilidade. Entre eles estão problemas familiares, incluindo maus tratos, e regiões com baixo índice de desenvolvimento humano, como as favelas e comunidades mais pobres.
São fatores como esse que levam as crianças e adolescentes às ruas, e lá as redes de tráfico de drogas e de prostituição não demoram a encontrá-las.
De acordo com a Childhood Brasil, os efeitos da violência são duradouros. Em pesquisa feita em 2009 com 69 adolescentes resgatadas de situações de exploração sexual, 60,9% delas afirmaram que já pensaram no suicídio. Dessas, 58,1% já tentaram tirar a própria vida. O número é dez vezes mais alto que a média brasileira.
"Quando violência sexual acontece, normalmente outros direitos já foram violados. Para garantir o direito, tem que garantir que a criança não esteja na rua, não está vendendo drogas, não está em situação de trabalho infantil, não está fora da escola, não se sente diminuída, insegura, não está brincando no esgoto."
'Escuridão' é para sempre
A escritora, historiadora e funcionária pública Maura de Oliveira Lobo já nasceu sem direitos. Era a década de 1970, bem antes do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), e suas primeiras lembranças são de quando ela tinha 4 anos de idade e vivia nas ruas do Rio de Janeiro com a mulher que lhe deu o sobrenome Oliveira. "Não sei dizer onde eu nasci, porque eu não tenho referência dos meus pais. Foi uma mulher da rua que me registrou. Era uma mulher sem paradeiro", reconta Maura, que adotou o sobrenome Lobo após casar pela segunda vez, anos depois de conseguir se emancipar e escapar de uma década de violência emocional, física e sexual.
O problema de Maura não foi a prostituição infantil, mas a pedofilia na residência de uma família que a acolheu aos sete anos com o intuito de fazê-la responsável pelo trabalho doméstico. Após sofrer três anos de violência sexual do pai da família, ela passou outros sete nas mãos do genro dele, que a tratava da mesma forma. Maura só conseguiu sair da tutela da família aos 16 anos, idade em que, naquela época, a pessoa ganhava o direito de ser ouvida pela Justiça.
Hoje, Maura tem a própria família e mantém uma ONG que atende crianças em situação de exploração sexual infantil. "É uma ruptura, é uma maldade tão grande que é para sempre. Para sempre vai se viver numa escuridão dessa lembrança ruim. Eu posso lhe garantir que não tem volta." Ela afirma que é feliz, mas só conseguiu superar o que chama de "escuridão" depois de começar a trabalhar para ajudar a resgatar outras crianças que passam pelo mesmo que ela passou. "É triste ver que a mesma história ainda acontece. Ainda existe muita exploração, muita violência infantil. É como se a gente olhasse para trás e visse o mesmo filme todos os dias", diz Maura.
Apesar de a grande maioria dos casos de pedofilia envolverem familiares, os riscos de casos de exploração sexual infantil durante a Copa do Mundo no Brasil preocupam a escritora. "Não existe uma criança se tornar uma mulher. Não existe. Uma criança é uma criança tanto no seu corpo quanto na sua alma", afirma ela.
"Gostaria que os turistas olhassem para o futebol, olhasse para as belezas naturais, mas nunca que olhassem para essas crianças desejando-as. Que possam olhar para aquela criança e pensar em si próprio. Só quando a pessoa consegue se colocar no lugar do outro ela consegue pensar na dor alheia. Não é possível que três minutos de prazer seja suficiente para destruir o futuro de uma vida."
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